Opinião

Karingana Ua Karingana, o direito de conquista de Craveirinha

A obra de Craveirinha que agora ressurge é, em especial, o livro de baptismos, de histórias, de nomeações que transformam os significantes (quase sempre inócuos) em significado.

Quando Ulisses é interpelado pelo rei dos Feaces para que inicie o seu relato (aquilo que Vasco da Gama fará com o rei de Melinde n’ Os Lusíadas), ele inicia-o do seguinte modo: “Direi primeiro o meu nome… Sou Ulisses, filho de Laertes; pela minha inteligência, considero todos os homens importantes e a minha glória chega ao céu. Habito Ítaca, que se vê de longe…”.

Já Camões parece decalcar o enunciado, incumbindo o Gama de declarar o assunto, pedido nestes termos: “Primeiro tratarei da larga terra,/depois direi da sanguinosa guerra”. Há em todas as histórias um incipit mais ou menos comum – o de insistir na importância da afirmação do eu que fala e de onde fala. A obra Karingana Ua Karingana (publicada apenas em 1974, em Lourenço Marques, mas conhecida muito antes em edições policopiadas) de José Craveirinha toma como opção ideológica o ponto de vista predicativo que organiza a sua retórica a partir de um lugar (o Moçambique colonizado) e de um sujeito, o predicador autonomista e subversivo – “Este jeito/ de contar as nossas coisas/ à maneira simples das profecias” são os três primeiros versos do livro.

Em Agosto de 1988, na feira do livro da festa do Avante!, quando adquiri Karingana Ua Karingana (a expressão é a equivalente à nossa fórmula “era uma vez”), mas também Cela 1 e Chigubo (títulos das Edições 70), estava muito longe de cuidar que, vinte anos mais tarde, abordaria em tese de mestrado as obras de Craveirinha e de Nicolás Guillén, poetas de um vestuário mestiço e de um removido e extorquido lugar de pertença, cada qual sujeito apolis, sem-pátria consumada. Karingana Ua Karingana pode ler-se com uma dicção poética filtrada no modernismo, a partir de sequências descritivas/narrativas que produzem efeitos de fragmentação e uma quase irrecuperável desorganização da subjectividade, por via dos referentes objectivos. Aliás, todo o livro se constitui como equipamento armado contra uma tendência prosaica da poética portuguesa, forma subversiva de uma estratégia de sabotagem e guerrilha literária para afirmação (linguística e política) de um nacionalismo ainda sem pátria. Os neologismos com que, na década de 80, nos deliciámos em Mia Couto eram já recurso estético de Craveirinha muitos anos antes, virtuoso igualmente no uso da expressividade hipalagética. E Karingana Ua Karingana é, em especial, o livro de baptismos, de histórias, de nomeações que transformam os significantes (quase sempre inócuos) em significado. Jorge Urrutia referia-se ao acto de nomear como esquizofrenia, acrescentando que o nomeador “procura exercer o chamado direito de conquista”. É desse direito que se reclama esta obra de Craveirinha: o de consistir em fixar essências em seres destituídos de carácter distintivo, na lógica colonialista das décadas de 40, 50 e 60 – os espoliados, os contratados, as prostitutas, os velhos, os homens e mulheres na antecâmera do anonimato. Por isso, e como já o havia dito noutro lugar, “a nação performativa equivaleria à dimensão dinâmica do registo do quotidiano, como na maioria dos poemas de Karingana Ua Karingana, livro menos teorético e mitificante do que Xigubo”. Ainda assim, o enunciado da obra organiza e fundamenta uma ideologia: “No livro (…) também é possível encontrar exemplos de poemas próximos da Negritude ou mesmo negritudinistas (por vezes, aqueles mais rentes ao efeito verbalizador do poema negritudinista, com as suas alusões supranacionais e intercontinentais)”.

Agora, o jornal PÚBLICO lança mão de uma colecção de “15 obras fundamentais da lusofonia”. Ora, o pequeno Sonto da sua avó, José Craveirinha, não só o merecia como o exigia, em nome da pureza da memória. Que pena a obra sair num 25 de Novembro.

Mestre em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora, com uma tese sobre José Craveirinha e Nicolás Guillén