Uma obra-prima com o Brasil inteiro dentro

Quatro anos depois de ter desistido da música, três anos depois de mudar de ideias e editar Nó Na Orelha, Criolo lança uma obra-prima com o Brasil inteiro dentro.

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Ele devia ter morrido de sub-nutrição aos 13, ou de violência de rua aos 17, e aí está, mais forte que nunca, mas não lhe chamem Lázaro que sua graça é Kleber Cavalcante Gomes, homem que em 2011 renasceu – ou será que morreu?

Num dia Kleber decidiu matar Criolo, o seu alter-ego artístico, e afastar-se da música para se dedicar a ser só o senhor Gomes, sujeito com escasso dinheiro para alimentar os seus filhos biológicos; noutro, graças a um amigo generoso que o obrigou a gravar as suas canções antes de desistir da carreira, surgiu com o maravilhoso Nó Na Orelha, álbum que fez de Criolo uma figura maior da música brasileira e deixou meio mundo na dúvida se o rapper seria capaz de dar seguimento a tão grandioso feito.

A espera e a dúvida acabaram: três anos depois Criolo regressa aos discos de originais com Convoque Seu Buda, o Brasil inteiro peneirado, samplado e sobreposto a beats imaculados, sobre os quais o MC rapa acerca da dura procura da felicidade entre a realidade bruta do seu país.

Não vem que não tem que aqui tem tudo, mermão: o samba, o axé, aquele funk mulato criado pelo branco Marcos Valle, o swing dos bailes populares brasileiros, as mais variadas percussões, capoeira, a raiz africana do Brasil, esse disco não tem fim e muito menos uma nota só: há luxúria de cordas e sintetizadores funk (Cartão de visita), metais swingados (Casa de papelão), reggae, rock, uma gigantesca placenta musical recomposta de acordo com regras que só o próprio Criolo conhece, e uma noção de refrão e de verso admiráveis: “O trabalhador que corre atrás do pão/ é humilhação demais/ que não cabe nesse refrão”, rapa Criolo antes de uma flauta pastoral vir amansar a faixa-título. E pensar que isto nunca teria existido não fora 2011.

Nessa altura, “e com 20 anos de carreira”, recorda o MC, ao telefone de São Paulo, “decidi que não subiria mais aos palcos. Achei que ao fim de duas décadas já tinha dado a minha contribuição e era hora de tratar de mim. Eu continuaria escrevendo as minhas coisas, porque isso é um processo natural, de coração, que não pára, mas oficialmente entraria na reforma musical”.
Para quem só conhece Criolo dos discos é estranho imaginá-lo a abdicar de tamanho talento, mas é preciso ver o lado de Kleber: nesses vinte anos “nunca consegui[u] viver da música”: foi “faxineiro, vendedor de doce na avenida, trabalhador de empresa de limpeza, vendedor de roupa na rua”, tudo para poder continuar a fazer os seus versos.
Ele não se queixa, antes pelo contrário, não deixa de repetir que “a música sempre foi uma boa companheira nestes momentos difíceis”. “A vida é muito dura aqui”, ouvimo-lo dizer – e logo acrescenta, com humildade: “Acho que no mundo todo. Em todo o lado as pessoas passam por provações para ter uma vida digna”. Para mais quando, como ele, se tem 50 filhos – isto é, além dos biológicos.

Durante anos, entre 1994 e 2000, Criolo trabalhou em educação de arte em projectos sociais. Herdou essa tendência da mãe, “que dedicou a sua vida a ensinar arte e cultura na periferia de São Paulo”. Entre outras iniciativas, Criolo criou a Rinha dos MC's, projecto de batalhas semanais de hip-hop que também abarca outras artes, da fotografia ao graffitti.
O resultado é que hoje “há uns 50 garotos aqui [nos subúrbios de São Paulo, de onde é natural] que [ele] apadrinh[a], que aconselh[a] e tent[a] encaminhar”. “Quando eles eram adolescentes eu era adulto, era a pessoa que lhes dizia para não ir pelo mau caminho, que os levava para a arte. Tenho uma obrigação para com eles”, explica.

Vendo as coisas assim, faz sentido que Kleber tenha pensado em desistir: “aos 35 anos” era um exemplo para a sua comunidade mas “ainda vivia em casa dos [seus] pais”, Cleon e Maria, de “origem nordestina”. Até que “um amigo" o "obrigou a gravar" as últimas canções que tinha feito para ele e para a minha família. E aí nasceu Nó Na Orelha, que lhe valeu os prémios de Melhor Disco, Revelação e Melhor Música (Não Existe Amor em SP) da MTV; e Revelação/Música Popular, da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Não se pense que só por ter ido parar às capas das revistas a vida de Criolo se tingiu de cor-de-rosa: “Ainda é difícil viver da música, mas sobrevivo”, confessa. Todo o guito que entra é “acumulado para fazer novas coisas para o novo ano. Somos independentes, fazemos tudo sozinhos”. O plural tem de ser entendido à luz do modus operando de Criolo: é ele e a sua trupe que editam os seus próprios discos e Convoque Seu Buda está disponível gratuitamente na net, basta googlar. “Dinheiro é dia a dia e homeopático. Mas que bom que estou vivendo isso”, diz, com alegria por simplesmente poder ter continuado a carreira.

