Opinião

Miguel Torga, o abafador e a eutanásia

Quem são os verdadeiros abafadores?...

Volta e meia, os adversários da morte assistida instrumentalizam o conto “O Alma-Grande” (logo no início de Novos Contos da Montanha) para reduzirem a eutanásia a uma terminação brutal da vida que se dá a quem está supostamente para morrer mas ainda quer viver. Por outras palavras, reduzem a eutanásia a um assassinato. Mas é de facto de um mero assassinato que fala o conto, para já não falar do acto demagógico que é assimilar a eutanásia a um assassinato? Já em tempos, deixei aqui a resposta perplexa do médico belga à jornalista que lhe perguntava quantos doentes já matara: “Eu não mato, eutanasio” (PÚBLICO, 22.04.2014).

Logo na primeira frase do conto, sobre o local onde a história se desenrola, aparece-nos um contexto decisivo: “Riba Dal é terra de judeus”.

Em seguida, afirma-se que o Padre local “benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas”. Os judeus inquiridos respondem, como é expectável, de acordo com a fé católica, de tal modo que “não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”, ou seja, os cinco primeiros livros do que os cristãos chamam Antigo Testamento, apelidados também, pelos judeus, de Thora, no seu sentido menos amplo.

Quando intervém o abafador? A mesma primeira página é bem explícita: “E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo – abafador”.

Estando Isaac com um tal “febrão” que as esperanças estavam perdidas, uma tal D. Rosa lembra o dever da “confissãozinha”. E é então que o um irmão de Isaac lembra à cunhada a necessidade de chamar o abafador. Podemos portanto supor que este tipo de homem tinha a função de proteger as comunidades de judeus que só para sobreviverem pareciam seguir as práticas cristãs, mas que no segredo das suas vidas continuavam fiéis ao judaísmo. Na hora da morte, diante do padre católico, podia ser que o moribundo deixasse escapar a verdade, pondo em perigo, eventualmente de morte, toda a comunidade. Logo, era preciso actuar de modo a que esse diálogo final não acontecesse. De acordo com o conto, haveria sempre quem protestasse diante desta prática, mas, na hora da verdade, a ameaça dos perigos que para uma comunidade traria o facto de a saberem judia e não católica sobrepunha-se ao grande mandamento “não matarás”. Daquela vez, o abafador não cumpre a função para que fora chamado: o filho pequeno de Isaac entra no quarto nos momentos finais, indo para junto do pai, pondo-lhe a mão na testa a escaldar, e o Alma-Grande não tem coragem para agir diante de um terceiro e vai-se embora. Talvez pelo gesto de ternura do filho, Isaac vai recuperando, sem haver lugar à necessidade de qualquer confissão. De acordo com o conto, sendo Isaac mais forte do que o abafador, um dia vingou-se, matando-o.

Como o material até agora por mim encontrado sobre este fenómeno foi muito escasso e academicamente pouco “depurado”, contactei há bastante tempo a filha única de Miguel Torga, Professora Doutora Clara Rocha, que me autorizou a usar as suas informações.

Na sua perspectiva, o conto de facto não tem nada que ver com eutanásia, algo em que a mãe insistia nas conversas de casa. Aliás, a filha tão-pouco deixou que o conto fosse incluído numa antologia de contos de terror, pois esse não se enquadraria nos propósitos do pai. Depois de alguma investigação, na troca de correspondência havida avancei a hipótese de que esse "abafamento" não seria considerado estranho em certas comunidades judaicas de "cristãos-novos", de modo a que o moribundo, à hora da morte, não pudesse denunciar ao padre ou ao médico, por um procedimento ou outro, que afinal a "conversão" fora fictícia, pondo assim em causa também a família ou a comunidade "convertida". Em resposta, disse-me que a minha interpretação estava correcta. Não conseguindo na altura indicar-me fontes onde pudesse esclarecer-me melhor, afirmou-me: “o que lhe posso dizer é que muitas vezes ouvi os meus pais falar sobre essa prática de comunidades judaicas”.

Neste contexto, pergunto: quem são os verdadeiros abafadores? Os que defendem uma séria despenalização da morte assistida, ou os que insistem em continuar a abafar a liberdade de consciência e uma última liberdade diante da morte?

Docente Aposentada da UMinho ([email protected])

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