Angola – a frente esquecida

Sem que Portugal e a Alemanha estivessem em guerra, em Dezembro de 1914, Naulila, no Sul de Angola, é palco de uma traumática derrota do exército português. Na maior colónia africana, boa parte do esforço militar foi dedicado a restaurar o domínio sobre africanos revoltados

O primeiro contacto do pelotão do alferes Manuel Sereno com a pequena força germânica que tinha entrado em Angola não terá sido amigável. Mas portugueses e alemães acabam por pernoitar lado a lado e terão mesmo jantado juntos. Apesar da desconfiança mútua, não se adivinha um cenário de confronto. É no dia seguinte, 19 de Outubro de 1914, que ocorre o incidente que, dois meses depois, culminará num dos mais marcantes combates do exército português em território africano: o desastre de Naulila.

Quando é interceptado pelo pelotão português, a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila, o grupo chefiado por Schultze-Jena, administrador do distrito de Outjo, responde ao alferes que estava em perseguição de um desertor e queria autorização do administrador de Humbe para se deslocar a Lubango – escreveu em Naulila, livro editado em 1922, Augusto Casimiro, escritor e militar português, participante na guerra, na Flandres, mais tarde opositor do Estado Novo.

Manuel Sereno, que dias antes tinha apreendido carros de víveres destinados ao Sudoeste Africano alemão, a Damaralândia, território da actual Namíbia, escreverá que tinha ordens “para prender e desarmar” os alemães, levando-os ao capitão-mor de Cuamato, António Fernandes Varão. Tratava-se de cumprir o previsto pela declaração de estado de sítio em vigor nos distritos do Sul de Angola, que previa o desarmamento de tropas alemãs que entrassem no território.

Para os portugueses, o grupo alemão, umas duas dezenas de homens, com o qual tinha já sido estabelecido contacto por uma primeira patrulha, era apenas um contingente estrangeiro que está ilegalmente em território angolano. As violações fronteiriças alemãs não são inéditas. Os portugueses temem há muito a cobiça alemã – e britânica – sobre os seus territórios coloniais. O ataque germânico de Agosto a Maziúa, no Norte de Moçambique, mais não faz do que aumentar o mal-estar. Os alemães têm agora liberdade de movimentos condicionada em Angola.

Um relatório alemão afirmará que o grupo liderado por Schultze-Jena era uma “missão” mandatada para estabelecer contacto com indígenas, estreitar relações com os portugueses e apurar o destino de comboios de víveres que aguardavam. Os alemães duvidam da neutralidade portuguesa e estão com problemas nas comunicações com Berlim que, até ao início da guerra, eram asseguradas pelo cabo submarino britânico.

Na conversa da tarde de dia 18, o alferes português, comandante de um pelotão estacionado em Otoquero, e Schultze-Jena concordam que uma pequena delegação alemã acompanhe no dia seguinte os portugueses até ao capitão-mor de Cuamato para que a sua presença seja esclarecida. E porque seria a ele a autorizar uma eventual ida a Lubango. O dia acaba com os portugueses a jantarem no acampamento germânico. À refeição, segundo o relato de Augusto Casimiro, fala-se, tanto quanto a barreira linguística o permite, da linha de fronteira que continua a ser discutida e das novidades de Lisboa. O administrador de distrito alemão tem um exemplar do jornal O Século que noticia o envio de expedições para Angola.

Não é segredo o reforço das forças portuguesas em Angola. Um consenso alargado sobre a necessidade de defender as colónias tinha levado, logo após a eclosão do conflito na Europa, ao envio, em Setembro, de forças expedicionárias para Angola e Moçambique. Para Angola partiu um contingente de mais de 1500 homens comandado por Alves Roçadas, tenente-coronel que se distinguira em Angola na campanha do Cuamato, na primeira década do século, e regressa agora com a missão de guarnecer o Sul, que faz fronteira com a colónia alemã. É também incumbido de evitar levantamentos indígenas.

 Em Novembro serão enviados mais 2800 homens para Angola e em Dezembro outros 4300. Nos anos seguintes, o efectivo continuará a ser reforçado. No início da guerra, a prioridade militar portuguesa é, claramente, África.

