Crítica

Scott Walker e Sun O)))

Les beaux esprits se rencontrent

Foto
Phil Laslett

Não é necessário ler os versos para se saber que Soused se inspira nas tragédias da natureza humana. O primeiro tema, Brando, ainda não fez um minuto e já se ouvem chicotes. A distorção e ruído cercaram-no e do “púlpito” Walker declama e grita, refreando qualquer delicadeza que ainda restava do barítono dos Walker Brothers. Desapareceram os violinos, os arranjos sofisticados, os coros; ouvem-se os riffs, descargas da distorção, loops “terríveis”. Um inferno que Herod 2014 vem descrever com grandiloquência. O que Soused nos devolve não aceita ambiguidades: a morte, a decrescência do corpo, a imprevisibilidade da tragédia. Há, todavia, um certo comprazimento que contamina a música. A produção de Peter Walsh vem mimar esse sentimento, reproduzindo os piores clichés do pior “rock industrial” ou diluindo no sermão do Walker momentos menos previsíveis como a guitarrada que ficaria bem no currículo de Slash (em Brando), o acorde ameaçador de Fetish, logo calado pela voz, ou a percussão de Lullaby. Resumindo, Soused é um disco profético e violento. E depois?