Depois do ébola, a fome

Na Libéria, o país mais afectado pela epidemia da febre hemorrágica, o estado de emergência foi levantado e a vida quotidiana vai sendo lenta e penosamente retomada. Nos campos de arroz tudo ficou por fazer nestes últimos meses. O que agora se está a colher não vai chegar para alimentar populações inteiras durante o próximo ano.

Arroz acabado de apanhar em Foya
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Arroz acabado de apanhar em Foya Michel du Cille/The Washington Post
Recolha de alimentos na cidade de Kolba
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Recolha de alimentos na cidade de Kolba Michel du Cille/The Washington Post

O vírus do ébola, que já matou mais de 2830 liberianos e provocou o colapso do sistema de saúde do país, também está a atacar as reservas alimentares, provocando episódios intermitentes de fome em vastas regiões da Libéria, numa altura que os 4,1 milhões de habitantes tentam sobreviver à epidemia.

O típico rendimento familiar liberiano, que já figura entre um dos mais baixos do mundo, entrou em queda nos últimos meses porque a epidemia provocou o encerramento de empresas e matou trabalhadores que todas as semanas levavam dinheiro para casa. As fronteiras encerradas com a Serra Leoa, a Guiné-Conacri e a Costa do Marfim reduziram drasticamente o comércio. E os mercados nas aldeias e vilas foram obrigados a fechar para evitar grandes ajuntamentos de pessoas, numa medida de prevenção para travar a transmissão do vírus.

As épocas de plantação e de colheita nos campos agrícolas também ficaram comprometidas quando, em Junho, o ébola chegou às regiões férteis do país.

“Precisamos de assistência. Precisamos de comida aqui em Foya”, disse Joseph Gbellie, responsável deste distrito rural, quase exclusivamente dependente da agricultura, no noroeste da Libéria. “Se ninguém nos ajudar, isto vai-se transformar num problema sério”.

Num país que já carrega o fardo da pobreza generalizada e do desemprego, 90% das famílias reduziram a quantidade de alimentos consumidos a cada refeição e 85% estão a fazer menos refeições por dia, refere um estudo do Mercy Corps, uma ONG norte-americana que está no terreno.

Também o Programa Alimentar Mundial (PAM) revelou esta semana que a “insegurança alimentar” já afecta todas as regiões do país. E a Agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional diz que as comunidades afectadas pelo ébola estão no nível 3 de uma escala de 5, em que 5 significa fome e 1 indica problemas mínimos para obter alimentos.

Mary Wargbo, uma das muitas pessoas que pratica agricultura de subsistência nesta região de Lofa, prepara-se para viver o problema na pele. No início do mês, ela e os seus dois filhos colheram a pequena produção de arroz da família enfrentando o calor opressivo do meio-dia, muitas semanas depois da altura em que o costumam fazer em anos normais. O arroz foi apanhado à mão, os talos cortados com pequenas facas curvas e os pequenos fardos foram atados e armazenados “Não chega, não é suficiente, mas eu cá me arranjo”, disse. “Vou comprar mais arroz, não tenho dinheiro mas vou conseguir comprar algum”.

Onze irmãos para alimentar
A 200 quilómetros dali, em Dolo, uma comunidade pobre de 15 mil pessoas a leste da capital, Monróvia, Bobby Dumbar está na outra ponta da cadeia de abastecimento alimentar, mas as suas circunstâncias são semelhantes. Depois dos seus pais terem morrido com ébola, tornou-se, aos 28 anos, responsável pelo sustento dos seus 11 irmãos e irmãs, incluindo a bebé de sete meses que tem ao colo.

A família estava a levantar mantimentos para um mês, incluindo arroz e óleo, doados pela Orphan Aid Liberia, uma ONG norte-americana. Dumbar pensa que os produtos dão para alimentar a sua família durante duas semanas. Depois disso, diz, vai “para as ruas” fazer venda ambulante, o que lhe deverá render menos de um dólar por dia.

