Jesus Solana/FLICKR
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Megafone

A casa da avó é a mais linda do mundo!

Porque na casa dos avós há um armário que espalha odores a geleia, doce de tomate e chá de cidreira, e onde sei que estará sempre também a caixa das bolachas que aconchegamos à lareira

Intrigado, questionei a afeição, notada no petiz, pela casa dos avós. A paixão que não se deixa subverter indicia uma ligação que a minha frágil posição de pai não consegue observar; mas ela lá estará.

Goradas as esperanças de obter informação tangível de uma criança de cinco anos, resolvi puxar pela memória, mover-me para outros tempos, e reviver as casas dos meus avós em busca da ímpar ligação; e ela lá estava.

Porque na casa dos avós tenho uma figueira a cujos frutos acedo pela janela do primeiro andar, e ao aroma pela porta dos fundos.

Porque na casa dos avós há um armário que espalha odores a geleia, doce de tomate e chá de cidreira, e onde sei que estará sempre também a caixa das bolachas que aconchegamos à lareira.

Porque na casa dos avós há chocolates para todos depois do almoço, e a escada de pedra gasta pelo sobe e desce dos dias serve a emoção do escorrega antes de dormir.

Porque na casa dos avós toco três vezes à campainha para dizer que sou da casa, mas é o “Vandoma” quem me bate à porta para me levar e vender-me na feira.

Porque na casa dos avós há um quarto onde não posso entrar, dizem-me, por não ser seguro e onde, em vez de risco de acidente, eu imagino o perigo de ataques fantasmagóricos.

Porque na casa dos avós o rio recebe o nevoeiro, devolvendo-o com maresia às varandas desprotegidas, e o sol entra pela manhã para aquecer o corpo, gelado da noite e maçado pelas camadas infindáveis de cobertores; que os edredões não são desse tempo.

Porque na casa dos avós há um quarto para eles e outro para elas, e as camaratas assim definidas são mais cúmplices e arrebatadoras.

Porque na casa dos avós o cheiro do galinheiro me chama à terra como pão quente na cidade; cantos de galo que zurzem mas não afectam o burro preso na soleira da porta da loja.

Porque na casa dos avós aprendo a viver a história dos lugares, e os valores que dela surgem e se moldam de forma apaixonada.

Porque na casa dos avós o carvão da massa com feijão e a gordura da canja espelham o amor ancestral que o tempo tramou; a ela primeiro, depois a ele, depois a ela, depois a ele.

Porque só na casa dos avós faço uma serenata a quem já não pode reconhecer-me...

Julgo que esta ligação assoberbada se fortalece com a necessidade de manter memórias de um local e de um tempo que, não sendo permanentes, se visitam com a frequência reduzida que é própria dos tempos apressados.

Na distância do tempo, registamos as memórias que lá nos transportam; porque na casa dos avós estivemos todos juntos, um dia.

Por isso, pequeno, sei que as casas dos teus avós serão, para ti, sempre muito mais do que as poderei imaginar; e que quererás, por isso, aí estar sempre aconchegado.

Mas espero que compreendas quando te tiver de dizer que não; hoje, não. Será essa espera e esse anseio que te reforçará ainda mais esse amor por um espaço e um tempo que, não sendo permanentes, não deixarão de ser perenes na tua memória.

Agora, ala que se faz tarde, que o jantar é em nossa casa; vê que domingo é já depois de amanhã.