Reportagem

“Bem-vindos à Catalunha, uma maravilhosa comunidade de Espanha”

Domingo, os catalães vão poder votar sobre o seu futuro numa consulta que o Tribunal Constitucional já suspendeu duas vezes. Para Manel Cabello, anti-independentista, trata-se de um casus belli que resulta de muitas mentiras.

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Há quem queria mostrar que “nem todos os catalães são independentistas” LLUIS GENE/AFP

Manel Parra Cabello chega uns minutos atrasado, com ar de quem acaba de sair do escritório, camisa às riscas (sem casaco, apesar do frio), pasta debaixo do braço. “Vivo aqui perto, mas tive uma entrevista com a TV Galiza”, desculpa-se. O encontro estava marcado para as 18h, no café de uma das esquinas que rodeiam a Sagrada Família, “chama-se Baguetina, é um daqueles cafés típicos de Barcelona” – e é mesmo, estão por todo o lado.

A Baguetina Catalana foi fácil de encontrar, mais difícil foi vir embora. Quando chegámos nunca imaginámos que só de lá sairíamos às 23h. Professor de catalão, 51 anos, Manel é muito simpático, mas incapaz de responder a qualquer pergunta com frases curtas. A cada repto entusiasma-se e ali vêm de novo os nomes dos escritores catalães que cantaram Espanha ou nomes das letras castelhanas que têm a Catalunha nas suas obras. Cervantes, o poeta Rafael Alberti, a romancista Monserrat Roig…

Durante dois anos, Manuel foi presidente do Movimento Cívico de Espanha e Catalães, recentemente passou a porta-voz. O movimento, um dos vários que defendem a permanência da Catalunha em Espanha, nasceu a 5 de Outubro de 2012, ali mesmo, no bar onde nos encontramos. É fruto da junção de grupos mais pequenos e de pessoas que queriam fazer algo para mostrar que “nem todos os catalães são independentistas”, um dos slogans do movimento.

Os nacionalistas celebram o 11 de Setembro (a Diada), dia em que a Catalunha foi derrotada na Guerra da Sucessão e integrada em definitivo no Estado espanhol; os unionistas o Dia Nacional de Espanha (antes conhecido como dia da Hispanidade), a 12 de Outubro. Foi nesse dia, há dois anos, a sua manifestação inaugural.

Um mês antes aconteceu a Diada que começou a mudar tudo. Organizada pela Associação Nacional Catalã (ANC), teve como lema “Catalunha, o novo Estado da Europa” e foi inédita pela dimensão, 1,5 milhões de pessoas, assim como pela representatividade, reunindo membros de partidos da esquerda à direita, incluindo conselheiros regionais (equivalente a ministros) da CiU (Convergência e União, direita nacionalista), no governo. O jornal El País chamou-lhe o “tsunami de Barcelona”.

Dias depois, começavam os encontros que haveriam de originar o Movimento Cívico, que hoje integra uma coligação com outros grupos e se junta a estes para organizar os acontecimentos principais, como as manifestações de 12 de Outubro.

Assim que nos sentamos, Manel abre a pasta azul escura que trazia debaixo do braço e oferece-nos o manifesto do movimento, impresso a letras azuis, um desdobrável em várias línguas com um texto intitulado “Bem-vindos à Catalunha, uma maravilhosa comunidade de Espanha”, e uma série de autocolantes com corações amarelos e vermelhos, como na bandeira da Catalunha, ou metade às riscas, metade como na bandeira de Espanha, com a barra amarela maior do que as riscas vermelhas. “Os catalães são espanhóis” ou “A mim ninguém me engana, fomos, somos e seremos Espanha”, são algumas das frases.

O engano do défice
Depois, mal conseguimos iniciar a conversa, começa a rebater os argumentos económicos dos independentistas, que dizem que Madrid fica a dever todos os anos 16 mil milhões de euros à Catalunha em impostos. “Portugal é o país da UE com que temos menos fricções comerciais, problemas levantados por causa de leis diferentes, restrições. Bastava que passássemos a ter as mesmas com o resto da Espanha para o PIB catalão se afundar”, diz, depois de lembrar os seus amigos de Setúbal.

“Eles”, insiste Manel, não contabilizam este “efeito fronteira” nem o facto de a Catalunha só ter crescido para se tornar nesta região rica por ter “em toda a Espanha um mercado amigo”. “Saímos beneficiados em tudo, menos no défice fiscal”, diz. “Órgãos, por exemplo, somos a comunidade que recebe mais órgãos para transplantes porque temos aqui os centros pioneiros.”

Só benefícios, insiste. O que sobra, o défice fiscal, é uma questão de solidariedade básica. “Estamos numa posição correcta. A solidariedade, bem entendida, é para assumir que os mais necessitados têm o suficiente. Seria como o Porto contribuir com mais impostos e o Alentejo receber mais dinheiro do que aquele que paga.”

