Radovan Karadzic apresenta-se em Haia como "um verdadeiro amigo dos muçulmanos"

Antigo líder dos sérvios da Bósnia diz estar inocente das 11 acusações de que é alvo, entre as quais a responsabilidade pelo massacre de Srebrenica, em 1995.

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As alegações finais começaram nesta quarta-feira, mas a sentença só será conhecida dentro de um ano MICHAEL KOOREN/AFP

As alegações finais começaram nesta quarta-feira e vão prolongar-se até quinta-feira, mas o antigo líder dos sérvios da Bósnia Radovan Karadzic já apresentou os argumentos que considera serem os mais fortes para convencer os juízes de que não é culpado de 11 crimes de guerra, entre os quais o genocídio de bósnios muçulmanos em Srebrenica, em 1995: apesar de assumir a "responsabilidade moral" por crimes cometidos durante a guerra da Bósnia, Karadzic afirma que sempre foi "um verdadeiro amigo dos muçulmanos", e acusa os procuradores do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ) de "enganarem os juízes".

Vestido com um fato cinza escuro e camisa branca, Radovan Karadzic, de 69 anos, apresentou-se perante os juízes do TPIJ, em Haia, de forma segura – mais como um político em campanha do que como um homem acusado de ter ordenado o maior massacre desde a II Guerra Mundial e que enfrenta a possibilidade de ser condenado a prisão perpétua, segundo a descrição da jornalista da BBC Anna Holligan.

"Eu era um verdadeiro amigo dos muçulmanos. Mas tudo isso foi ignorado [pela acusação do TPIJ]", declarou Radovan Karadzic.

Para o antigo Presidente da então autoproclamada República Sprska (uma das duas entidades da actual Bósnia-Herzegovina), e psicólogo de formação, o objectivo do tribunal é sentar no banco dos réus todo o povo sérvio.

Ele, que é acusado de tentar fazer desaparecer todos os muçulmanos da Bósnia (em conjunto com o general Ratko Mladic e o ex-Presidente da Jugoslávia Slobodan Molosevic), diz que ficaria "profundamente ofendido" se fosse um dos juízes que terá de ditar a sua sentença: "Eu sei qual é a verdade, o gabinete do procurador sabe qual é a verdade, mas está a tentar enganar o tribunal", afirmou.

Karadzic – que assegura a sua própria defesa – foi capturado em Julho de 2008 em Belgrado, na Sérvia, ao fim de 13 anos em fuga. Na altura, trabalhava como especialista em medicina alternativa.

Acusado de ser um dos responsáveis pela execução de cerca de 8000 homens e rapazes em Srebrenica, em Julho de 1995, sempre classificou esse massacre como "um mito" criado pelos muçulmanos da Bósnia.

Nesta quarta-feira, assumiu "a responsabilidade moral" por crimes cometidos na guerra que durou três anos e oito meses, entre 1992 e 1995, e que fez mais de 100.000 mortos. Na fase final da guerra, milhares de muçulmanos bósnios foram executados na cidade de Srebrenica em apenas três dias – de 11 a 13 de Julho. O massacre de Srebrenica é considerado o primeiro caso de genocídio na Europa desde a II Guerra Mundial.

O antigo líder sérvio da Bósnia garante agora, perante o tribunal em Haia, que a sua luta foi sempre pela paz: "Fiz tudo para evitar a guerra, e durante a guerra, fiz tudo para limitar o mais possível o sofrimento."

Por isso, clama inocência em relação a todas as acusações de que é alvo: genocídio; perseguições políticas, raciais e religiosas; extermínio; assassínio; deportação; actos desumanos; actos de violência com vista a espalhar o terror entre a população civil; ataques contra civis; e tomada de reféns.

Karadzic vai continuar a sua defesa na quinta-feira e terá uma última oportunidade para convencer o tribunal na terça-feira da próxima semana. A sentença não deverá ser anunciada antes de Outubro de 2015.

Desde a sua criação, em 1991, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia acusou 161 pessoas por crimes cometidos nas guerras que se seguiram ao desmembramento da Jugoslávia. A maioria é sérvia, mas também foram acusados croatas, kosovares e muçulmanos bósnios.

Actualização (17h57): "O massacre de Srebrenica é considerado o primeiro caso de genocídio na Europa desde a II Guerra Mundial."