Não há sinais de fome extrema na Libéria, não se vêem barrigas inchadas ou crianças emaciadas, como aqueles que caracterizaram as grandes crises de fome em África no passado. As organizações humanitárias liberianas e internacionais estão empenhadas para que isso não aconteça.

O Programa Alimentar Mundial já distribuiu 6500 toneladas de comida no país desde Agosto, ajudando as populações nas zonas mais afectadas pelo vírus do ébola, alimentando tanto as pessoas que estavam nos centros médicos, como os sobreviventes em recuperação e as comunidades mais atingidas pela epidemia.

Mas esta ajuda de pouco serve para Jennneh Korhene que tem dez crianças para alimentar. Estava no centro do PAM em Kolba a levantar 100 quilos de trigo bulgur, óleo e outros alimentos. “Às vezes só dependemos de Deus para ter comida”, disse a mulher. “Às vezes não há comida para o dia seguinte.”

Com um clima e uma paisagem favorável à agricultura, a Libéria podia ter um sector agrícola bem desenvolvido, diz Alghassim Wurie, vice-director do PAM responsável por aquele país. Mas há pouco equipamento mecânico nas pequenas quintas liberianas e a maioria do trabalho é manual. Poucas quintas são grandes o suficiente para gerar excedentes que possam ser vendidos regularmente e, assim, gerar lucro. Os liberianos também se dedicam pouco à criação de gado. Resultado: a Libéria importa metade da comida que consome.

Sem tecnologia para os ajudar, os agricultores liberianos trabalham segundo o sistema kuu, uma espécie de acordo laboral corporativo e informal. Os vizinhos juntam-se numa quinta familiar para plantar, cuidar ou colher e depois seguem juntos para outra quinta, e para outra, até o trabalho estar feito.

Sementeiras adiadas
A chegada violenta do ébola a Foya e às zonas circundantes na região de Lofa em Junho, aconteceu num dos piores momentos possíveis. “O ébola chegou quando os agricultores se preparavam para fazer as suas plantações”, explica Wurie.

À medida que as pessoas começaram a morrer, as autoridades pediram à população para não sair de casa. Com medo de ajuntamentos que pudessem favorecer a propagação do vírus, os líderes locais reduziram o número de pessoas em cada kuu, de grupos que podiam ser de 50 pessoas, para pequenas equipas que chegaram a ter apenas cinco. Muitos abandonaram as suas quintas, outros tantos não plantaram nada.

Os calendários agrícolas que garantem o sucesso de uma plantação de arroz foram abandonados. A sementeira foi adiada três semanas, o que por sua vez atrasou tudo o resto. O arroz que se colheu foi pouco, e dizem os peritos, não garante sementes suficientes para o próximo ano. Ninguém tem a certeza do impacto total, mas Gbellie e outros responsáveis locais disseram que a colheita de arroz este ano pode ficar 50% abaixo do normal.

Dina Esposito, directora do gabinete Comida para a Paz da USAID, diz que o que se espera é uma colheita “abaixo da média”, especialmente junto das populações afectadas directamente pelo ébola.

Em Dolo, Agnes Bowell, está a fazer tudo o que pode para cuidar das suas três irmãs depois da morte de sete membros da sua família, incluindo o pai e a mãe. Mas alimentar Dian de quatro anos, Mardea de 15, e Musu de 18 revelou-se um enorme desafio. “Elas passam quase o tempo todo com fome, porque não há comida”, queixa-se Agnes.

Wargbo, a agricultora de subsistência, diz que está satisfeita por já não ser comum ver passar os camiões com os sacos brancos dos cadáveres do ébola na estrada que atravessa a sua plantação de arroz. Desde finais de Maio, 642 pessoas de Lofa foram infectadas com o vírus do ébola e 214 morreram, o terceiro maior número de vítimas no total dos 15 condados do país, segundo os números do governo liberiano.

Nas últimas semanas, o vírus recuou, mas as reservas de alimentos de Wargbo já não se vão recompor. “No ano passado a comida foi suficiente, este ano precisava de mais”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post