A música de Wadada Leo Smith aponta para o Paraíso

Num dos momentos mais criativos da sua espantosa caminhada fora da tradição, Wadada Leo Smith apresenta-se este sábado na Casa das Artes de Famalicão. Encontro com um músico de olhos postos na descoberta de um Paraíso que está mais adiante.

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Entre 1982 e 2005, o dramaturgo norte-americano August Wilson dedicou-se à tremenda empresa de escrever as dez peças do seu Pittsburgh Cycle – nove dos textos colocam a acção no Hill District, de Pittsburgh, bairro onde Wilson cresceu.

O motor era simples na intenção mas uma montanha na concretização: dedicando cada uma das peças teatrais a uma década do século XX, Wilson propunha-se reflectir sobre a vida afro-americana ao longo desse período, celebrando a riqueza da linguagem mas também o fundo de resistência e de luta pelos direitos civis. “Quis colocar em palco a cultura afro-americana em toda a sua riqueza e completude, demonstrar a sua capacidade em sustentar todas as áreas da vida humana e em persistir através de momentos profundos da nossa história em que a sociedade global nos menorizou”, disse em entrevista ao New York Times, em 2000. Partes da obra acabariam por recebeu dois Pulitzer e deixar uma marca profunda na cultura popular.

“Fui muito influenciado pelas suas peças e pelas suas noções de como ele tentava ilustrar a História através delas”, confessa ao Ípsilon o trompetista Wadada Leo Smith, acerca da sua própria obra monumental Ten Freedom Summers. “Ele decidiu usar a cultura como método de navegação pela História por oposição a acontecimentos tidos como relevantes.” Mas em vez de tomar essa liberdade de relatar um século por meio de textos que (eles sim) se relacionam com a História mas a sugam para o quotidiano, afectando os pequenos gestos, Wadada Leo Smith pegou na deixa de Wilson e seleccionou dez verões – um por década – para documentar musicalmente acontecimentos fundamentais da luta do movimento pela igualdade dos direitos civis norte-americanos, desde a conferência nas Cataratas do Niagara, em 1905, que levou à fundação da National Association for the Advancement of Colored People, ao discurso de Martin Luther King, em Memphis, 1968. “E com isso fiz algo que nunca tinha feito – acrescentei uma dimensão psicológica à música.” E como é que isso transborda dos temas? “Não se mostra necessariamente na música, mas se me perguntarem posso dizer exactamente o que coloquei em cada peça.”

O ponto de partida seria, em 1977, o tema “Medgar Evers: A Love-Voice of a Thousand Years' Journey for Liberty and Justice", evocação do activista Medgar Evers, assassinado à chegada a casa, em Junho de 1963, horas depois do discurso de John F. Kennedy na televisão nacional em defesa dos direitos civis. “Essa peça dura 10 minutos, mas foram apenas alguns segundos quando ele saiu do carro, foi alvejado, caiu no chão e a família o viu estendido enquanto olhava para a porta. Foram cinco ou seis segundos”, explica Wadada. “A minha pesquisa mostrou-me que ao reflectir e meditar sobre isso, senti algo de único e muito dinâmico sobre esse curto momento, e foi sobre isso que compus.” Tal como se baseou no visionamento televisivo do cortejo funerário de JFK, da sala circular do Capitólio, em Washington DC, para o cemitério de Arlington. “Consegui reavivar a memória desse trajecto e acredito que compus uma boa descrição do momento. É desse impacto psicológico que estou à procura.”

Fora da tradição
Ten Freedom Summers, composto ao longo de 35 anos, foi finalmente lançado pela Cuneiform em 2012, com as composições dispersas por quatro CD, vencendo tal como Wilson um Pulitzer e reclamando, desde logo, um lugar histórico na linhagem a que Wadada Leo Smith acredita pertencer. Colocando-se à margem de qualquer tradição, diz-se parte da chamada creative music cujo início, no seu entender, se deu no final do século XIX com o ragtime – tirocínio essencial para a era do jazz. A par dos blues de Bessie Smith, Wadada fala de Scott Joplin como o apogeu dessa primeira grande revolução musical. “Depois, Jelly Roll Morton mostrou a forma completa dessa música que se prolongou até 1930, foi um músico espantoso. E em seguida veio um tipo chamado Louis Armstrong, importante porque pela primeira vez a música tomou um papel mais individual, antes disso tinha um sentido muito colectivo.” Mais tarde, selecciona, viriam Charlie Parker e Ornette Coleman. “Com o Ornette Coleman, inaugurou-se uma nova dimensão. E ainda temos de cumprir todas as profecias por ele deixadas.”

Apesar de pontuar de forma sucinta as paragens por onde entende que se desenvolveu a música que o formou (e o fez chegar a um desses merecidos postos de lendas vivas de uma obra que não nega ter no jazz o seu impulso primordial), Wadada Leo Smith sublinha a existência das suas peças para lá daquilo que entende por tradição. “Não sinto que a tradição deva ser a escala pela qual a minha obra é medida”, justifica. “A verdadeira noção da tradição perdeu-se e essa noção passa por estabelecermos um lugar na nossa comunidade musical e vermos quais as ideias que sobrevivem.” Só que a consciência dessa sobrevivência implica um olhar para trás que Wadada acusa de ser contrário ao propósito artístico. As peças sobreviventes serão então cristalizadas pelos outros. A ele cabe-lhe “nunca olhar para trás, para a esquerda ou para a direita, mas sempre em frente”. “É à nossa frente que está o Paraíso, o grande prémio. E esse grande prémio chama-se descoberta. Quando se olha para trás tudo aquilo que se vê são momentos congelados que recriaremos. Pode ser bom para alguns, mas para outros isso não é suficiente – e eu faço parte destes.”

