Mais de 60% dos doentes internados chegam aos hospitais pelas urgências

Estudo Portugal Top 5 – A Excelência dos Hospitais atribuiu prémios de desempenho a cinco unidades, sendo o grupo dos grandes liderado pelo Centro Hospitalar do Porto. Mas pelo caminho encontrou problemas em vários indicadores das instituições do Serviço Nacional de Saúde.

O Hospital de Santo António lidera a tabela dos grandes centros hospitalares
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O Hospital de Santo António lidera a tabela dos grandes centros hospitalares Fernando Veludo/Nfactos

A maior parte dos doentes internados nos hospitais continuam a chegar às unidades de saúde através das urgências, quando as doenças já estão bastante descompensadas. Nos 41 hospitais do Serviço Nacional de Saúde esta situação varia, em média, entre os 60% e os 75% – sendo o pior valor registado nas Unidades Locais de Saúde (ULS) e o melhor nos grandes centros hospitalares. As conclusões fazem parte do trabalho Portugal Top 5 – A Excelência dos Hospitais, apresentado nesta terça-feira, em Lisboa. O estudo, relativo a 2013, analisou critérios distintos, desde a mortalidade à demora média dos internamentos, atribuindo prémios aos cinco hospitais com melhor desempenho em vários indicadores. No grupo dos grandes hospitais venceu o Centro Hospitalar do Porto.

“A urgência hospitalar é a maior fonte de internamento, o que nos remete para as fragilidades na rede pública de prestação de cuidados de saúde. Não é aceitável que um país organizado em termos de sistemas de saúde tenha tantas admissões pelas urgências, na ordem dos 70% em todo o país”, descreve ao PÚBLICO Manuel Delgado, director-geral em Portugal da consultora multinacional de origem espanhola IASIST, responsável pelo trabalho, que contou com o patrocínio do ministro da Saúde.

O antigo presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares destaca que o pior resultado em termos de episódios de internamentos urgentes é paradoxalmente encontrado nas ULS, que são estruturas que integram os hospitais e centros de saúde de uma mesma zona com o objectivo de ter um acompanhamento mais completo do doente. “O modelo das ULS continua a fazer sentido, mas agora só utiliza o nome. O essencial da questão é que estas unidades não têm um comportamento ajustado a uma estrutura integrada. São apenas um somatório de serviços”, justifica Manuel Delgado.

O também professor da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa refere que alguns dos piores resultados foram encontrados nas ULS, nomeadamente na demora média de internamento. No entanto, um dos prémios foi para a Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, uma vez que o Top 5 agrupou os estabelecimentos em cinco categorias, consoante a tipologia dos hospitais, seguindo os mesmos critérios da Administração Central do Sistema de Saúde. Um dos grupos tem apenas as ULS, justificando Delgado que estas unidades pelas suas características poderiam ter resultados diferentes. “A dimensão e complexidade dos hospitais influencia muito os resultados”, resume .

Para tornar as comparações possíveis, de fora ficam os hospitais psiquiátricos, as maternidades e os institutos portugueses de oncologia. Já a taxa de cesarianas foi avaliada para apenas para efeitos de estudo, uma vez que nem todos os hospitais realizam partos. Também aqui há valores preocupantes, com uma ULS a ultrapassar os 41% de cesarianas e com a melhor média dentro de um dos grupos a ficar-se pelos 29,2%.

Publicamente só foram divulgados os três nomeados para cada um dos cinco grupos e o respectivo vencedor. No “grupo E”, que reúne as das maiores instituições, a distinção foi entregue ao Centro Hospitalar do Porto (Hospital de Santo António), estando entre os finalistas também os centros hospitalares de São João e de Lisboa Central. Já nas ULS, nas finalistas estava a ULS do Alto Minho e a ULS de Matosinhos. No “grupo D”, o galardão entregue pelo ministro Paulo Macedo foi para o Hospital do Espírito Santo, em Évora, que chegou à lista final com os hospitais de Braga e Garcia de Orta.

Entre os hospitais mais pequenos, aos nomeados do “grupo C” chegaram o Hospital Beatriz Ângelo, o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa e o Centro Hospitalar de Entre o Douro e o Vouga, sendo o prémio entregue a este último. Já no “grupo B”, o Hospital Santa Maria Maior – Barcelos venceu na sua categoria, chegando ao fim ao lado do Hospital Distrital da Figueira da Foz e do Centro Hospitalar Póvoa de Varzim/Vila do Conde.

Questionado sobre a diferença entre este trabalho da IASIST, que passará a ser feito anualmente, e o ranking dos hospitais da Escola Nacional de Saúde Pública que é divulgado há vários anos, Manuel Delgado explica que “a escola trabalha quase que exclusivamente com base na mortalidade”. “A grande diferença é que nós não fazemos comparações em grosso. Criámos ‘potes’ diferentes para os hospitais e temos uma bateria de indicadores muito mais vasta”, esclarece, dando como exemplo o índice de cirurgias de ambulatório, o número de doentes por médico e por enfermeiro, os custos médios por doente ou os reinternamentos de doentes menos de 30 dias após a alta. O objectivo, acrescenta Delgado, é que o Top 5 seja “um estímulo para que os hospitais tentem melhorar o seu desempenho”, pelo que todos os que participaram vão ficar a saber individualmente os seus resultados.

Para Manuel Delgado, a “surpresa” do trabalho está nos bons resultados dos “pequenos”, como os hospitais de Barcelos e de Évora. Mas nos “grandes” também há valores que não esperavam, que se nota sobretudo pela ausência de Coimbra da lista. Ainda assim, adianta que “nos hospitais centrais os resultados são muito homogéneos e mesmo os que não aparecem nos vencedores estão muito encostados”. Quanto a indicadores específicos, “quando mais complexo é um hospital, mais dias os doentes ficam internados”, adianta, mas sublinhando que quando se compara a demora de internamento com a complexidade dos doentes os grandes centros ficam bem na fotografia e as ULS pioram.

Em termos económicos e de produtividade, também são os “grandes” a conseguir melhores resultados e os valores de mortalidade voltam a destacar-se pela positiva nos maiores. “Se trabalhar num hospital que só faz hérnias e varizes a probabilidade de mortalidade é zero. Se fizer cirurgia torácica essa probabilidade sobe”, exemplifica Delgado, dizendo que quando se olha para a mortalidade tendo em conta estas diferenças que o “grupo D”, o logo a seguir aos maiores, é o que tem piores números – mas que a consultora atribuiu a “deficiências” no registo dos dados que criam vieses.

Os dados vão ao encontro de um outro estudo apresentado em Dezembro do ano passado pela mesma consultora sobre os doentes crónicos. O trabalho estimava que 18% das pessoas que chegaram aos hospitais em 2012 com as suas patologias crónicas descompensadas poderiam, com o devido acompanhamento e prevenção nos cuidados de saúde primários, ter evitado este agravamento. Já em 2012 a IASIST tinha divulgado um estudo que apontava para que os hospitais portugueses desperdiçassem, em média, 56 mil dias de internamento por ano ao prolongarem a estadia dos doentes.