Sindicato diz que greve com adesão de 80% teria sido evitada com contratação de 3000 enfermeiros

Enfermeiros estão no “limite da exaustão, do cansaço e da desmotivação” mas dizem que, ainda que faltem mais profissionais, uma contratação imedita de 2500 a 3500 poderia ter feito o diálogo resultar.

Fotogaleria
No Hospital de São José, em Lisboa, há utentes à espera Miguel Madeira
Fotogaleria
Na maior parte dos casos os doentes conseguiram ser tratados no Hospital de São José Miguel Madeira
Fotogaleria
A espera no Hospital de São José era semelhante ao que acontece num dia normal Miguel Madeira
Fotogaleria
João Semedo do Bloco de Esquerda está solidário com os enfermeiros Miguel Madeira
Fotogaleria
José Carlos Martins, do sindicato, em declarações aos jornalistas Miguel Madeira

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) admitiu que a greve nacional de dois dias, que começou nesta quarta-feira e que tem como principal reivindicação a carência de profissionais, poderia ter sido evitada com uma contratação extraordinária no imediato de 2500 a 3500 enfermeiros que compensasse as saídas dos últimos dois anos. Sobre a adesão nesta primeiro dia, o presidente do SEP, José Carlos Martins, falou em valores superiores a 80% e que “são uma forte resposta à perspectiva de banalização que o senhor ministro quis imprimir a esta greve”.

José Carlos Martins, em declarações aos jornalistas no Hospital de São José, em Lisboa, adiantou que os dados apurados nos turnos da noite e da manhã “confirmam a elevada adesão dos enfermeiros a esta greve”. De acordo com o sindicalista, as únicas unidades de saúde a registarem valores inferiores a 80% foram o Hospital de Vila Franca, Hospital Pulido Valente, Hospital de Águeda e Hospital da Covilhã. Por motivos contrários destacam-se o Hospital de São José (97%), o Hospital Rovisco Pais (100%), o Hospital de Vila Nova de Gaia (90%) e o Hospital do Litoral Alentejano (93%).

O Ministério da Saúde, por seu lado, remeteu a divulgação dos números de adesão à greve para depois de serem processados os salários deste mês. Ainda assim, numa nota enviada à Lusa, o ministério de Paulo Macedo considerou os valores do SEP “fantasiosos” e acusou os sindicalistas de não reconhecerem o esforço dos “contribuintes” para a contratação de profissionais.

O dirigente do SEP explicou que a paralisação está a afectar sobretudo as cirurgias programadas e as consultas de enfermagem tanto nos cuidados de saúde primários como nos hospitais. E disse que só não é mais expressiva por em muitos locais já se estar a trabalhar com serviços mínimos, dando como exemplo que no turno da noite estavam escalados 2025 enfermeiros e que 1775 aderiram à greve, ainda que tenham de ter ido trabalhar para cumprir os mínimos inscritos na lei.

Contudo, no Hospital de São José, como constatou o PÚBLICO, o cenário no edifício das consultas externas era de aparente normalidade. Havia muita gente nas salas de espera, na maior parte dos casos para fazer análises clínicas ou para consultas médicas. Mas era difícil encontrar quem tenha ficado sem tratamento de enfermagem.

Maria da Glória Fernandes, de 76 anos, foi uma das excepções. Vinha mudar um penso na perna e chegou pouco depois das 8h. Já passava das 10h quando saiu sem ser atendida. “Uma pessoa espera tanto tempo e não me fizeram o penso. Dizem que há greve e vamos lá ver se amanhã me atendem, que parece que há outra vez”, disse ao PÚBLICO, apoiada no braço do marido que a ajudou a encaminhar-se para a saída.

Dia para descansar
Ainda sobre os motivos do protesto, José Carlos Martins lamentou a desvalorização feita pela tutela quando os enfermeiros estão no “limite da exaustão, do cansaço e da desmotivação” e reforçou que “sem profissionais não há resposta aos utentes nem Serviço Nacional de Saúde que resista”. Porém, no segundo dia de greve, que será marcado por uma concentração de enfermeiros à porta do Ministério da Saúde, em Lisboa, o dirigente não antecipa uma adesão de muitos milhares, referindo apenas uma “boa participação”. “Temos vários sinais de que os próprios enfermeiros aproveitam a greve para descansar”, justificou, insistindo no crescente número de casos de pessoas que trabalham “dez, 15 ou 20 dias seguidos” e que fazem 48 a 56 horas por semana.

As contas do SEP apontam para que faltem 6000 enfermeiros nos cuidados de saúde primários e 19 mil nos hospitais. Do lado da tutela, o compromisso é de admitir mil profissionais neste ano e 700 em 2015. Números mal recebidos pelo SEP. “O sindicato e os enfermeiros têm consciência do estado do país e não estamos a exigir uma admissão imediata até porque não os há [enfermeiros] formados”, explicou José Carlos Martins, que considerou, contudo, que o SEP tem feito propostas “justas e sensatas” que passariam por admitir por agora 2500 a 3500 enfermeiros – o que permitiria repor as saídas desde 2013 e teria sido suficiente para credibilizar o diálogo com a tutela e travar esta greve, diz.

Para José Carlos Martins tem faltado “vontade política” ao Ministério da Saúde, mas também reconhece que tem existido “algum constrangimento da Administração Pública, das Finanças” – em referência às autorizações necessárias para as contratações que passam por Maria Luís Albuquerque. Depois, lembrou que da carta de reivindicações desta greve fazem parte outros problemas, como as carreiras profissionais e os escalões, o aumento do horário de trabalho das 35 horas semanais para as 40, a falta de abertura de concursos para a categoria de enfermeiro principal, o não pagamento diferenciado a enfermeiros especialistas e o excessivo número de horas extraordinárias trabalhadas e de folgas por gozar.

Por seu lado, o coordenador do Bloco de Esquerda, que também esteve no Hospital de São José para manifestar a sua solidariedade com os enfermeiros, aproveitou a ocasião para reafirmar que “o Governo gasta demasiado dinheiro na banca e falta-lhe para investir no Serviço Nacional de Saúde”. João Semedo considerou que o actual número de horas de trabalho extraordinário suportado pelos enfermeiros “é incompatível com o bom desempenho profissional” e defendeu que as recentes contratações anunciadas pelo Ministério da Saúde “são uma pequeníssima gota de água num oceano imenso de falta de profissionais”.