Um Nobel em busca do tempo perdido

A obra do escritor francês é uma luta contra o esquecimento, um sublinhar dos caminhos redentores da memória e da ficção, em que personagens frágeis, solitárias e etéreas, pairam numa cartografia parisiense nostálgica e romântica.

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Patrick Modiano em 1978 depois de ganhar o prémio Goncourt pela Rue des Boutiques obscures AFP/MICHEL CLEMENT

“Pela arte da memória com a qual ele evocou os destinos humanos mais inatingíveis e descobriu a vida do mundo da ocupação [alemã].” Foi com esta frase mais ou menos enigmática e algo redutora – como aliás é hábito – que a Academia Sueca anunciou ontem em Estocolmo o nome do escritor francês Patrick Modiano (n. 1945) como o vencedor do Prémio Nobel de Literatura 2014.

Modiano, que se estreou na ficção em 1968 com o romance La Place de l’Étoile, é autor de vários romances e foi já distinguido com o Prémio da Academia Francesa, com o Gouncourt, e entre outros com Prémio Princípe do Mónaco pelo conjunto da sua obra. Em Portugal foram publicados seis dos seus livros: O Horizonte (Porto Editora, 2011), No Café da Juventude Perdida (ASA, 2009), Dora Bruder (ASA, 1998), Um Circo Que Passa (D. Quixote, 1994), A Rua das Lojas Escuras (Relógio d’Água, 1988), Domingos de Agosto (D. Quixote, 1988).

O autor francês recorre em quase todos os seus romances a uma cartografia parisiense muito precisa, nostálgica e romântica, etérea e eterna, onde personagens frágeis, solitárias e desenraizadas, buscam a sua identidade remexendo numa espécie de “matéria escura” (a expressão é do próprio no romance O Horizonte) feita de possibilidades passadas de um futuro que, por uma ou por outra razão, nunca chegou a acontecer. Como se as acções que não aconteceram e as palavras que nunca foram ditas, as daqueles anos em que “a vida é entrecortada de encruzilhadas e se abrem tantas vias aos nossos olhos que a escolha se torna difícil”, ficassem a pairar num qualquer abismo e coubesse ao autor ir lá ouvir os seus ecos e assim fazê-las finalmente viver.

A geografia de Paris, sobretudo a da “rive gauche” (como no romance No Café da Juventude Perdida), é quase sempre enumerada com uma minúcia quase obsessiva. São nomes de ruas, de praças, de cafés, de pequenos hotéis, de estações de metro, que surgem envoltos numa tristeza melancólica evocada pela nostalgia que atravessa um pouco todas as narrativas. A errância das personagens em busca de um tempo perdido (antigos cafés que, por exemplo, se transformaram em boutiques de luxo que vendem malas de pele de crocodilo) acompanha a esperança de se entenderem e ao mesmo tempo desvelam ao leitor também uma parte do seu mistério, e não poucas vezes, do seu trágico fim. O escritor francês, na sua escrita elegante e habitada por velados jogos de luz e de sombras, faz o retrato de um tempo parisiense, o da vida de um presente que era demasiado jovem para ter um passado, e ao mesmo tempo também demasiado sonhador para ter um futuro.

Patrick Modiano vai traçando e entrecruzando retratos caleidoscópicos de indivíduos perdidos e em contínua demanda de si próprios. Estudantes, aspirantes a escritor, artistas, boémios, empregados anónimos, mas todos como se guardassem dentro de si um enorme enigma. Uma das personagens que talvez ilustre melhor essa ideia de mistério é Margaret Le Coz (uma enigmática jovem que desaparece misteriosamente na noite) em O Horizonte, ou então Louki, que surge em No Café da Juventude Perdida:  “Louki – que utilizava sempre a entrada mais estreita do café e se sentava sempre na mesma mesa, ao fundo da pequena sala – em quase nada se diferenciava dos outros, a não ser o facto de estar no Le Condé como se quisesse evitar qualquer coisa, escapar a um perigo. Esse era o seu enigma.”

As personagens de Modiano estão sempre envoltas por um certo ar de mistério mas também de ilegitimidade, o que as leva a tentarem refugiar-se umas nas outras, a actuarem como se vivessem sempre uma espécie de vida paralela, em que cada acto ou movimento é mais um ponto para a ténue teia que se vai desenhando diante do leitor. Em Dora Bruder – sem dúvida um dos seus melhores romances –, o narrador depara-se com um anúncio publicado num jornal de 1941, em que se procura por uma tal Dora Bruder, rapariga judia de 15 anos de idade. Toda a acção do livro se desenha numa procura de quem foi essa jovem que viveu enredada nas malhas da ocupação nazi, e em reconstruir a sua história até à sua morte em Auschwitz.

Rostos, episódios breves, encontros singulares, é o que conduz Modiano ao abismo da “matéria escura”, ao resgate de todos eles de um esquecimento que parece inevitável. Assim o fez também em O Horizonte, em que uma jovem é literalmente empurrada para os braços de um homem pelo acaso de uma carga policial na entrada de uma estação de metro. O autor francês cria assim um par de personagens frágeis, pessoas que se movimentam pelo mundo (de novo e sempre, Paris), dando ao leitor a sensação de que é o vento que as leva no meio de uma multidão anódina (na qual parecem recear perder-se) ou então sozinhas vogando pelas ruas à semelhança dos pares dos desenhos de Chagal.

Toda a obra de Patrick Modiano é uma espécie de luta contra o esquecimento, um sublinhar dos caminhos redentores da memória e da ficção.

Crítico literário