O Palácio da Pena recebe um novo ciclo de concertos

Entre 21 de Dezembro e 14 de Fevereiro, os Serões Musicais no Palácio da Pena evocam temas do imaginário romântico e figuras ligadas ao património Sintra como o rei D. Fernando II e a Condessa de Edla.

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Palácio da Pena, arquitectura de inspiração germânica com influências mouras, góticas e manuelinas PSML Emigus
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A musicóloga Luísa Cymbron, Professora da Universidade Nova de Lisboa e especialista na música do século XIX DR

A partir deste domingo, Sintra e o Palácio de Pena contam com um novo ciclo de concertos temáticos inspirados na paisagem, na história e nas múltiplas dimensões do imaginário romântico deste emblemático local, moldado pelo gosto de D. Fernando II, rei consorte de Portugal pelo seu casamento com D. Maria II em 1836. Com o título Serões Musicais no Palácio da Pena, o ciclo é promovido pela Parques de Sintra e pelo Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal (CEMSP), sediado no Palácio de Queluz e criado por iniciativa da orquestra Divino Sospiro.

Até 14 de Fevereiro, o Salão Nobre do palácio vai receber quatro programas a cargo de diversos cantores e instrumentistas portugueses (às 21h30), sempre precedidos por breves conferências pela musicóloga Luísa Cymbron (às 21h). Professora da Universidade Nova de Lisboa e especialista na música do século XIX, Luísa Cymbron é autora de diversas publicações nesta área das quais se destaca o seu recente livro Olhares sobre a música em Portugal no século XIX: ópera, virtuosismo e música doméstica (Colibri/CESEM, 2012).

Para além de tópicos do universo romântico como a Natureza e o exotismo, figuras ligadas ao ambiente de Sintra serão evocadas através da música. É o caso do já referido rei D. Fernando, nascido na Alemanha e responsável por parte do actual património florestal da Serra de Sintra e pela edificação do Palácio da Pena, cuja arquitectura de inspiração germânica se combina com influências mouras, góticas e manuelinas ditadas pelo gosto eclético do monarca; da sua segunda mulher Elise Hensler (Condessa de Edla), que foi cantora de ópera e por quem o rei se apaixonou depois de a ter ouvido cantar no Teatro de São Carlos em 1860; e do famoso poeta inglês Lord Byron. A citação Cintra’s Glorious Eden, extraída do poema narrativo Childe Harold Pilgrimage serve precisamente de título ao concerto deste domingo à noite, a cargo do Trio Aeternus.

Constituído pelo violinista inglês Alexander Stewart, pelo pianista polaco Lucjan Luc e pelo violoncelista arménio Varoujan Bartikian (todos residentes em Portugal), estre agrupamento criado em 2013 interpreta excertos da ópera Der Freischütz de Carl Maria von Weber e obras de Schubert e Smetana, procurando ilustrar o fascínio que a Natureza exerceu sobre os músicos do século XIX.

No dia 10 de Janeiro será a vez do serão Exotismos com a soprano Dora Rodrigues, o barítono Luís Rodrigues, o tenor Mário Alves e o pianista João Paulo Santos. Presentes em vários traços arquitectónicos do Palácio da Pena, os elementos de exotismo inserem-se num movimento artístico bem mais amplo que inclui diferentes abordagens e referências deste conceito e que, ao nível da música, teve especial expressão em França.

O programa inclui árias de compositores como Bizet, Saint-Säens, Jules Massenet e Carl Loewe, mas o destaque vai para a possibilidade de ouvir também repertório ainda pouco conhecido da autoria dos compositores portugueses Alfredo Keil, Francisco Xavier Migone, Francisco Sá de Noronha e Miguel Ângelo Pereira.

O programa de 31 de Janeiro presta homenagem a Elise Hensler: Rainha da Pena, contando novamente com o pianista João Paulo Santos e com os cantores Cristiana Oliveira (soprano) e Nuno Pereira (barítono) num recital preenchido com obras de Millard, Pease, Alfredo Keil, Vianna da Motta, Saint-Saëns, Gounod, Strauss, Donizetti, Lachner, Mercadante e Verdi. Nascida na Suíça, Hensler estudou no Conservatório de Paris e fez carreira como cantora no circuito operático italiano, tendo chegado a Portugal como membro da Companhia de Laneuville.

Poucos dias antes do seu controverso casamento com D. Fernando (a 10 de Junho de 1869) foi-lhe concedido o título de Condessa de Edla. Além da paixão pela música, Elise Hensler (cujo chalet em Sintra foi restaurado em 2011) manteve um profundo interesse pela plantação e manutenção do Parque da Pena e dedicou-se à pintura, à cerâmica e à escultura. Patrocinou também vários artistas como é o caso de Columbano Bordalo Pinheiro e de Vianna da Motta.

No último concerto, a 14 de Fevereiro, os homenageados serão o próprio D. Fernando e o Palácio da Pena, imponente testemunho das raízes alemãs do monarca. Uma viagem que inclui peças de várias tradições musicais europeias (da autoria de Liszt, Meyerbeer, Rossini, Frondoni, Saint-Saëns, Gounod, Rubinstein e Verdi) e faz inclusive a ponte até ao Brasil através da obra de Artur Napoleão (nascido no Porto e falecido no Rio de Janeiro) através das vozes de Ana Franco, Carolina Figueiredo, Bruno Almeida e João Merino em colaboração com o pianista João Paulo Santos e o trompista Paulo Guerreiro.