Boko Haram diz ter casado as 200 raparigas raptadas com combatentes islamistas

Um homem que diz ser o líder do grupo diz em vídeo desconhecer o acordo de cessar-fogo que permitiria a libertação das estudantes.

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Um vídeo do Boko Haram obtido pela AFP em Maio mostra as raparigas sequestradas BOKO HARAM/AFP

As raparigas que foram sequestradas em Abril de uma escola no nordeste da Nigéria já terão sido casadas com combatentes do Boko Haram, disse sábado num vídeo um homem que alega ser o líder do grupo islamista, Abubakar Shekau. A alegação contradiz assim o Governo nigeriano, que em meados de Outubro anunciou um acordo de cessar-fogo com o Boko Haram que incluiria a libertação das mais de 200 jovens raptadas pelo grupo. O mesmo homem fala ainda de um refém, um “homem branco”.

O Exército nigeriano tinha anunciado, há um ano, que tinha morto Abubakar Shekau, bem como um impostor que aparecia em vídeos divulgados pelo grupo islamista fazendo-se passar pelo seu líder. A agência Reuters relata que o vídeo mais recente não permite identificar claramente o homem que faz as alegações sobre o destino das meninas sequestradas (foi filmado à distância), e sobre o acordo de tréguas que facilitaria a sua libertação e que decorreria de um mês de negociações secretas mediadas pelo Chade, país vizinho da Nigéria.

“Casámo-las e estão todas nas casas dos seus maridos”, garantiu o homem que diz ser o líder do grupo, citado pela agência noticiosa. O mesmo homem alega que as raparigas se “converteram ao Islão, que confessam ser a melhor religião. Ou os seus pais o aceitam e também se convertem ou podem morrer”. A maioria das 200 raparigas raptadas em Abril de uma escola secundária em Chibok, no nordeste do país, era cristã.

O mesmo homem que diz ser Abubakar Shekau nega a existência do acordo de cessar-fogo e denuncia o seu alegado interlocutor, um representante do Boko Haram no Chade. “Quem é que diz que estamos a dialogar ou a discutir com alguém? Estão a falar sozinhos?” Vincando a imagem do Boko Haram, responsável por uma campanha de terror que desde 2010 terá já causado cerca de duas mil mortes na Nigéria, o homem no vídeo garante: “Tudo o que estamos a fazer é chacinar pessoas com facas de mato e a atingir pessoas com armas… o que queremos é guerra”.

Sobre a situação dos reféns, o indivíduo frisa ter na sua posse “um homem branco”. Não é indicado, no entanto, se se trata de um professor alemão raptado por homens armados de uma universidade na cidade de Gombe em Julho. O sequestro nunca foi reivindicado mas pensa-se que esteja associado ao Boko Haram.

Nas últimas semanas, os combatentes do Boko Haram têm perpetrado ataques quase diários e na semana passada passaram a controlar a cidade de Mubi, indica a Reuters, de onde é originário o marechal Alex Badeh, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas nigerianas que anunciou o cessar-fogo em conjunto com o secretário da presidência nigeriana, Hassan Tukur. Esse ataque resultou na morte de dezenas de pessoas e em assaltos a bancos, além do hastear da sua bandeira negra no palácio do Emir, segundo relataram testemunhas citadas pela Reuters. Já na sexta-feira de manhã explodiu um carro armadilhado em Gombe junto a uma paragem de autocarro repleta de pessoas – pelo menos dez delas morreram.

O grupo fundamentalista diz estar a lutar pela instauração de um Estado Islâmico no Norte da Nigéria e pela rigorosa interpretação da lei islâmica, a sharia – em língua haussa, Boko Haram significa “a educação ocidental é pecado”.