Estado Islâmico está a recrutar combatentes a "uma escala sem precedentes"

Relatório do Conselho de Segurança confirma que há pelo menos 15 mil estrangeiros a combater na Síria e no Iraque. Enfraquecimento do núcleo da Al-Qaeda coincide com "explosão no entusiasmo" gerado por novos grupos.

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"Há jihadistas da França, da Federação Russa e do Reino Unido a operar lado a lado" diz o relatório da ONU Reuters

Nunca como na actualidade o movimento jihadista atraiu tantos seguidores oriundos de tantos países, alerta um relatório das Nações Unidas, concluindo que as agressivas estratégias antiterroristas adoptadas pelos governos ocidentais de pouco têm servido para travar a capacidade de recrutamento do Estado Islâmico, um grupo que usa as redes sociais de forma “cosmopolita” para difundir a sua mensagem.

O relatório, elaborado por um comité do Conselho de Segurança que monitoriza as actividades da Al-Qaeda, é revelado pelo jornal britânico Guardian e confirma, no essencial, uma estimativa dos serviços secretos norte-americanos de que há 15 mil estrangeiros a combater nas fileiras do Estado Islâmico, grupo radical que em Junho proclamou um califado entre a Síria e o Iraque, e de outros grupos similares – um recrutamento "a uma escala sem precedentes" na história recente. Uma outra estimativa, elaborada pelo Centro Internacional para o Estudo da Radicalização a partir de dados governamentais, apontava para 12 mil combatentes.

“Os números desde 2010 são muitas vezes superiores à soma dos números de combatentes terroristas estrangeiros entre 1990 e 2010 – e continuam a aumentar”, alerta o documento, explicando que os radicais vêm de mais de 80 países (não identificados), muitos deles sem anteriores ligações ao movimento jihadista, caso das Maldivas onde recentemente foi noticiada uma manifestação de apoio aos radicais, adianta o diário britânico. Portugal reconhece que 12 pessoas com passaporte nacional viajaram para a Síria e o Iraque para se juntar ao Estado Islâmico.

 “Há situações em que combatentes jihadistas da França, da Federação Russa e do Reino Unido estão a operar lado a lado”, sublinham os autores do relatório.

O documento, que reúne e actualiza as tendências do terrorismo internacional e os esforços para o combater, dá razão à Administração norte-americana quando esta afirma que, 13 anos depois dos atentados de 11 de Setembro, “o núcleo da Al-Qaeda continua enfraquecido”. Mas, acrescenta o jornal britânico, não há razões para celebrar, uma vez que este declínio coincidiu com uma “explosão no entusiasmo jihadista” em relação a grupos inspirados na organização fundada por Bin Laden ou que pretendem ocupar o seu lugar, caso dos jihadistas liderados pelo autoproclamado “califa” Abu Bakr al-Baghdadi.

Não é ainda claro se a Al-Qaeda poderá beneficiar deste impulso – o seu líder, Ayman al-Zawahiri, repudiou em Fevereiro o Estado Islâmico, após meses de divergência sobre a sua actuação na guerra da Síria, mas a ONU afirma que as duas organizações “têm objectivos estratégicos idênticos, apesar das diferenças tácticas”.

Onde o Estado Islâmico e grupos congéneres mais se distinguem da Al-Qaeda é no menor interesse que manifestam em atacar fora das fronteiras dos países onde actuam – “os ataques verdadeiramente transfronteiriços ou contra alvos internacionais são minoritários”. No entanto, o relatório avisa que o risco para os países de origem poderá aumentar quando os jihadistas regressarem a casa, treinados e endurecidos pelos combates.

Outra diferença fundamental reside na forma como as duas organizações comunicam. Às “mensagens longas e arrastadas” da Al-Qaeda (o último vídeo de Al-Zawahiri tinha 55 minutos, recorda o Guardian), o Estado Islâmico usa incessantemente redes sociais, como o Twitter, ou os serviços de mensagens instantâneas. Esta abordagem “cosmopolita” da Internet e a aparente “falta de disciplina na comunicação das mensagens” mostra que a liderança “reconhece o valor da comunicação multiplataformas” na sua estratégia de propaganda e recrutamento, o que se reflecte numa militância mais jovem e “mais internacional” do que a da Al-Qaeda.
 

   

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