Não há repressão
Na Espanha de Manel, “há um projecto partilhado”, enquanto na Catalunha, “não há uma colónia, não há repressão”. O que há “é uma crise de vários âmbitos, económica, mas não só. Eles [os independentistas] dizem que ‘os andaluzes são mais corruptos’… É mentira. São tão corruptos como os catalães com as mesmas leis”, afirma Manel, que por acaso nasceu na Andaluzia mas chegou à Catalunha com meses, antes de lembrar o último escândalo a rebentar por estas bandas, o que envolve a família Pujol, investigada por corrupção.

Jordi Pujol foi presidente da generalitat entre 1980 e 2003. Acaba de perder o título de “presidente honorável” do partido do actual presidente, Artur Mas, a Convergência Democrática da Catalunha (CDC), que liderou desde 1974, antes da transição, até 2003. “Eu envergonho-me do Barcenas, claro, mas também do Pujol, diz Manel. Barcenas é Luis Barcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular (PP, no poder em Madrid), envolvido num escândalo e financiamento ilícito.

Manel envergonha-se do que se envergonha e tem orgulho no que tem orgulho: “A mim, a monarquia não me envergonha, mas o safari, sim”, diz. O safari foi aquele que o ex-rei Juan Carlos fez em 2012, no meio de um dos piores momentos da crise espanhola. A viagem ao Botswana acabou por ser um de vários incidentes que fizeram crescer o descontentamento com a monarquia e acabariam por levar à abdicação a favor de Filipe, já este ano.

Esconder o que queriam
O que Manel não compra é a narrativa de Artur Mas, da sua CDC e da União Democrática da Catalunha (UDC, os dois partidos formam a CiU e é assim que se apresentam às urnas). Políticos e partidos que durante 30 anos se disseram a favor das autonomias e que agora afirmam ter-se tornado independentistas por pressão popular. “É mentira, o que eles fizeram foi esconder o que queriam durante todo este tempo, enquanto iam preparando o terreno”, defende Manel. “E eu que na minha juventude cheguei a apoiar a União…”

Manel já foi eleito pelo PP no seu município mas também diz que a ele “o PP nunca lhe deu nada”, nem sequer apoios para o movimento. “Fui falar com [o primeiro-ministro, Mariano] Rajoy e expliquei-lhe que eles usam muitos meios e que nós tínhamos de fazer uma campanha positiva, explicar o que temos a ganhar em permanecer unidos. Sabes o que ele me respondeu? Disse: ‘Manel, se precisamos de fazer isso, então estamos muito mal’.”

E assim, o movimento que formou não recebe apoios públicos e nem sequer cobra quotas, como a ANC. “Temos pouco, mas fazemos muito”, diz, explicando que contam com umas 800 pessoas em permanência mas o apoio de muitas mais, como mostra os 10 mil seguidores da sua página de Facebook. A luta é muito desigual, defende, porque os independentistas contam com “o apoio do aparelho do estado autonómico”.

Mais ouvido na Rússia
Ainda assim, garante que a cada 12 de Outubro têm conseguido juntar 30 a 40 mil pessoas – “este ano distribuímos 15 mil folhetos e faltaram-nos”, apesar de nos media catalães dizerem sempre que não ultrapassamos os quatro ou cinco mil”.

“Até há pouco tempo, eu tinha falado mais para a televisão russa do que para a TV3”, a televisão pública catalã, com cinco canais. “A primeira vez que me convidaram”, conta Manel, “mandaram-me ir uma hora depois; quando cheguei estavam os outros todos a sair”. Agora, diz, já o vão chamando mais vezes. “Mas no último debate disseram-me que eram dois contra dois e acabei a ser eu contra três.”

É por causa deste controlo que há mentiras repetidas que acabam por se tornar verdades, denuncia Manel. Como a jornalista da televisão espanhola que teria dito “oxalá tivessem morrido mais catalães” durante um incêndio em Girona. Ou “a saudação nazi” que nunca existiu, quando membros do seu movimento estavam nas galerias do parlamento autonómico. “É meu amigo, o senhor, um comunista de toda a vida, disse ‘Viva Espanha, Viva a Catalunha’, gritaram lá de baixo e ele levantou o braço, como a dizer, ‘deixem-se disso’, é um homem como eu, que gesticula muito. Mas eles congelaram a imagem e fizeram-na correr mundo.”

O que a generalitat diz que vai acontecer domingo, uma consulta simbólica, depois do Tribunal Constitucional ter suspendido o referendo e esta mesma consulta, é para Manel “uma consulta a fingir” e “um casus belli”. Sem lhe querer dar muita importância, o seu movimento preparou algo mas não quer dizer ainda o quê. “É uma coisa simples, simbólica, mas que vai sublinhar a palhaçada que é esta votação.”

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