Convoque Seu Buda permitir-lhe-á certamente ter mais desafogo e ainda mais respeito e fãs: a classe com que Criolo passeia os seus versos pela gigantesca paleta de heranças musicais brasileiras garante desde já um lugar no Olimpo ao seu criador.
“Essa misturada que faço, isso são coisas que fui aprendendo e ouvindo desde criança”, explica o rapper, dado o mote para um longo e sincero monólogo em que descreve a sua aprendizagem e o seu amor pela música. E seja o leitor um rapaz de classe média baixa de Rio Tinto com o sonho de fazer cinema à Tarkovski ou um herdeiro burguês lisboeta que faz rimas às escondidas, vale a pena ler Criolo na íntegra, mesmo que o parágrafo seja longo:
“Quando muito pequenino vi um colega fazer um verso e achei mágico porque nunca tinha imaginado que se pudesse fazer rima. Nesse mês ouvi um programa de rádio em que um rapaz rimava tudo e aquilo chamava-se rap. O encontro silábico me emocionou muito. O rapaz que fazia rap em inglês na rádio parecia que falava da minha cidade e da minha vida – fosse qual fosse o rapaz. Eu também não sabia tocar nenhum instrumento, por isso o rap era a solução, o rap aceitava-me, e isso é muito forte para um adolescente: ser aceitado”.

Embalar um sonho

Este é, digamos, o ponto zero, a casa-partida e agora façamos forward bem depressa para 2014 e para a explicação que Criolo tem para a gigantesca amálgama sonora de Convoque Seu Buda:
“Comecei por ouvir rap americano, mas sou brasileiro e cada lugar, cada pessoa, vai tendo o seu jeito de se construir. Aprendi muito sobre a cultura dos escravos e acredito que essa raiz africana faz parte da minha herança. Então, de algum jeito, isso acabou influenciando o meu trabalho ao longo dos anos. Mas quando comecei este disco não havia conceito, não era objectivo mostrar as raízes do Brasil, foi mais intuitivo que isso: cheguei com muitas canções a este disco, 70 ou 80, e acabou por ficar o que mais nos emocionou”.

O “nos” refere-se a Daniel Ganjaman e Marcelo Cabra, seus produtores de sempre (muito provavelmente um deles será “o amigo” não nomeado que salvou a carreira de Criolo). Como já fazem música juntos há muito tempo, sabem como funciona: “É assim: quando uma rima vem, já vem, na caminha cabeça, com ritmo e melodia. Então registo num gravadorzinho para não perder a sentença melódica e o ritmo. Depois chego com essa rima aos produtores e eles vão dando roupa”. Neste caso, e só a título de curiosidade, “tirando alguns samples, para dar aquela textura”, o que o ouvinte escuta “é 80% os músicos tocando. Chamámos músicos para dar aquela cor. Então eu chego com a melodia e ela está conversando com a gente, abre diálogo com a música dos nossos antecessores que está dentro de nós e a construção vai indo de modo natural, os músicos, sem nenhum guia, respondem à rima”.

O olhar, a temática lírica do disco, continua a ser o mesmo de sempre: lá fora, nas ruas, “ainda há muita coisa para ser mudada”, e é sobre isso que Criolo rapa. Dizemos-lhe que há cinco anos tínhamos ideia que o Brasil era uma potência emergente e pujante, e agora, depois das manifestações, ficamos com a ideia de que pouco mudou – ou quando muito, e isso é tanto, mudou a consciência social. A resposta não vem preta nem branca, nasce do cinzento: “É difícil dizer se o Brasil está melhor. Está melhor para quem? São muitos Brasis. Enquanto não houver uma melhoria real das condições de vida de todos então não está bom. A gente almeja isso, almeja uma sociedade menos desigual”.

Mas entre o que se sonha e a realidade vai uma distância muito grande, que pode ser descrita como “um abismo”: “Existe um abismo social muito grande no nosso país. Poucos podem tudo e a grande maioria não tem direito a nada”. Não vale a pena fingir que não: “O disco é sobre isso”; mas também convém “não esquecer que é sobre dentro de você existir uma energia maior, que você carrega uma positividade, algo que pode oferecer ao mundo. Todos têm alguma coisa para dar e é à positividade que temos de nos agarrar – sem fechar os olhos ao que está mal”, é como Criolo resume o disco.

Para que a mensagem seja clara ele dá o seu exemplo: estatisticamente, diz, e tendo em conta o lugar de onde veio, “devia ter morrido de subnutrição aos 13 ou violência urbana aos 17”. E se escapou a esse destino foi por uma única razão: “Não desisti da música”.

“Embalar um sonho, acreditar ser possível conquistar alguma coisa, isso é muito importante”, continua Criolo, que nunca abandona o seu tom humilde ao longo de toda a conversa. “Eu tive a sorte de crescer dentro de casa com o exemplo vivo de uma pessoa que lutou toda a sua vida por isso, que é minha mãe. Agora, não sou ingénuo: uma barriga vazia sofre muito, uma criança com barriga vazia não consegue estudar, praticar desporto, pensar, não consegue viver. Não basta arte na vida nas nossas crianças, é necessário uma coisa conjunta: arte, cultura, higiene, saúde, educação – dignidade”.
Criolo, neste instante, não é criolo, é Kleber. Pára por um segundo e depois entrega não uma rima mas uma sentença carregada de amor pelos outros: “Dignidade... Essa palavra concentra o que temos de fazer. Dignidade é a palavra”.
Sejamos todos dignos do talento e da sabedoria deste homem.