A morte de um herói expõe o atraso da resposta ao ébola

Sheik Humarr Khan era médico e único especialista em febres hemorrágicas na Serra Leoa. A sua morte foi mais um golpe num país cujo sistema de saúde está a ficar devastado pelo pior surto de ébola. Quem restará para a próxima crise de saúde pública?

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Um cartaz de aviso ao ébola, junto de um hospital em Freetown, capital da Serra Leoa Carl de Souza/AFP (arquivo)
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Sheik Humarr Khan era um "herói" na Serra Leoa Pardis C. Sabeti

Quando dois missionários norte-americanos recuperaram do vírus do ébola, depois de serem tratados com um medicamento experimental, a família em luto do médico mais famoso da Serra Leoa, que não sobreviveu a esta doença, perguntou-se por que é que este tratamento tinha sido negado a Sheik Humarr Khan.

Este médico era um herói na Serra Leoa por liderar a luta contra o pior surto de sempre desta febre hemorrágica altamente contagiosa, que já matou 1552 pessoas, a maioria na Serra Leoa, na Libéria e na Guiné-Conacri, na África Ocidental.

No final de Julho, Khan ficou doente com ébola e foi rapidamente transportado para a unidade de tratamento dos Médicos Sem Fronteiras no Norte da Serra Leoa. Lá, os médicos discutiram se deveriam dar-lhe o ZMapp, um medicamento apenas testado em animais de laboratório, que nunca tinha sido usado em humanos.

Os médicos tiveram dificuldade em decidir o que fazer devido, por um lado, à questão ética de favorecer uma pessoa em relação a centenas de outras que também estavam doentes e, por outro lado, devido ao risco de haver repercussões se a morte de um herói nacional fosse relacionada com a administração de um tratamento experimental. No final, decidiram não usar o ZMapp. 

A 29 de Julho, a Serra Leoa ficou de luto com a morte de Sheik Humarr Khan.

Uns dias mais tarde, o ZMapp, produzido na Califórnia, foi administrado a Kent Brantly e Nancy Writebol, dois missionários norte-americanos que contraíram o ébola na Libéria e foram depois transportados para um hospital, em Atlanta, nos Estados Unidos. Não se sabe se o ZMapp teve algum papel na sua recuperação, mas os dois saíram do hospital há cerca de duas semanas.

Sheik Humarr Khan foi um dos mais de 100 trabalhadores de saúde africanos que pagaram o derradeiro preço ao lutarem contra o ébola, numa epidemia que tem sobrecarregado os sistemas de saúde daqueles países e que, dizem muitos, poderia ter sido contida se o mundo tivesse agido de forma mais rápida.

Em Mahera, uma aldeia no Norte da Serra Leoa, os pais e os irmãos do médico questionam-se por que é que ele não recebeu o tratamento. O médico salvou centenas de vidas durante uma década a lutar contra a febre de Lassa – uma doença semelhante ao ébola – na sua clínica em Kenema, uma cidade no Sudeste da Serra Leoa com 130.000 pessoas onde há comércio de diamantes. O médico era o único especialista do país em febres hemorrágicas.

“Se o tratamento era suficientemente bom para os norte-americanos, devia ter sido suficientemente bom para o meu irmão”, disse Ray Khan, o irmão mais velho, enquanto se senta no alpendre da casa da família. “Não é lógico que não tenha sido usado. Ele não tinha nada a perder se o tratamento não tivesse funcionado.”

Os médicos que conheciam Sheik Humarr Khan e que estavam envolvidos naquela decisão difícil disseram, contudo, que foi tomada com base em fortes razões éticas.

O vírus do ébola é transmitido pelo contacto directo com os fluídos corporais de pessoas infectadas e contamina mais o pessoal médico e as pessoas que lidam com os doentes. As vítimas têm vómitos, diarreia, hemorragias internas e externas nos estádios finais da doença, deixando os seus corpos cobertos pelo vírus. Para tratar os doentes, os médicos têm de ter formação e roupa de protecção, duas coisas raras em África.

O surto foi detectado há mais de cinco meses no interior das florestas no Sudeste da Guiné-Conacri. Mas só a 8 de Agosto é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a epidemia era uma emergência de saúde internacional, prometendo assim mais recursos. Ao dizimar o pessoal médico destes países, que já só tinham algumas centenas de médicos antes do surto, o ébola deixou milhões de pessoas vulneráveis à próxima crise de saúde.