O incidente

Na manhã de 19 de Outubro, como combinado, Schultze-Jena, os tenentes Loesch e Roder, o seu intérprete dinamarquês, Jensen, e três africanos da colónia alemã seguem com os portugueses para Naulila. E aí que tudo se precipita. Segundo a versão fixada por uma sentença arbitral do tribunal internacional de Lausanne, em Julho de 1928, ao chegar ao posto, o chefe do grupo alemão estranha a ausência do capitão-mor, Varão. Sereno procura explicar-lhe que o capitão está em Cuamato e que é lá que terá de se encontrar com ele. O intérprete diz-lhe que Sereno está a agir de acordo com instruções que recebeu. Schultze-Jena duvida. Insiste em voltar ao seu acampamento – teria compreendido na véspera que a situação seria esclarecida em Naulila e que não passariam dali. Trocam-se palavras e ameaças e o incidente acaba com a morte dos três alemães.

Em Portugal 1914-1926: From the First World War to Military Dictatorship, o historiador Filipe Ribeiro de Meneses escreveu que “os alemães entenderam que foi uma armadilha portuguesa”, e que para os portugueses o incidente foi provocado por um “mal-entendido linguístico acompanhado pela recusa alemã de desarmar”. Para o também investigador António José Telo, na versão portuguesa a morte dos alemães “foi para contrariar uma tentativa de fuga; a versão alemã é que se tratou de um assassinato friamente planeado”, escreveu, no livro Primeira República I – Do Sonho à Realidade.

Um relatório sobre os acontecimentos de 19 de Outubro, encomendado pelo então governador-geral de Angola, Norton de Matos, arderá dois meses depois, no ataque alemão ao posto de Naulila. O tribunal concluiu que, com os alemães já montados, Schultze-Jena apontou a carabina a Sereno, desarmado, e Loesch sacou da pistola. E que nessa altura o alferes português deu ordem de fogo aos seus homens. “É evidente que, interpretando como ameaça o gesto de Schultze-Jena e o do tenente Roeder, Sereno, desarmado, acreditou agir em legítima defesa”, de acordo com a sentença de 1928.

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Homenagem aos soldados mortos nas campanhas de África José Chaves Cruz/Arquivo Municipal de Lisboa

O tribunal de Lausanne concluiu que o incidente de Naulila foi causado por mal-entendidos provocados pelas más traduções de Jensen e pelo gesto de Schultze-Jena. Embora dê razão a Portugal não acolhe os seus argumentos de que a missão alemã tinha propósitos de espionagem e de preparação de uma invasão. Em 1930 será fixado um montante a pagar pela Alemanha pelas suas acções directas e indirectas nas colónias africanas, mas em 1933 o governo de Berlim é desobrigado do pagamento da indemnização.

Ataque a Cuangar

O incidente de 19 de Outubro dá origem a retaliações que culminarão com o ataque de 18 Dezembro. O primeiro sinal de que os alemães desejam vingar a morte de Schultze-Jena e dos dois tenentes chega dias depois. A 31 de Outubro, uma força germânica ataca a guarnição do posto de Cuangar. São mortos dois oficiais portugueses, um sargento, cinco soldados e um comerciante. A restante guarnição foge para o mato, segundo Luís Alves Fraga no livro Portugal e a Grande Guerra - 1914-1918, coordenado por Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes.

Nas sessões secretas que a Câmara dos Deputados dedicará à participação portuguesa na guerra, em 1917, o deputado Brito Camacho, republicano de direita, fundador do Partido Unionista, adepto apenas de um envolvimento na guerra nas colónias, dirá que a “chacina” de Cuangar foi motivada por “não ter o respectivo comandante recebido notícia do incidente de Naulila, e ter confiado numa informação de Portugal, expedida directamente de Lisboa, dizendo-lhe que estávamos em estado de neutralidade”. Na mesma região, ao longo do Rio Cubango, os alemães expulsam os portugueses dos postos de Bunja, Sambio, Dirico e Mucusso. A presença colonial de Portugal torna-se ainda mais rara numa Angola de colonização tardia e pouco expressiva.

