Opinião

A cidade e o campo

Entre as muitas coisas odiosas que a televisão fornece estão as reportagens e as visitas ao campo, em que o ponto de vista é sempre a de “etnólogos” espontâneos e pacóvios, em busca do pitoresco, do “povo”, da anacrónico e do contraste com a vida urbana. Do campo e da velha dicotomia cidade/campo já quase só existem estas representações e as do turismo rural. E como se tornou possível percorrer de auto-estrada o país de lés a lés, podemos dizer que o campo é hoje, em larga medida, uma produção da Mota-Engil para a RTP, SIC e TVI. A Mota-Engil é evidentemente uma metáfora (ou, se quisermos ser mais respeitosos, uma alegoria), pedida emprestada a uma crónica de Paulo Varela Gomes, recolhida em Ouro e Cinza, recentemente editado (Tinta da China). Menciono-o precisamente para trazer à luz esta questão: as descrições campestres (ia dizer: da “paisagem natural”, mas não é a mesma coisa) ausentaram-se de tal modo da literatura, tornaram-se tão estranhas à matéria dos escritores, que até já tínhamos esquecido o género e a linhagem da prosa com a capacidade descritiva e evocativa que têm as crónicas campestres reunidas numa secção deste livro. Um exemplo: “As videiras passaram todo o Inverno retorcidas e ásperas a fingir de mortas, mas começam agora a cobrir-se de vides frescas como água dos ribeiros. As carreiras de cepas ficam cada vez mais verdejantes e há, na erva alta que cresce entre elas, milhares de pequenas flores do prado: dentes de leão amarelos com um coração coruscante de branco, extensões imensas de margaridas como neve de Primavera sobre a erva”. A questão que aqui me interessa é esta: ao lado destas crónicas campestres, encontramos outras completamente urbanas onde o rigor descritivo nasce do mesmo factor, isto é, a competência e a acuidade do olhar, adquiridas não só através de uma forte cultura visual, mas também de uma cultura artística mais específica. O campo de PVG não nasce de uma vocação rural ou de um sentimentalismo projectivo, (por mais que se dê, entre o observador e o que é observado, um acordo quase musical), é manifestamente o resultado da observação de muita pintura de paisagem e da ideia – que encontramos em Simmel – da paisagem como algo onde se entretece a natureza e a história. Ou, até, da concepção da paisagem como secularização da antiga ideia de theoria, algo remoto e abstracto, que só existe como fenómeno de compensação, na medida em que a paisagem - uma noção própria da Idade Moderna, que não existia na Antiguidade nem na Idade Média - é um substituto da perda da natureza. Daí, esta verificação de PVG: “A cultura visual dos camponeses não é moderna”. O mesmo é dizer: eles não vêem o seu campo como uma paisagem. Mas vindo de alguém que escreveu tanto sobre a cidade, algumas destas crónicas fornecem ainda mais matéria de reflexão sobre esta dicotomia cidade/campo: PVG mostra-nos que a frase urbana, isto é, a sintaxe através da qual a cidade se torna legível não é igual ao fraseado campestre. A primeira é infinita, revela-se como um palimpsesto e pode ser descrita através de uma gramática generativa; a segunda não é bem uma sintaxe, é mais uma parataxe, uma linguagem enlouquecida, que não comunica nada senão a si própria, como os últimos hinos de Hölderlin. Quando escreve sobre o campo, PVG poderia citar Flaubert: “Não se pode pensar e escrever senão sentado”. Quando escreve sobre a cidade, fá-lo antes sob o signo de Nietzsche: “Só os pensamentos que temos ao caminharmos valem alguma coisa”. Quem não percebe esta diferença, nunca saberá escrever nem sobre a cidade nem sobre o campo.