Opinião

Ficamos mais seguros sem o Charlie

Quando isto acalmar, as instalações do Charlie Hebdo (CH) fecharem e o luto estiver feito, não estaremos muito melhores sem as chatices que eles armavam?

É que, bem vistas as coisas – e eu li insinuações destas –, não é que eles “merecessem” morrer, mas estavam a puxar “más vibrações” ao gozar com as crenças dos outros. Bom, arrisco mais: alguém vai sentir falta “daquilo”? Havia quem se lembrasse se existiam sem ser quando criavam problemas. Não estaríamos todos mais seguros sem o CH?   

Não é humorista quem quer. Muito menos da escola do CH. Eu não sou humorista. Sou jornalista. Isso tem essencialmente a ver com uma estratégia mental ao nível quase instintivo. Quando se gere uma equipa de humoristas, fica-se chocado com o potencial suicida do material que produzem. O humorista centra-se apenas no primado da “piada” e de ter “acertado” e há uma quase total despersonalização das consequências. Alguém disse que o director do CH era uma criança grande. E acredito. Mas é este tipo de “alienação” levada a um espírito de “missão” contra os poderes instituídos que fazem de alguns humoristas tipos raros. Muito raros. Não é humorista quem quer. Mesmo que saiba desenhar ou representar.

Não se é humorista de um momento para o outro. E estou a pensar no CH. Muito poucos têm a capacidade de desconstruir a realidade instituída que temos como certa e nos a devolver simplificada e ridicularizada – como nunca pensámos que ela podia ser. E talvez até seja. E não será? É mesmo!

Mas voltemos à questão. Ali estávamos, em Paris, comprávamos as nossas revistas de moda, carros e política, e olhávamos de soslaio para a capa do CH, que trazia uma profanidade religiosa desenhada alarvemente e franzíamo-nos e obviamente não comprávamos. Curiosamente, o seu objectivo estava de alguma forma cumprido.

O CH é, era, sempre foi um teste à tolerância pessoal e das instituições democráticas. Até que ponto aguentamos ser provocados nos nossos “proibidos”, nos nossos “sagrados”? O CH tinha uma missão que ainda não fomos capazes de lhe reconhecer: a de monitorizar as nossas próprias barreiras mentais.

E aqui podemos parar um pouco para ver se esta frase pomposa faz algum sentido. Por mais livres que pretendamos ser, por mais imunes às pressões, há a inevitabilidade de, dentro de nós, serem construídos muros e de começarmos a tratar por igual o que é diferente ou diferente o que é igual. Os últimos anos têm sido tremendos nesse aspecto. E por vezes não nos apercebermos. São as alterações na linguagem devido ao politicamente correcto e que alteram o ângulo como olhamos a realidade (para o bem e para o mal). São as hesitações que temos quando tratamos temas referentes ao profeta e ao Islão – sim, não é o mesmo que “gozar” com Jesus.

O CH testava-nos. Ia ao núcleo íntimo do proibido. Dos novos e dos velhos tabus. E por isso era acusado de ser tudo e o seu oposto: racista e homofóbico, anti-religioso e antidireita, antiextremista e antianti. O prazer jocoso profano, iconoclasta e desafiador permitia que sentíssemos o pulso dos nossos novos temores. E dos mais calcados. Era natural que se detestasse o CH. Hoje não nos lembramos das vezes que nos arrepiámos ao abrir o CH e só depois assimilámos. Era “eh, pá... ai, ai, ah, ah, ah”. Saltar do choque para o riso define a nossa capacidade de não ir atrás de ninguém cortar cabeças.

Aquela gente – aqueles loucos de Paris – desenhavam os medos burgueses há 45 anos. Atacavam as regras, o poder e as opressões das instituições. Ajudavam a que nos percebêssemos. Essencialmente quando ficávamos chocados. Tínhamos mudado. Ao desafiar os radicais islâmicos estavam a fazer o que faziam desde sempre. A lembrar-nos que estamos com medo.

Precisamos deles? É preciso responder?

Director de O Inimigo Público