“O doutor Khan conhecia os riscos melhor do que ninguém… mas quando se trabalha 18 horas por dia durante meses em instalações que estão superlotadas, qualquer um irá cometer um erro”, disse Robert Garry, professor de microbiologia e imunologia da Universidade de Tulane, em Nova Orleães, EUA, que trabalhou com o médico da Serra Leoa durante uma década. “A comunidade internacional tem de olhar para o que aconteceu e dizer que falhámos. Deveríamos ter reagido mais rápido a este surto.”

Atmosfera tensa

Para muitas pessoas da Serra Leoa, Sheik Humarr Khan era um salvador pelo trabalho pioneiro que fez com a febre de Lassa, uma doença endémica que nas florestas do Leste da Serra Leoa mata 5000 pessoas por ano. Quando o ébola apareceu, também se tornou a figura de proa da nova luta, e foi saudado pelo Presidente Ernest Bai Koroma, como “herói nacional”.

Devido à violência esporádica que as populações locais assustadas exerceram sobre os trabalhadores de saúde, os médicos envolvidos no acompanhamento de Khan receavam que um passo em falso no tratamento daquele “herói” poderia ter um custo alto.

“Agora podemos olhar para trás e dizer que foi um erro”, disse o médico norte-americano Daniel Bausch, da Universidade de Tulane, que trabalhou com Khan e defendeu na altura que se deveria dar o ZMapp. “Mas havia uma atmosfera muito tensa”, disse. “Se ele tivesse morrido do fármaco, ou se parecesse que isso tinha acontecido, poderia ter havido consequências perigosas.”

Os médicos também tiveram preocupações éticas em dar o ZMapp a Khan quando centenas de pessoas, que também estavam infectadas pelo ébola, não podiam receber o tratamento, já que existiam poucas doses.

Joanne Liu, a presidente dos Médicos Sem Fronteiras – uma organização humanitária que dirigiu a resposta ao ébola em clínicas na Serra Leoa, na Guiné-Conacri e na Libéria –, disse que os médicos não podiam autorizar o uso de um medicamento para administrar a Khan cujos efeitos eram desconhecidos. “Não sabíamos quais as consequências. Não sabíamos quão doente ele estava nem quão eficiente o tratamento seria”, explicou Joanne Liu, à agência Reuters.

Inicialmente, o médico parecia estar a recuperar. Mas nunca lhe foi dito que aquele tratamento experimental era uma possibilidade. A 12 de Agosto, duas semanas depois da sua morte, a OMS aprovou o uso de fármacos experimentais para combater o ébola. Desde então, um padre espanhol, três médicos africanos e um enfermeiro britânico receberam doses de ZMapp, tal como ainda antes da recomendação da OMS tinham recebido os dois missionários norte-americanos. No entanto, o espanhol e um dos médicos africanos não sobreviveram ao ébola.

Desde que o vírus foi isolado pela primeira vez em 1976, houve 1590 mortes nos surtos passados, todos em países africanos pobres. As empresas farmacêuticas têm estado pouco motivadas em apostar na investigação desta doença.

Agora, empresas farmacêuticas como a GlaxoSmithKline estão a trabalhar afincadamente em ensaios clínicos (já em seres humanos) de vacinas, devido ao medo de o ébola se espalhar para lá de África, através de viagens aéreas, como aconteceu com o cidadão norte-americano que levou o vírus da Libéria para a Nigéria.

“Precisamos de arranjar vacinas para o pessoal médico. Eles estão no meio do perigo”, disse Robert Garry, um dos cientistas do Consórcio de Febre Hemorrágica Viral, uma parceria de institutos de investigação internacionais, acrescentando que o surto durará pelo menos seis meses. “Precisamos de muito mais gente para controlar este surto. Ainda não vimos o pior.”

“Quem é que me vai substituir?”

Desde o início que Khan sabia que seria perigoso trabalhar na clínica de Kenema. Quando se tornou responsável pela clínica, em 2004, sucedeu a um médico que sangrou até morrer devido à febre de Lassa. Mas depois de 11 anos de guerra civil, eram poucos os que poderiam fazer aquele trabalho. 