As retaliações alemãs levam Roçadas – cujas forças tinham desembarcado em Moçâmedes a 27 de Setembro e 1 de Outubro – a ajustar a missão inicial, que consistia em proteger a fronteira e assegurar a obediência indígena. O comandante da força expedicionária passa a privilegiar a defesa de postos fronteiriços. A tropa metropolitana, mal preparada, faz centenas de quilómetros em direcção à fronteira Sul, atravessando terrenos inóspitos, sofrendo os efeitos do calor húmido e da sede.

Em Novembro, a 19 ou 23, consoante as fontes, há notícia da entrada em território angolano de uma numerosa e bem armada força alemã. Na incerteza sobre o objectivo dos invasores, Naulila ou o posto de Dongoena, Roçadas divide os seus efectivos. Para a defesa de Naulila confia ao capitão Mendes dos Reis três companhias de infantaria que somam cerca de 550 homens, uma bateria de metralhadoras, uma de artilharia com três peças e um esquadrão de dragões – soldados de cavalaria preparados também para combater a pé – chefiado pelo tenente Francisco Aragão. Louvado à época pelo desempenho militar em Naulila, Aragão será, por declarações políticas feitas à chegada a Portugal, após o cativeiro alemão, pretexto para um texto de Fernando Pessoa: Carta a um herói estúpido

Ainda que admitisse que Naulila fosse um objectivo alemão, por vingança do incidente de Outubro, o comandante português pensaria que a intenção da força invasora seria progredir para Norte. “Parece claro que Roçadas sobrestimou a ameaça alemã e que não acreditou que as fortificações fronteiriças fossem o seu objectivo final”, escreveu Ribeiro de Meneses.

Escaramuças

A 12 e 13 de Dezembro há escaramuças e alguns feridos entre a guarda avançada alemã e patrulhas portuguesas. É aprisionado um soldado alemão pelos dragões de Aragão. Vasconcelos e Sá, militar, médico e político, que integrava a expedição de Roçadas, afirmará na Câmara dos Deputados, nas sessões secretas de 1917, que o militar capturado declarou que o objectivo da força invasora seria arrasar Naulila e tomar depois Humbe. “Deixámo-los em paz, refazerem-se e concentrarem-se adentro do que é nosso, sem nos dias 13 a 18 de Dezembro os atacarmos, nós, com energia. Pensara-se talvez ainda na nossa neutralidade…”, lamentou o parlamentar, então membro do Partido Evolucionista. Augusto Casimiro escreveu que os portugueses poderiam então ter derrotado as forças alemãs, beneficiando do efeito surpresa, mas que o comando ficou paralisado pela indefinição política. “Os alemães sorriram, em território nosso, da nossa inexplicável inércia.”

No seu relatório, Alves Roçadas explica a atitude dos militares portugueses com as últimas instruções recebidas por telegrama, de Lisboa, com data de 25 de Novembro, nas quase era sublinhado que Portugal não estava em guerra com a Alemanha: “É necessário todos, oficiais e praças saibam, não estamos em guerra com Alemanha, e tomar medidas nossas patrulhas não entrem sequer zona neutra”.

A 17 de Dezembro, o grosso da coluna germânica instala-se na margem esquerda do Cunene. Tem um número semelhante ao efectivo português colocado em Naulila. São duas companhias de infantaria montada, seis peças de artilharia, duas metralhadoras pesadas, equipamentos de telégrafo e uma ambulância – um total de 450 soldados europeus, 150 auxiliares africanos, quatro dezenas de oficiais. Os alemães contariam a seu favor com outros trunfos: eram comandados por um conhecedor da região, o major Franck, que tinha a seu lado um líder dos indígenas cuamato, que lhe garantiu passagem segura por zonas potencialmente hostis, abastecimentos, e que contribuiria para a deserção de auxiliares africanos das forças portuguesas.

