Opinião

Existe esquizofrenia política?

Como quem vive uma espécie de delírio, a direcção do PCP reescreve a história sobre a própria construção do Muro.

Lê-se e relê-se, e não se acredita. Falo do texto doutrinário que a direcção do PCP inclui na edição de 6 de Novembro do semanário partidário Avante! Um extraordinário texto que surge como a nova posição política do PCP sobre a queda do Muro de Berlim. A primeira reacção é um sorriso. Depois surge a perplexidade.

Segue-se a dúvida sobre se entrámos numa máquina do tempo. Mas é impossível ler este texto como um regresso ao passado. Na época, o PCP não disse nunca nada do que aqui está. Nem em discurso, nem em documento oficial. É certo que nos últimos anos é cristalino o fechamento e o anquilosamento do PCP num léxico e numa lógica estalinista que antes tentou evitar. Mas nada como este texto. Aliás, a sensação que fica é a de que muitos dos que então dirigiram o PCP ficarão ou ficariam perplexos com esta posição. Sobretudo os que mais se expuseram no que pareceu então um aggiornamento político-ideológico.

Voltamos a ler. Questionamo-nos sobre se haverá algo parecido com a esquizofrenia na política que possa explicar o fenómeno, tal a dimensão da adulteração e manipulação da realidade dos factos e tal a radicalidade da mudança de posição da direcção do PCP em relação ao seu passado. Sendo até notória uma linguagem que foi património da extrema-esquerda e que o PCP durante décadas evitou.

Começando pelo princípio, logo o título é todo um programa político: A chamada ‘queda do muro de Berlim’. Como se se tratasse de uma ficção, como se a queda do muro não tivesse existido. Depois vem o arranque do texto com a explicação – para que não haja dúvidas – de que estamos perante uma posição política oficial da direcção, que se trata daquilo que o PCP hoje e agora pensa sobre o que se passou em Novembro de 1989. Assim, antes da entrada na nova explicação doutrinária sobre o fim dos regimes de Leste, lemos: “Perante a campanha anticomunista de intoxicação da opinião pública desencadeada a pretexto da passagem de 25 anos sobre a chamada ‘queda do muro de Berlim’, o PCP considera necessário afirmar o seguinte.”

E é então que começa a reinterpretação estalinista da história, agora adoptada pelo PCP como posição oficial. “1. Mais do que a ‘queda do muro de Berlim’ o que as forças da reacção e da social-democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de ‘unificação’) da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma ‘grande Alemanha’ imperialista, é a derrota do socialismo no primeiro Estado alemão antifascista e demais países do Leste da Europa e, posteriormente, a derrota do socialismo na URSS.” Em menos de 500 caracteres, a direcção do PCP reescreve a história e muda de posição política, rasgando o que durante mais de duas décadas foi escrevendo nos documentos oficiais sobre o assunto.

Prosseguindo naquilo a que o PCP noutras épocas consideraria como “revisionismo” surge um elogio a Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que, feito pelo PCP, não deixa de provocar pelo menos um sorriso. E como quem vive uma espécie de delírio, a direcção do PCP reescreve a história sobre a própria construção do Muro, podendo levar mesmo a questionarmo-nos por segundos sobre quem de facto dividiu a cidade de Berlim e a Alemanha.

A saber: “A responsabilidade da divisão da Alemanha, a que desde o primeiro momento a URSS se opôs, cabe inteiramente às potências imperialistas (Estados Unidos, Grã-Bretanha e França) que nas respectivas zonas de ocupação, e ao contrário do que aconteceu na zona de ocupação soviética, não só não desmantelaram completamente as estruturas hitlerianas como protegeram os nazis e os monopólios alemães (Krupp, Siemens, e outros) responsáveis pela carnificina da guerra e criaram em 23 de Maio de 1949, contra os próprios Acordos de Ialta (Fevereiro de 1945) e de Potsdam (Julho/Agosto de 1945), uma RFA capitalista amarrada ao imperialismo norte-americano e à NATO, fundada aliás nesse mesmo ano, seis anos antes da resposta dos países socialistas do Leste da Europa com a criação do Tratado de Varsóvia em 1955, na sequência da entrada da RFA na NATO.” Só para que conste: Estaline esteve em Yalta e Postdam.

Com a mesma lógica de falsificação da história, concluem sobre o que se passou em 1989: “Mas o imperialismo nunca desistiu das suas tentativas de liquidar a RDA socialista acabando em 1989 por alcançar a vitória, conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contra-revolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl.”

Que PCP é este que assina este texto? Em que mundo vivem os dirigentes do PCP que escreveram este texto? Que intervenção e acção real podem os portugueses esperar de políticos que são responsáveis por esta tomada de posição?