Penúltimo de dez filhos, o médico nasceu numa família humilde, e quis seguir as pisadas do Dr. Kamara, o seu herói de criança que liderava a clínica de Mahera. Determinado a entrar na faculdade de medicina de Freetown, a capital da Serra Leoa, o médico foi inicialmente rejeitado.

Quando se licenciou, o seu pai sentiu-se demasiado envergonhado para ir à cerimónia, ouvindo-a pela rádio. “Quando o nome do doutor Sheik Humarr Khan foi dito pelo reitor da faculdade, o meu pai desfez-se em lágrimas de alegria”, lembrou Mariama, irmã do médico.

Extrovertido e brincalhão, Khan atirou-se ao trabalho em Kenema. A mulher divorciou-se dele, queixando-se de que o médico só tinha tempo para os seus doentes.

Quando o ébola apareceu agora, Khan converteu os bangalós da clínica num centro de tratamento do ébola, construindo com uma lona uma nova ala externa com 50 camas em três filas. Sem haver qualquer tratamento específico comprovado para esta doença, tudo o que os médicos fazem é tentar hidratar os doentes e mantê-los livres de outras infecções enquanto o ébola é combatido pelo sistema imunitário.

Apesar de temer pela sua vida, o médico recusou-se a abandonar a clínica que tinha falta de pessoal e em que até os enfermeiros começaram a adoecer. “Se me vou embora, quem é que virá para me substituir?”, perguntou Khan a James Russel, um amigo da faculdade de medicina.

Os surtos de ébola na África Central costumam durar seis a oito semanas. Por isso, quando as novas infecções começaram a diminuir no início deste novo surto, muitos assumiram que o pior já tinha passado.

Mas o fenómeno acabou por ser só um período de aparente calma causado pelos familiares de pessoas infectadas, que esconderam os doentes por julgarem que os hospitais eram ratoeiras mortais.

Uma das maiores dificuldades de Khan foi a resistência por parte das populações locais, que estavam aterrorizadas com os médicos com fatos brancos e máscaras. Uma multidão enraivecida chegou a atacar a clínica de Kenema pelos rumores de haver ali canibalismo. Na altura, muitos doentes fugiram, espalhando ainda mais a infecção. “O maior problema é fazer com que as pessoas aceitem a doença”, disse em Junho Khan, frustrado, à Reuters.

A primeira pessoa a ser infectada na Serra Leoa foi uma curandeira de uma tribo. Ela dizia ter o poder de tratar o ébola e atraiu pessoas doentes vindas da Guiné-Conacri. Muitas mulheres de aldeias vizinhas ficaram depois infectadas no funeral desta curandeira.

Com o pessoal já reduzido, a clínica ainda ficou mais afectada com a demissão de funcionários e uma greve depois de três enfermeiros terem morrido pela infecção do ébola.

O médico, que continuou a trabalhar, testava exaustivamente o seu equipamento de protecção antes de entrar na ala com doentes de ébola, usando um espelho, a que chamava o seu “polícia”, para verificar se estava tudo bem com o fato. “Tenho medo porque, tenho de o dizer, aprecio a minha vida”, disse.

Daniel Bausch, enviado pela OMS para Kenema em Julho para ajudar a formar pessoal, contou que o médico parecia esgotado. Aliás, foi Bausch quem tinha contratado Khan para trabalhar na clínica de Kenema em 2004 e logo na altura ficou tão preocupado com a falta de pessoal na clínica que até se questionou se não seria melhor fechá-la.

“Uma coisa é um médico estrangeiro que vem cá durante três semanas. Mas quando se é um Dr. Khan, responsável pela clínica, o trabalho nunca acaba”, disse Daniel Bausch. “Qualquer um ficaria infectado.”

A morte de Khan lançou ondas de choque pela pequena comunidade médica da Serra Leoa, um país que tem menos de 150 médicos. A Serra Leoa tem uma das menores proporções de médicos, com apenas um médico por 45.000 habitantes, de acordo com a OMS, comparado com um médico por cada 410 pessoas nos Estados Unidos. Outros médicos têm morrido no país e o pessoal da clínica de Kenema foi dizimado.

“Quando este pesadelo acabar, quem é que nestes países vai querer tratar doentes com febres hemorrágicas?”, questionou Daniel Bausch. “Se antes era difícil ter profissionais de saúde para o fazer, agora ainda será mais difícil.”

Com PÚBLICO