Entrevista

A única fuga de Roberto Saviano é para a frente. Zero Zero Zero é sobre cocaína

As ameaças de morte, depois de Gomorra empurram-no para a frente, não há recuo possível. É preciso continuar a ser polémico para continuar a ser protegido.

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PEDRO NUNES

Se soubesse o preço que pagaria, Roberto Saviano diz que nunca teria escrito Gomorra. Mas como é tarde para arrependimentos, voltou a atacar com uma reportagem literária sobre a forma como a cocaína domina o mundo

A sociedade capitalista precisa de cocaína?
Creio que sim. Não apenas por causa do fluxo de dinheiro, mas porque é uma droga performativa. Os ritmos são insuportáveis. O nosso cérebro tem a mesma capacidade de sempre, mas precisamos de muito mais energia, para fazer negócios, mas também para ter prazer. Muitos cheiram coca para relaxar, depois de um dia horrível. Não apenas os actores, os políticos, os homens de negócios, os jornalistas, mas também os trabalhadores. Durante a minha investigação, fiquei impressionado com o número de operários de construção civil que cheiram cocaína, porque trabalham demasiadas horas, fazem turnos de dia e de noite.

Tendemos a identificar a cocaína com a droga que se tornou popular nos anos 80, com os yuppies.
Isso mudou. Hoje, um motorista precisa, para ter êxito na profissão, de trabalhar 18 horas por dia, e não oito. Não o consegue sem a cocaína.

Houve uma “yupização” da sociedade.
De certa forma. O predomínio da heroína deu lugar ao da cocaína, e isso reflecte uma mudança na vida. A heroína é a droga que nos faz evadir, a cocaína faz-nos estar dentro do sistema.

É possível estabelecer uma relação entre as tendências do narcotráfico e do próprio sistema capitalista?
Aconteceu o seguinte: a produção de heroína surge por causa das necessidades da guerra. Os EUA incentivaram a produção de ópio, desde a I Guerra Mundial, para produzir morfina, para os soldados feridos, que depois da guerra se tornam morfinómanos. A heroína tem origem aqui, mas sofreu má publicidade nos anos 90, porque trouxe o HIV, a dependência. Quem injecta heroína não faz nada. E porque saiu do mercado das elites e entrou no de massas. De repente, as mafias da Calábria, Nápoles e América do Sul começaram a investir na cocaína. Era percebida como uma droga mais limpa, não se injectava. Quem a consumia não era visto como um drogado. Era a droga dos novos tempos. A Cosa Nostra, siciliana, não percebeu isto, permitindo que o narcotráfico se deslocasse do eixo Afeganistão, Sicília, Nova Iorque, para o da América do Sul. A heroína entrou numa crise total, mas agora está a regressar. Primeiro porque a fabricam de melhor qualidade, em versões que se podem cheirar e fumar. E depois, como a coca se tornou de massas, era preciso uma nova moda para a élite, que quer voltar a drogar-se sem fazer nada.

Que influência teve a actual crise financeira no narcotráfico, e vice-versa?
O dinheiro da coca salvou muitos bancos, que precisavam desesperadamente de liquidez. Num momento em que as instituições financeiras se afundavam por terem confiado em demasia nas várias formas de endividamento, em que o dinheiro se torna irreal, as máfias vendem uma mercadoria que tem de ser paga por inteiro e de imediato. O seu dinheiro “verdadeiro” precisava de ser “lavado”, e os bancos que o podiam fazer precisavam avidamente dele. Essa interdependência falou mais alto do que todas as supervisões. Investiguei o caso do Wachovia, um banco muito importante, que recebeu 378,4 mil  milhões de dólares dos narcotraficantes mexicanos.

