Muito mais real do que a vida

Duas obras-primas (A Importância de Ser Earnest e O Retrato de Dorian Gray), um conjunto de peças, uma delas inédita em Portugal (Vera ou os Niilistas), e alguns dos mais perfeitos contos do autor (como O Crime de Lord Arthur Savile e O Fantasma dos Canterville)

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Oscar Wilde levou mais longe do que qualquer outro autor o desejo de identificar existência e arte

Numa das últimas cartas enviadas a Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro escrevia: “Vivo há 15 dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra”. Já à beira do fim, havia de acrescentar: “vivo uma das minhas personagens”. Tão delicada fusão entre vida e obra poderia ter integrado as disposições finais de Oscar Wilde. Quando um dos seus companheiros de cárcere lhe sussurrou “O que fazes neste lugar, Dorian Gray?”, Wilde respondeu, tão certeiro quanto oblíquo: “Dorian Gray, não: Lorde Henry Wotton.” O que nos poderia lembrar um poema como “Flor de Amor”: “vivi os meus poemas” (Poemas, Relógio D’Água, 2005). Este paralelo entre Wilde e Sá-Carneiro já tinha, de resto, sido traçado por Margarida Vale de Gato: “Os dois autores, apesar do ligeiro desfasamento cronológico e da sensível distância geográfica, têm muito em comum: a glosa da decadência, o tédio de vida e civilizacional, a apetência pelo teatro em registo de farsa, o gosto pelo artifício e pompa” (id.). Lembre-se que também Sá-Carneiro escreveu uma “Salomé” – “A luz a virgular-se em medo, Luz morta de luar, mais Alma do que a lua” – e que numa das didascálias da Salomé wildiana se lê: “Um raio de Lua cai sobre Salomé e ilumina-a.” (Obras Escolhidas 1, p.660) Mas as analogias seriam, porventura, infinitas: o Boulevard des Capucines, onde Wilde viveu, abre o sétimo capítulo de A Confissão de Lúcio...

Oscar Wilde levou mais longe do que qualquer outro autor o desejo de identificar existência e arte. “O propósito da vida é tornar-se uma obra de arte.”, disse numa das suas anotações que preenchem hoje os recantos mais fulgurantes de certo imaginário culto. Em direcção análoga, a famigerada frase “a Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida” (O Declínio da Mentira e A Alma do Homem e o Socialismo, Relógio D’Água, 2012) é apenas um entre incontáveis momentos em que o autor exprimiu esse desígnio. Até a farsa do seu julgamento teve três actos. Mesmo em plena provação judicial, não deixará de replicar: “Não posso responder para além da arte.” (Pensamentos, Relógio D’Água, 2011). O Retrato de Dorian Gray é, contudo, a mais perfeita resposta de Oscar Wilde a esse impulso, em nada secreto, de transformar a vida em arte. É-o por duas vias. Desde logo, a conhecida temática do quadro, que toma o lugar do retratado, no sentido de passar a deter (e sofrer) o tempo e, portanto, envelhecer. Por outro lado, para Dorian Gray, apenas a arte dava realidade à mulher que amou, ou julgou amar. “Sem a tua arte não és nada.” (p.88), dirá, quando Sibyl Vane lhe comunica a sua intenção de se retirar dos palcos. Na escala de valores de Dorian (de Wilde, também?), apenas a arte – sintomaticamente, a representação – lhe conferia vida. E realidade.

Enorme cultor do paradoxo, Oscar Wilde oscilou, sempre com genialidade, entre contrários. “Nasci antinomista”, declara em De Profundis (Relógio D’Água, 2003). Formado em Clássicas, foi um moderno, por excelência; atraído, nos seus tempos de Oxford, pelas doutrinas de John Ruskin, preferiu, aparentemente, Walter Pater, que é marca constante em O Retrato – mas, ao saber da sua morte, não deixará de dizer: “Alguma vez ele esteve vivo?” Seduzido pelo catolicismo, queria-se pagão (assim o considerou Paul Verlaine), mas sentiu até ao fim o apelo da fé de Roma; uma vez na Cidade Eterna, preferiu, no entanto, prestar culto ao túmulo de Keats, “o lugar mais agrado de Roma”. O que não o impediu de compor um poema (possivelmente) em honra do Papa.

As suas personagens, que é difícil não conceber (pelo menos, em parte) como luminosas e trabalhadas emanações de si próprio, prolongam essa propensão paradoxal. Exímio no diálogo espirituoso e mordaz, tanto na ficção, como no teatro, Wilde fez das suas personagens magníficas representantes desse seu gosto pelo paradoxo e pela espirituosidade. De tal forma que, em certos momentos, esse espírito se torna uma tortura. “Estou completamente farto de inteligência.”, dirá John Worthing, em A Importância de Ser Earnest. “Toda a gente agora é inteligente. Não se pode ir a parte alguma sem encontrar gente inteligente. Já se tornou uma absoluta maçada pública. Quem me dera que nos restassem alguns parvos!” (p.576) E não deixa de ser típico do paradoxal Wilde que esta, que é a melhor das suas peças – e uma das suas mais perfeitas obras-primas – tenha sido a que menos trabalho deu ao seu autor. E, curiosamente, a que Oscar escreveu com maior rapidez. Mas mesmo a sequência das suas obras espelhou, por vezes, o seu gosto pelos contrários. Por exemplo, Wilde havia de contrabalançar a “republicana” Vera ou os Niilistas – pela primeira vez traduzida entre nós – com a “aristocrática” Duquesa de Pádua. Em Vera, como, de resto, em tantos outros lugares da sua obra, Wilde mudou a literalidade da vida em prol da luminescência da literatura e, por conseguinte, da arte. Vera, que realmente existiu (Wilde mudou-lhe o apelido), assassinou, na realidade histórica, o chefe da polícia de São Petersburgo; mas Wilde deslocou-a daquela cidade para Moscovo. Burilou factos, acrescentou-lhe motivos dramáticos – o príncipe herdeiro é, sob disfarce, um dos niilistas, além de amado da protagonista. Esta escolherá, no fim, a via mais pungente do suicídio, encerrando a peça com um simbólico e melodramático “Salvei a Rússia!” (p.338), que nos faz acreditar no diagnóstico de Wilde, de que a sua peça seria “mais sobre paixões do que sobre política”. Nem uma, nem outra das tendências exime as personagens de brilharem com a habitual verve – “numa boa democracia todos os homens deveriam ser aristocratas.” (p.309)

O Crime de Lord Arthur Savile, além de introduzir a personagem de Lady Windermere, constitui, porventura, a mais elevada realização contística reunida neste primeiro tomo de Obras Escolhidas de Oscar Wilde. Segundo alguns testemunhos coevos, a versão escrita teria ficado a perder, face aos relatos orais de Wilde. Este Estudo sobre o Dever (seu subtítulo) é uma extraordinária ficção sobre o poder da crendice e da sugestão, mas também sobre o egoísmo e o oportunismo. O lorde epónimo tudo faz para se antecipar à concretização do vaticínio de um quiromante: um futuro como assassino. O bem gerido desmascarar do burlão, as peripécias de Lord Saville, enquanto criminoso frustrado, são algumas das peças, perfeitamente talhadas, deste xadrez da inteligência e da técnica narrativa.

É um pouco indiferente saber se Oscar Wilde, realmente, respondeu ao funcionário alfandegário dos EUA “Nada, a não ser o meu génio.”, quando este lhe perguntou se tinha alguma coisa a declarar. O mito há muito se impôs à possível veracidade histórica. Como tantos outros ditos de Wilde, também neste o verosímil se sobrepôs ao verídico.