Crítica

Partilha, prazer, paixão

Partilha de conhecimentos e experiências. Prazer em interpretar em conjunto. Paixão pela música.

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O programa do concerto foi organizado de forma criteriosa, aliando a variedade de épocas e estilos à coerência da sequência das obras interpretadas.

A primeira parte do concerto foi constituída por três obras que fizeram dialogar o antigo e o moderno: Chacony em sol menor de Henry Purcell e duas obras do século XX de espírito neoclássico, Lachrymae Op. 48a de Benjamin Britten e Le Tombeau de Couperin de Maurice Ravel.

Na Chacony a postura da orquestra revelou a consciência da actual interpretação historicamente informada, evidenciando uma noção clara de fraseado e respeitando o carácter do repertório de dança do período barroco.

Em Lachrymae o violetista Jano Lisboa demonstrou as suas excelentes qualidades técnicas e expressivas, nomeadamente a precisão de ataque, a justeza da afinação e a excelente noção de dinâmica e de fraseado. O solista foi acompanhado pela orquestra de cordas na qual se destacou o excelente desempenho da secção grave.

Le Tombeau de Couperin deu a conhecer um naipe de sopros muito equilibrado e de alto nível. Estes jovens revelaram uma exímia execução das partes solistas mas também uma excelente noção de naipe e de diálogo tímbrico tão importante no repertório raveliano. No geral a orquestra apresentou uma sonoridade coesa e equilibrada possibilitando a audição de todos os detalhes da obra.

A segunda parte foi iniciada com a estreia nacional de Vermalung IV – Ludwig V. composta em 2008 por Luís Antunes Pena. A peça insere-se num ciclo de cinco peças compostas entre 2005 e 2013. Vermalung IV é uma peça de cerca de quatro minutos que explora de um modo perspicaz e imaginativo a dimensão tímbrica, rítmica e dinâmica da orquestra. Apesar da sua curta duração, a peça é reveladora da excelente técnica orquestral do compositor e da sua capacidade em explorar ideias musicais simples e de as projectar num discurso sonoro muito coerente e atraente. O destaque do naipe de percussão é feito de forma inventiva e subtil, promovendo um harmonioso enlace entre os seus timbres e o resto da orquestra.

O concerto concluiu com a execução da Sinfonia nº 5 de Ludwig van Beethoven que confirmou a maturidade da orquestra, surpreendendo pela leitura rigorosa da partitura e pela atenção dada às transições temáticas e de pathos, resultando numa interpretação plena de jovialidade e intenção dramática.

Neste concerto a Orquestra XXI demonstrou uma perfeita consciência de que a partilha é o meio para se atingir uma interpretação cuidada, rigorosa e profundamente expressiva. A disponibilidade física, auditiva e emocional dos membros da orquestra foi elemento fundamental para a eficácia da interpretação, revelando um total envolvimento com o maestro. Na sua juventude, o maestro Dinis Sousa evidencia uma maturidade impressionante no respeito pela partitura e pelo domínio de tão amplo repertório, revelando uma justa noção de estilo e uma excelente técnica de direcção. Este maestro apresenta uma capacidade de liderança alicerçada na cumplicidade e na partilha da experiência musical, motivando o envolvimento do colectivo da orquestra sem inibir as suas individualidades. Isto foi perfeitamente visível nos olhares cúmplices e atentos que os intérpretes trocavam constantemente entre si, reveladores de um enorme sentido de comunicação baseado no prazer de fazer música.

Foi emocionante assistir ao concerto desta orquestra integralmente constituída por jovens músicos portugueses (com idades entre os 20 e os 30 anos), oriundos de escolas de música portuguesas de todas as regiões do país (continente e ilhas) que actualmente estudam ou desenvolvem uma carreira no estrangeiro. A Orquestra XXI é um projecto que, a meu ver, merece continuar a ser apoiado porque espelha o que de melhor se constrói e desenvolve no país, tanto ao nível formativo como profissional, promovendo de maneira consequente o investimento em valores verdadeiramente nacionais.