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Visita de Alves Roçadas, oficial do Exército Português a Humpata, Angola, 1914 Fundo José Passaporte /Centro Português de Fotografia/DGLAB/SEC -

Erguido num terreno argiloso, em Maio de 2012, para substituir o forte Henrique Paiva Couceiro, que os alemães alegavam estar em território seu, a um quilómetro do Cunene, na sua margem esquerda, o posto de Naulila ficava num lugar ligeiramente sobranceiro ao rio. À volta, terreno quase plano, povoado de mato espesso. Foi concebido para afirmar a presença portuguesa.

Na véspera do ataque alemão a Naulila, o comando português chega a estudar uma acção ofensiva contra o acampamento de Franck. Mas os desenvolvimentos da noite seguinte precipitam o rumo dos acontecimentos. Depois de se aproximar durante a noite de Naulila, por volta das 5h de dia 18, a força alemã inicia o ataque.

“Alemães em toda a parte”

O tenente António Marques, cujo pelotão estava no interior do posto, contou que à hora da distribuição do café ouviu “tiros de alarme” de efectivos colocados no exterior. Disse também, ao diário republicano da noite “A Capital”, a 24 de Agosto seguinte, que rapidamente a primeira linha de defesa retirou para o quartel, deixando livre um flanco onde foram colocadas peças de artilharia alemã. E que as “granadas começaram logo a cair sobre as palhotas” do interior de Naulila, onde o paiol acabou por ser atingido.

Os momentos que se seguiram ao primeiro tiro foram, naturalmente, sentidos de modo diferente do outro lado. “Imediatamente caiu sobre nós um chuveiro de balas”, escreverá, citado por Casimiro, Rittmeister Richard Hennig no volume Deutsch-Südwest im Weltkrieg, edição de 1920. “O fogo inimigo teria causado enormes baixas no espesso novelo de homens e animais, se os exaltados meridionais não tivessem as pontarias demasiado altas”, acrescentou.

As metralhadoras portuguesas encravam com frequência, a pontaria dos atiradores deixa a desejar. Os alemães reagrupam-se e retomam a iniciativa. Sob fogo intenso de parte a parte, desfazem-se e reconstituem-se linhas defensivas. Há recuos e tentativas de avanço. As forças portuguesas dividem-se, algumas ficam no local, outras fogem do campo de batalha. Roçadas comanda um grupo que se dirige ao campo de batalha mas não conseguem alcançar Naulila. Chega a fazer o que Casimiro qualifica como uma “nova avançada, audaciosa, desordenada e inútil”. A determinada altura o tiroteio é interrompido por minutos, continuando depois com intensidade. Os portugueses esperarão reforços de um destacamento comandado pelo major Alberto Salgado, que não chegam, permanecendo na posição que lhe fora ordenado ocupar, Caloeque, a aguardar ordens, apesar do som da batalha, a uns 12 quilómetros.

Augusto Casimiro traça um quadro de grande desorientação das forças portuguesas. “Não há direcção, não há comando, embora a grande maioria das forças empenhadas se batam, durante quatro horas, com energia, tenacidade e valor. Há comandos vários, esforços dispersos, que nunca chegam a termo”.

Num jornal de Windhoek, o Sudwest, a 12 de Janeiro de 1915, um texto assinado por Vageler – membro de uma missão alemã que, antes dos confrontos de 1914, fora autorizada a fazer estudos científicos no sul de Angola – fala da última tentativa portuguesa para fazer face à tomada de Naulila. “Pouco mais ou menos duzentos metros diante do forte fez o inimigo a última e enérgica resistência”, escreveu.

Ribeiro de Meneses considera que independentemente da “ausência de instruções claras sobre como lidar com os alemães”, os comandantes no terreno ficaram “fortemente amarrados às suas posições” e que “nenhuma consideração política os absolve do fracasso na preparação para a batalha”, escreveu. “Um exército português habituado a combater indígenas em Angola, Moçambique e Guiné vê-se subitamente confrontado com uma força com liderança e equipamento europeu”, disse ao PÚBLICO.

