Regressaram à Europa mais de 300 combatentes das fileiras do Estado Islâmico

O factor religioso, o radicalismo islâmico, é cada vez menos importante na adesão à organização terrorista.

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O EI quer estabelecer um Califado na Síria e no Iraque AHRAR AL-SHAM/AFP

Segundo os números existentes, o maior número de regressados, 194, é de cidadãos franceses ou que saíram daquele país. Seguem-se 86 regressos à Bélgica, 32 à Holanda e 25 à Alemanha. Nesta lista, não há, contudo, registo de regressados ao Reino Unido, que não integra o espaço de Schengen, e de onde tem saído um dos maiores contingentes dos denominados “combatentes estrangeiros”.

São díspares os motivos que levaram à saída dos cenários de guerra. O acompanhamento dos serviços de inteligência daqueles quatro países europeus levou ao estabelecimento de três causas. A desilusão é a mais benigna, pois equivale a um possível abandono do EI. As outras duas são as que mais preocupam, porque mantém a sua actividade na organização terrorista. Foi detectado que o recuo para os países de origem esteve ditado pela busca de financiamento, ou seja, por uma mudança de papel e actividade. Finalmente, noutros casos, o regresso poderá ter levado os indivíduos a dedicarem-se a tarefas de proselitismo. Aliás, recentemente, em 24 e 31 de Julho, ocorreram manifestações de apoio ao EI na cidade holandesa de Haia e na Alemanha.

Estes regressos colocam problemas às capitais europeias. Tornam necessária uma adequação das normas legais de Schengen e a definição de novas medidas. Em estudo em diversos países estão um conjunto de acções, desde a retirada de passaportes, autorizações de residência e de benefícios sociais à perda da cidadania de indivíduos com dupla nacionalidade.

O objectivo é apertar a malha de concessão de documentos oficiais, cuja falsificação pode permitir a entrada de grupos terroristas para atentarem em solo europeu. A estes comandos são atribuídos pelos serviços de informação ocidentais cinco ou seis atentados nos últimos dois anos.

De acordo com as estimativas ocidentais, no Iraque e, sobretudo, na Síria, estão entre dez e 12 mil estrangeiros que se auto-intitulam jihadistas do Estado Islâmico. Destes, pelo menos dois mil a 2500 saíram de países europeus e entraram em território sírio por duas vias. Em voos regulares para a Turquia e depois trajecto até à fronteira turco-síria. Ou através de um percurso mais longo que os levou primeiro à Bulgária, depois a entrarem em território turco e a rumarem, finalmente, à Síria.

Uma das formas mais consistentes de recrutamento decorre através das redes sociais, que o EI utiliza com mestria. Neste recurso ímpar das novas tecnologias reside uma das diferenças com a Al-Qaeda, e leva a que a propaganda adquira uma importância decisiva. As mensagens são simples: no Ocidente não se pode viver como muçulmano; no Califado, que pretendem edificar, há dinheiro – os combatentes são bem pagos – e um horizonte de felicidade. Deste modo, é feita uma proposta de futuro. Curiosamente, o que se pode classificar como factor religioso – o radicalismo islâmico –, é cada vez menos importante.

A territorialidade, inerente à construção do Califado, é um dos vectores que marca a adesão. Ao contrário da Al-Qaeda, fundada por Osama Bin Laden, não existe um filtro estrito subordinado a uma fiel comunhão de princípios. O objectivo é garantir o povoamento do Califado e a existência de quadros – engenheiros, médicos, por exemplo – que assegurem o seu funcionamento.

O tema dos regressados foi esta semana levantado em Portugal pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. As declarações de Rui Machete sobre a vontade de jovens portuguesas abandonarem as fileiras do EI na Síria, que levaram o PS a pedir a sua comparência no parlamento, foram esta sexta-feira consideradas normais pelo primeiro-ministro. “As declarações que o senhor ministro fez a mim não me causaram nenhum incómodo”, disse Passos Coelho referindo-se à alegada polémica no seio do executivo. Por seu lado, o titular da Administração Interna também negou qualquer polémica com o seu colega das Necessidades. “A notícia que veio a público, nos termos em que veio a público, não tem qualquer adesão com aquilo que, alegadamente, se terá passado”, disse Miguel Macedo, refutando qualquer polémica com Machete.