Mozart regressa a Londres, 250 anos depois

A Classical Opera vai passar os próximos 27 anos a comemorar o aniversário da estadia do compositor austríaco na capital britânica, onde compôs a sua primeira sinfonia. É um projecto megalómano, admite o director da instituição.

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BEN STANSALL/AFP

A vida de Mozart, ano a ano, de 2015 (assinalando a viagem para Londres, onde compôs a sua primeira sinfonia) a 2041 (assinalando a sua morte): vão ser assim os próximos 27 anos da Classical Opera, a companhia que o maestro Ian Page fundou em 1997 para celebrar o génio inultrapassável do grande compositor austríaco. "Sim, algumas pessoas já me disseram que eu posso morrer antes de esta missão acabar", confessou ao Guardian, reconhecendo tratar-se de "um projecto extraordinariamente longo e ambicioso".

Mozart 250 será um extenso flashback com partida em 1765, o ano em que um Wolfgang Amadeus Mozart de apenas oito anos desembarca em Londres, acompanhado pelo pai, que decidira vir exibir a sua criança-prodígio à capital britânica, e chegada em 2041, o ano em que morre prematuramente depois de compor aquela que virá a ser a sua ópera mais representada, A Flauta Mágica. Toda a carreira musical de Mozart, portanto, incluindo capítulos particularmente desconhecidos como o desta etapa londrina – uma etapa fundadora para uma criança já então extraordinariamente dotada para a música e que então se vê mergulhada numa cidade fervilhante, onde assiste a uma obra que nunca mais esquecerá, Adriano in Siria, de JC Bach (acerca dele, escreverá mais tarde: "Amo-o de todo o meu coração e tenho por ele a mais elevada consideração"). 

É em Londres, onde vive entre Charing Cross Road e Frith Street, que Mozart compõe a sua primeira sinfonia. Tinha acabado de se mudar para Chelsea, então uma zona rural, e de se ver proibido de tocar os seus instrumentos para não fazer demasiado barulho. A Sinfonia nº 1 será um dos grandes destaques do programa de 2015. Page diz que a partitura original é fascinante: "A música é tão boa quanto a que os compositores adultos estavam a fazer na altura – mostra já uma voz individual. É um pouco como Shakespeare: há peças melhores e peças piores, mas todas têm coisas que não teriam ocorrido a absolutamente mais ninguém", explicou ao Guardian. Até 2041, a Classical Opera, dirigida por Ian Page, vai executar as grandes obras de Mozart por ordem cronológica: todas as óperas, oratórias e árias de concerto, a maioria das sinfonias e dos concertos, grande parte das peças de câmara e das composições instrumentais, dadas a ouvir exactamente 250 anos após a sua estreia absoluta ou do momento irrepetível em que foram compostas. "Espero que este programa permita dar a conhecer os altos e baixos de Mozart, revelando quer os momentos em que estava em forma quer aqueles em que estava em dificuldades, quer as obras que compôs apenas para ganhar dinheiro como as que criou obedecendo ao seu instinto artístico mais puro." Mozart 250 passará também, já a 22 de Janeiro, no Wigmore Hall, por uma reconstituição do ambiente que se vivia em Londres na segunda metade do século XVIII e da música que lá se ouvia (Gluck, Haydn), incluindo a primeira produção moderna de Adriano in Siria. Em Fevereiro, um fim-de-semana imersivo explorará, no Milton Court, os episódios da estadia do compositor na capital britânica, com uma agenda de concertos e conferências a cargo da British Library. Mas haverá anos mais intensos do que outros, a começar por 2017, aquele em que Mozart, então com 11 anos, deu início à sua produção operática.

Além de convocar explicitamente os admiradores do compositor, Mozart 250 destina-se também aos públicos menos familiarizados com a música clássica: "Ficaria deprimido se não tivéssemos connosco pessoas que querem saber mais sobre Mozart. Há muita gente que poderia gostar de ópera em particular e de música clássica em geral mas que se sente demasiado assustada ou intimidada pelo elitismo do meio", lamenta Page, que acolheu todas as sugestões para tornar mais rico o mergulho na vida e na obra do compositor à excepção de uma que lhe parece escusada: um concerto integralmente preenchido com obras de Salieri, o grande rival de Mozart. "Muito poucas pessoas ouviram a sua produção, mas na verdade não creio que nenhuma das suas obras seja suficientemente boa para justificar esse exercício. Seria um enorme desperdício."