Isso pode generalizar-se aos grandes centros financeiros mundiais?
Creio que sim, embora seja difícil obter provas. O narcotráfico não poderia existir sem o apoio do sistema financeiro, e este aproveitou isso para resolver os seus problemas. Porque precisava de grandes injecções rápidas de dinheiro, e o narcotráfico está apto a responder a isso. A coca tem uma particularidade: o ouro, os diamantes ou o petróleo precisam de uma estrutura, para extrair, vender, autenticar o produto. A coca é fácil de produzir (só não se produz o triplo, para não inflacionar os preços) e muito fácil de vender. Se te der um saco cheio de coca e disseres aos teus amigos que a tens, amanhã já não terás nada. Todos a querem.

Depois da publicação de Gomorra, em 2006, foi ameaçado de morte e vive com uma permanente escolta policial. Como foi possível fazer a investigação de Zero Zero Zero nestas condições? Trabalhou em colaboração com a Polícia?
Foi como ter mudado de barricada. Antes era a rua, agora são as esquadras, os tribunais, escutas telefónicas.

Não pode dar um passo sem a presença dos cinco polícias que o protegem?
Na América do Sul e em África andei com identidade falsa. Aí pude mover-me um pouco, porque não tinha o dispositivo todo, de cinco homens e dois carros blindados, apenas duas pessoas a seguir-me disfarçadamente. Mas o método de trabalho mudou. Mesmo sob falsa identidade, os movimentos não são os mesmos. Depois de anos a viver com escolta, não se é a mesma pessoa, fisicamente. Agora tenho agorafobia, etc. Nunca mais somos livres. Dantes andava de moto de um lado para o outro.

Por outro lado, deve ser mais fácil obter documentos e acesso, com a colaboração da polícia.
Sim, dantes precisava de muito tempo para aceder a documentos, agora chegam-me imediatamente. Mas não tenho a rua. As minhas fontes agora são essencialmente a polícia, os tribunais, ex-mafiosos arrependidos, que colaboram com a polícia, escutas telefónicas. A grande crítica que me fazem é de estar embedded com a polícia. Mas não concordo. É verdade que as fontes que uso são as deles, é o seu ponto de vista, mas eu não escrevo notícias. Tenho tempo para interpretar, relativizar. Sinto-me numa relação dialética com os polícias. Por vezes há conflitos. Eles dizem: ‘Nós é que os prendemos, sabemos do que falamos’. Mas eu respondo: ‘Eu não estou aqui para fazer um processo, mas para contar uma história’. Eles usam termos como “quadrilhas” e “gangues”, eu prefiro falar de “manager”, “capitalismo criminal”, “empreendedorismo”.

Teria escrito um livro diferente, se não fossem estas circunstâncias?
Talvez tivesse escrito sobre um assunto mais específico, algum grupo criminoso, e não sobre o mundo inteiro. Se não fosse o êxito internacional que tive, e a colaboração da polícia, não teria acesso a certas fontes. Agora estou em contacto contínuo com investigações importantes, o que me permite uma visão global do sistema. E o meu objectivo sempre foi escrever um livro onde se compreenda a totalidade da história, com sentido, como um romance. Mas só com coisas verdadeiras.

Em contradição com as regras do romance de não-ficção, a sua escrita é engagé.
Totalmente. Quando me perguntam se o livro é um romance ou um ensaio, respondo: tem factos e tem uma reflexão pessoal. Uma vez, num encontro público, o jornalista William Langewiche disse que eu não devia meter nas páginas tanto material pessoal. Eu respondi: sou um escritor. Quero exprimir o que sinto face a um homicídio. É esse o meu estilo.

Isso corresponde a uma tradição mais europeia, e menos americana, da literatura de não-ficção?
Sim, assumo, é uma tradição italiana, de escritores como Danilo Dolci ou Corrado Stajano. Também gosto muito de diários, como os de André Gide, quando visitou a União Soviética.

