Crítica

As asas negras do condor

O fotógrafo João Pina dedicou-se de corpo e alma a este livro que retrata um dos momentos mais negros da história contemporânea da América Latina

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Muitos dos responsáveis pela violência da Operação Condor são hoje velhos de cabelos bem aparados que preferem esconder o rosto — na imagem, os réus de um julgamento na Argentina JOÃO PINA

Quando se descobriu que o general Augusto Pinochet mantinha contas secretas, ocultadas em nome de familiares, num banco em Miami para onde desviara uma fortuna em segredo, a aura impoluta que os seus apoiantes continuavam a tentar emprestar-lhe era estilhaçada pela realidade. O antigo ditador da imaculada farda branca cheia de condecorações, campeão da luta anticomunista, o “tata” (avô) dos chilenos não passava, afinal, de um delinquente comum.

Essa queda do Olimpo de mais um ditador sul-americano havia começado em 1998, quando a justiça britânica, executando um mandado de captura internacional emitido pela Interpol a pedido do juiz Baltasar Garzón, impediu o general, senador vitalício do Chile, de abandonar o Reino Unido e o colocou sob detenção, aguardando a análise do pedido de extradição. Muito pressionada pelo governo de Tony Blair, a justiça britânica acabou por não enviar o general para Espanha, em troca de Pinochet ser julgado no Chile. A partir daí, foi sempre a descer — para o general que traíra o seu presidente eleito democraticamente, Salvador Allende, depois de lhe ter jurado lealdade sem pestanejar, e para essa ideia muito defendida pelas ditaduras sul-americanas nos anos 70 de que os militares tinham sido cruzados numa luta anticomunista e a sua única culpa era a de terem ganho essa guerra.

O mesmo Garzón escreve, no posfácio deste Condor, aquilo que realmente estava por trás da retórica de contornos religioso-messiânicos que os governos repressivos de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai tentaram inscrever na História como verdade: “É curioso que a todo este género de acontecimentos, como os que se verificaram na América Latina e nos quais se centra este excelente trabalho de João Pina, corresponde a cobardia dos que os proporcionaram: mostraram a sua força na agressão e na imposição do silêncio, mas não quando se tratou de responder pelos crimes perpetrados.”

Essa cobardia está bem expressa nas fotografias dos julgamentos dos militares envolvidos na repressão da ditadura argentina (1976-83), de longe o mais sanguinário dos regimes que se abateram sobre os seis países, com o seu rasto de 30 mil desaparecidos, de crianças roubadas aos pais e entregues a famílias próximas da ditadura, de uma guerra (Malvinas) desencadeada como um salto de retórico estertor para salvar o que já não podia ser salvo, e as marcas que ainda hoje se reflectem na sociedade. Nelas, quase todos aqueles velhos de cabelos bem aparados e bem vestidos nas suas vestimentas de oficiais militares na reforma preferem esconder o rosto numa vergonha que nunca surge na história que sempre contaram e para a qual escolheram o seu próprio papel de heróis salvadores de uma guerra de tudo ou nada. Um contraste gritante com a realidade de regimes que não olharam a meios (quanto mais escabrosos melhor, pois o medo cerceava outros a irem pelas mesmas veredas) para satisfazer a sua crueldade de Estado.

Jon Lee Anderson, o jornalista americano especialista na América Latina que assina o texto de entrada deste colossal projecto do fotógrafo João Pina sobre a Operação Condor, escreve que as primeiras notícias da existência dessa operação surgiram em 1979, já a mesma se desenrolava secretamente havia quatro anos: “Nessa altura, a ideia de uma aliança forjada entre os regimes militares de direita da América Latina, com o objectivo expresso de assassinar comunistas nos países uns dos outros, soava como uma teoria da conspiração (…), mas era verdadeira e, no início dos anos de 1980, quando a matança levada a cabo pela Operação Condor começava a abrandar, já tinha provocado mais de 60 mil mortes.”

Muitas dessas mortes correspondem ainda hoje a “desaparecidos”, militantes assassinados cujos cadáveres foram escondidos num limbo mais cruel do que a própria morte: sem corpo para fazer o luto, as famílias foram chorando a ausência de alguém que racionalmente sabiam morto mas de quem emocionalmente continuaram a esperar o regresso. João Pina fotografa essa ausência de forma exemplar, enquadrando os lugares que antes foram centros de detenção e tortura de tal maneira que quase sentimos a presença humana que as imagens não registam. Notam-se as marcas do tempo mas também da passagem de gente, como essa inscrição gravada no estuque de uma antiga cela na cave do Ministério do Interior boliviano: “Só quero ser livre.”

A opção de remeter as legendas para um catálogo colocado numa bolsa no final é das mais acertadas, permitindo que o livro seja antes uma testemunha visual e emocional desse momento abjecto em que vários Estados secretamente resolveram exterminar com requintes de atroz barbarismo parte da sua população.

Sendo um projecto de vida para João Pina, o espírito de dedicação e de obsessão que o fotógrafo colocou durante anos na sua concretização é a justa homenagem aos homens e mulheres que foram vítimas da Operação Condor. Os corpos que enquadra e as histórias que conta, exemplos de milhares de outras histórias idênticas de jovens idealistas que não tiveram a mínima hipótese contra seis polícias políticas a trabalhar em conjunto, resultam num documento digno e emocional. Dignidade que a Operação Condor nunca teve.