Marinho e Pinto formaliza PDR no TC para ter os deputados que o povo lhe “quiser dar”

Eurodeputado recusa negociações pré-eleitorais para as legislativas. Diz que a detenção de Sócrates "não mancha a imagem dos políticos" e que há alguns que "cometeram factos bem mais graves dos que lhe são imputados e continuam em liberdade a gastar de forma obscena".

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Enric Vives-Rubio

António Marinho e Pinto não fala em número de deputados, mas vai concorrer por todos os círculos eleitorais nas próximas legislativas, depois de esta segunda-feira ter entregue no Tribunal Constitucional o processo para a formalização do PDR – Partido Democrático Republicano com cerca de 12 mil assinaturas. O partido irá sozinho às urnas, mas admite “debater soluções democráticas” depois das eleições.

“Isso é para o dr. António Costa e grupelhos esquerdistas, sequiosos de arranjar algum lugar. Não fazemos coligações pré-eleitorais. Depois, estamos abertos a soluções democráticas para o país e aí não excluiremos ninguém desse debate”, afirmou Marinho e Pinto aos jornalistas durante um encontro no Jardim do Príncipe Real, depois de um grupo de elementos do partido ter ido ao TC, na Rua do Século, entregar o processo do partido.

Quantos deputados almeja, então? “Aqueles que o povo português nos quiser dar”, responde sorridente Marinho e Pinto, que em Maio foi eleito eurodeputado pelo MPT – Movimento Partido da Terra, mas depressa se incompatibilizou com os seus dirigentes e passou a independente no plenário europeu. Em poucos meses, organizou a estrutura de um novo partido, do qual é presidente do núcleo fundador. E prepara-se para ser o líder e cabeça de lista às legislativas do Outono do próximo ano.

O principal objectivo do PDR é, segundo Marinho e Pinto, reaproximar os portugueses da política, levando-os a participar activamente no debate político, mas sem concorrer com nenhum partido no sentido tradicional da concorrência comercial. “Queremos trazer essas pessoas para a democracia porque é na democracia que se resolvem os problemas colectivos.”

“Nós dizemos claramente aos portugueses: se estiverem satisfeitos com a actuação do PS, do PSD e do CDS nos últimos 30 ou 40 anos, continuem a votar nesses partidos. Nós então dirigimo-nos àqueles que deixaram de votar e participar na democracia porque se desacreditaram da política.”

Como? “Com um discurso novo, de credibilidade, combatendo a teatralização da política, as encenações que são permanentemente feitas para enganar o povo, combatendo o carreirismo na política, reformando o sistema político, acabando com a cartelização da politica através do monopólio que os partidos exercem sobre a actividade política, abrindo a actividade política aos cidadãos e a novos partidos que queiram participar.”

Uma lista de trabalhos extensa e difícil, admite Marinho e Pinto. Que não defende a redução de deputados, mas preferia antes um Parlamento com duas câmaras, recebendo uma delas os poderes que o Tribunal Constitucional actualmente detém de fazer veto político a legislação a que lhe seja pedida fiscalização da constitucionalidade.

Sobre a dívida pública defendeu que um Estado deve ser cumpridor e que, portanto, Portugal deve pagar a sua na totalidade, ainda que considere que as condições – prazos e juros – devam ser revistos.

Questionado sobre se a detenção do antigo primeiro-ministro mancha a imagem dos políticos, Marinho e Pinto defendeu, bem ao seu estilo, que “uma andorinha não faz a Primavera e a prisão de um político não mancha a dignidade de todos os outros”.

Conhecido por ter defendido José Sócrates noutras ocasiões, desta vez foi menos efusivo. “O problema é que se calhar há alguns políticos bem piores que Sócrates que deviam estar na cadeia”, afirmou, acrescentando: “Se calhar há políticos que cometeram factos bem mais graves do que aqueles que são imputados hoje a José Sócrates e continuam em liberdade a gastar de forma obscena e a exibir de forma obscena as fortunas que acumularam no exercício de funções politicas. Mas isso… a justiça é como é.”

Marinho e Pinto, advogado desde os anos 80, criticou no entanto, a forma como este processo judicial tem sido conduzido. “Não se deve prender para investigar. Primeiro deve-se investigar e depois prende-se se for caso disso. Prender para investigar lembra os piores tempos da Inquisição e do Santo Ofício, das ditaduras totalitárias do século XX. Isso é uma manifestação do atraso civilizacional de Portugal.”