Companhia espanhola troca teatro por pornografia

Primas de Riesgo vai mudar de actividade para pagar menos IVA. Quem comprar uma revista pornográfica ganha um bilhete para a próxima peça da companhia sediada em Madrid

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É simultaneamente uma medida de sobrevivência e de activismo. A companhia de teatro Primas de Riesgo vai alterar formalmente a sua actividade, transformando-se numa distribuidora pornográfica. Objectivo: trocar o IVA de 21% ao qual o teatro está sujeito pelo de apenas 4% que se cobra sobre a pornografia.

A companhia, sediada em Madrid e a funcionar desde 2012, vai passar a vender revistas pornográficas nas quais estarão incluídos convites para ver a peça “O Mágico Prodigioso”, de Calderón de la Barca, com estreia marcada para o dia 25 de Novembro no teatro Nuevo Alcalá.

A medida — já intitulada de Revistas Porno 4-Calderón 21 — quer “abrir um debate útil, um diálogo com a sociedade”, lê-se no site da Primas de Riesgo, dirigida por Karina Garantiva. “O IVA do teatro não afecta exclusivamente produtores e protagonistas da cultura e há inclusive quem possa pensar que fazemos tudo isto para ganhar uns euritos. Nada mais longe da realidade, este é um debate que queremos fazer chegar à sociedade porque é a sociedade que elege e que tem a capacidade de reagir e transformar a realidade.”

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Companhia Primas de Riesgo é constituída quase exclusivamente por mulheres DR

Medida "reversível"

Assim, as 300 pessoas que comprarem a revista (a partir de Portugal a melhor forma será online, no site da companhia ou mandando email para revistasporno4calderón21@gmail.com) terão também de subscrever um manifesto de apoio a esta iniciativa.

A medida é, no entanto, “reversível”, diz Karina Garantiva ao jornal El Mundo: “Se antes de 40 dias o Governo reconsiderar e reduzir o IVA da cultura, voltaremos atrás.” A Primas de Riesgo lança ainda o desafio a outras companhias para que a “imitem”, assegurando que “tudo é legal”.

"Não fizemos isto para enganar [o ministro da Cultura, Cristobal] Montoro, embora acreditemos que o ministro está errado, mas esta não é uma luta entre políticos e artistas", disse a directora da companhia à mesma fonte, acrescentando ironicamente: “Parece que o Governo tem muito mais interesse no desenvolvimento deste tipo de actividade e nós queremos colaborar.”

Espanha é o país da União Europeia onde o IVA sobre a cultura é mais elevado. Em Portugal, as actividades culturais são taxadas a 13%, com excepção dos livros que estão sujeitos à taxa reduzida de 6%, mas o FMI já defendeu que o IVA deveria subir.