Em temas como a máfia ou o narcotráfico, pode ser-se engagé sem grande compromisso, porque dificilmente alguém contestará a perspectiva maniqueísta. Mas se escrevesse sobre temas fracturantes…
Sim, seria muito mais difícil se escrevesse sobre o aborto ou a eutanásia. Não me assusta não ter a solidariedade dos meus leitores. Não pretendo agradar-lhes, já recebi tanta merda deles nos últimos anos… O meu estilo implica que o autor tem uma posição. Se escrevesse sobre a eutanásia, seria claramente a favor, mas o livro seria mau se eu não conseguisse apresentar também a legitimidade da posição contrária. Quando retrato os mafiosos, por exemplo, tento mostrar também o seu talento, a sua nobreza. De certa forma, eles são melhores do que os políticos e os empresários, porque estão dispostos a pagar o preço pelo que fazem. Com isso ganham o respeito dos seus subordinados, que sabem que eles estão dispostos a passar 20 anos na prisão, para não traírem. Não são impunes, como os políticos. E, de certa forma, não há homem de negócios mais sério do que eles: são capazes de viver 20 anos numa cela sem falar com ninguém, ou de se fazer matar. Quem no mundo ama assim tanto o dinheiro, a ponto de se fazer matar?

De um modo geral, os livros são escritos na primeira pessoa, ou na terceira. O seu é na segunda. Porquê?
Uso esse recurso porque quero falar directamente com o meu leitor. É também uma forma de vingança narrativa. Quiseram reduzir-me a um delator assustado, aniquilar-me como pessoa, e isto é uma forma de mostrar que estou vivo.

A segunda pessoa é uma forma de envolver o leitor na intriga, fazê-lo sentir-se culpado?
É uma forma de lhe dizer: ‘Se ignorares estas coisas, também és culpado’. O meu objectivo é que o leitor feche o livro e pense uma de duas coisas: ou isto é mesmo verdade e eu estou envolvido, ou isto não é verdade, e quero investigar o que se passa. Em ambos os casos, fico contente. O meu estilo visa isso. É reportagem e romance ao mesmo tempo. Não é um tratado científico, mas também é um tratado científico. Quero construir um melting-pot de vários estilos.

Não teme ser desacreditado no que afirma, por usar um estilo discutível, ou pouco convencional?
Há anos que me fazem isso. A estratégia é: ou dizem que é tudo falso, ou que foi tudo copiado de outros jornalistas, apenas escrito de forma literária, ou então dizem que não sou de levar a sério, porque fiquei rico. Isto implica uma postura interessante, que é dizer: se não morreu, é porque não mete medo a ninguém.

Apesar de ter denunciado crimes e corrupção em Itália, foi o próprio estado italiano que lhe ofereceu segurança permanente, como que para lhe garantir o direito de denunciar. Isso aconteceu devido à visibilidade de conquistou, com mais de 10 milhões de livros vendidos?
Sim. Mesmo com Berlusconi como primeiro-ministro, e um vice-ministro da Economia foi foi agora preso por pertencer à Camorra, eu consegui ser protegido pelos carabinieri.

Se, dentro de alguns anos, o seu nível de visibilidade baixar, pode voltar a estar em perigo?
Talvez sim. Veja todos esses mortos mexicanos. Não tiveram suficiente luz. Por outro lado, um jornalista em El Salvador foi morto por ter feito um documentário que recebeu demasiada luz. Mas ele não conseguiu extrair protecção dessa luz.

É essa a razão porque escreveu agora um livro igualmente provocatório? Para manter o tipo de visibilidade que lhe garante continuar protegido?
De certa forma, sim.

As ameaças empurram-no para a frente. Não há recuo possível.
É verdade. Embora eu tenha esperança de que, quando terminar o julgamento daqueles que me ameaçaram, a minha vida possa lentamente voltar à normalidade.

Valeu a pena tudo isto?
Não. Mas quando escrevi Gomorra, não podia imaginar o que iria acontecer. Se imaginasse, não o teria feito.

Está arrependido?
Sim, seguramente. Mas aguento. Não recuo.