Da teoria à prática, precisamente, Wadada Leo Smith não nega que, de forma periódica, se vai sentindo a alcançar essa descoberta, “como quando se está a escavar à procura de um tesouro e, num certo ponto, só encontrando alguma coisa se consegue ter forças para continuar”. Mas o tal Paraíso de que fala, esse será sempre inalcançável, da mesma maneira que ninguém, espiritualmente, alcança o Paraíso antes de deixar a Terra. “O que acontece, então, é que só ao terminarmos o nosso corpo de trabalho ele se pode tornar o Paraíso.”

O som
Aos 72 anos, e tendo em conta a sua discografia mais recente, Wadada Leo Smith não dá mostras de se encontrar perto de fechar esse seu Paraíso. Gravando a um ritmo imparável para a Tzadik, para a Pi Recordings, para a Cuneiform Records e para a TUM Records (figura ainda em duo com Angélica Sanchez na portuguesa Clean Feed), a música de Leo Smith alimenta-se não só da sua enumeração de revoluções musicais, como incorpora ainda uma facilidade em entrelaçar-se com a música escrita contemporânea. Desde muito cedo, aliás, Leo Smith tem composto para quartetos de cordas e outros ensembles, numa perspectiva de permanente expansão da sua linguagem. Essa ginástica estilística existia já quando Wadada se mudou do Mississípi para Chicago em meados dos anos 60, juntando-se à primeira geração da seminal AACM (Association for the Advancement of Creative Music), onde se cruzaria com músicos da estirpe de Muhal Richard Abrams, Steve McCall, Anthony Braxton, Jack DeJohnette, Leroy Jenkins e membros do Art Ensemble of Chicago. Aí, aquilo que descobriu foi “toda uma nova noção de comunidade de músicos em que se trocam ideias e se exploram novas dimensões.”

Com Roscoe Mitchell percebeu ainda algo de fundamental. Se Ornette Coleman tivera a ousadia de estilhaçar melodias e harmonias, libertando-as de espartilhos de uma criação musical que procurava revoluções dentro de fronteiras e anunciou o seu programa com o grito Free Jazz: a Collective Improvisation (1960), Mitchell subscreveu a sua própria revolução ao nomear um álbum Sound (1966). “Foi o Roscoe Mitchell que falou no som”, afirma Wadada. “Foi ele a dizer que se podia fazer música baseada no som, sem ter de lidar com quaisquer outras propriedades. Quando me encontrei com os tipos da AACM, percebi que era essa a ideia chave.” Encontrada a chave, foi só perceber o que fazer com ela. E Wadada passou a compor recusando as transposições tonais que são comummente usadas pela maioria dos compositores. “Eu organizo a música baseado na tonalidade em que o instrumento foi construído. Não transponho o som de trompete ou de trompa para Dó para ficarem no tom do piano. Se transpuser todos os instrumentos estarei a criar um espectro único e artificial. Por isso é que se ouvires a minha música em Occupy, por exemplo, tem 22 músicos e soa a uma orquestra de 100 elementos. O meu som é mais rico do que qualquer orquestra a tocar Beethoven, Bach ou Stockhausen porque não faço transposições nenhumas.”

A religião, a adesão ao rastafarianismo nos anos 80 e ao Islão na década seguinte, deram a Wadada a medida correcta de reflexão e meditação espiritual que tem invadido a sua criação desde então, sem rejeitar implicar, como em Ten Freedom Summers ou Occupy, posições sociais ou políticas. “Ninguém vive fora da política, ninguém vive fora da dimensão espiritual, ninguém vive fora dos problemas sociais na sociedade. Desde o surgimento da Humanidade os dois maiores problemas que nunca foram resolvidos foram o racismo e sexismo. E ainda estamos muito longe de uma solução porque, por alguma estranha razão, o ser humano gosta de ter ascendente sobre outros seres humanos. A questão da igualdade podia resolver-se de um dia para o outro. Bastava que as pessoas que têm mais reduzissem esse mais. O Islão ensina-nos que não precisamos de muito, precisamos apenas de ter o suficiente para a refeição do dia seguinte.”

Wadada alimenta-se dessa suficiência. E rumina frequentemente a sua música, dando-lhe espaço para a transformação. Tomemos novamente o magistral Ten Freedom Summers como exemplo: pode ter demorado mais de 30 anos a compor algumas das peças, mas porque, a cada momento, voltava atrás e reescrevia. “Por isso, quando se ouviu agora a gravação da primeira peça que escrevi em 1977, ‘Medgar Evers’, é tão fresca quanto as minhas ideias mais novas e tão velha quanto as minhas ideias mais antigas.” É uma questão de coerência: Wadada pratica o futuro que apregoa como único caminho para o Paraíso.