O historiador francês René Pélisser, na obra As Campanhas Coloniais de Portugal 1844-1941, diz que Roçadas deu ordem aos sobreviventes para evacuarem Naulila, mas que em vez de uma retirada se deu uma debandada de dezenas de quilómetros. António José Telo descreve o sucedido após a derrota de Naulila como um “desastroso recuo geral do dispositivo militar na fronteira sul”. Para trás, um combate intenso e sangrento de quatro horas, que custa a vida a 69 portugueses, causa ferimentos em 76, obriga 36 a sete meses de cativeiro e deixa o Sul de Angola em alvoroço. Do lado alemão os mortos serão 12 ou 19, consoante as fontes, e os feridos cerca de três dezenas.

Perdida Naulila, as forças portuguesas da região retiram para Dongoena. O paiol do Forte Roçadas explode acidentalmente. Convicto de que o avanço alemão continuará, Roçadas tem agora o objectivo de fixar uma linha de resistência na área Cahamas-Gambos. Mas os atacantes não irão mais longe. Fosse porque consideravam vingado o episódio de Outubro, fosse porque o combate também os debilitou – uma das baixas que sofrem é a do seu comandante Franck, que morre de ferimentos em combate. Regressam a território alemão e não haverá novos combates até porque, em Julho de 1915, a Damaralândia se rende a forças da União Sul-Africana, o que põe também indirectamente fim à ameaça alemã a Angola.

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Visita de Alves Roçadas a Humpata, Angola, 1914 Fundo José Passaporte/ Centro Português de Fotografia/DGLAB/SEC,

Portugal e Alemanha não estavam, e continuariam a não estar, em guerra declarada. “Na maioria dos casos, Naulila levaria a um estado de guerra mas o que acontece é que a batalha coincide com um conflito político em Portugal que resulta no Governo do general Pimenta de Castro e ele é contra a guerra”, afirma Filipe de Meneses. “Não há espaço político para uma declaração de guerra e os dois países chegam a acordo para não levar a questão mais longe.”

Nas sessões secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República, Vasconcelos e Sá, defenderá que os “desastres tremendos” sofridos em África, como os de Naulila, “foram devidos principalmente à má organização das expedições e às ordens da metrópole”. O parlamentar afirma então que os desastres seriam previsíveis face ao que considera uma “política híbrida” e “inércia receosa”.

Norton de Matos, que na altura das sessões secretas, em Julho e Agosto de 1917, ocupa o cargo de ministro da Guerra, contraria nessa altura a ideia de que foi a falta de instruções que levou à derrota de Naulila. Fala nas “contradições das informações de Roçadas” que, em seu entender, “perdeu a serenidade e caiu em completa desorientação”. “Viam-se alemães em toda a parte”, afirmou, atribuindo a informação ao tenente-coronel comandante das forças portuguesas no Sul de Angola. “Segundo ele [Roçadas], os nossos soldados teriam fugido como carneiros”, disse aos deputados, num debate muito marcado também pelo posicionamento político dos intervenientes.

Submeter populações

No Senado, Norton de Matos afirmará que o combate de Naulila “não foi um desastre completo porque se o fosse o exército inimigo invadiria todo o nosso território”. Mas a derrota tem consequências sérias: ateia o rastilho de sublevações indígenas que tornam a actuação militar portuguesa numa nova campanha de submissão das populações e na reactivação dos postos abandonados.

As incursões alemãs tinham estimulado a revolta dos povos locais, cuja “pacificação” fora conseguida pouco antes da Grande Guerra. O período que se segue à batalha de Naulila, e boa parte do esforço militar português vai ser dirigido para a restauração da autoridade portuguesa – missão atribuída ao forte contingente militar chefiado pelo general Pereira d’Eça, que chega a Angola em Março de 1915. Há revoltas no Sul mas também, nos anos seguintes, até 1918, noutras regiões. É mais do mesmo: Pélissier, que estudou as campanhas militares portuguesas no Sul de Angola no final do século XIX e início de XX, contabilizou pelo menos 45 expedições e operações diversas entre 1881 e 1916 que, somadas, se prolongaram por 30 meses. Marcos importantes dessas campanhas no pós-conflito luso-alemão serão a recuperação de Humbe e os combates de Môngua, em Agosto de 1915.

“O recuo português, juntamente com as armas distribuídas pelos alemães, dá origem a um renascer da revolta das populações na zona do Humbe. A campanha militar portuguesa continua em Angola até ao fim da guerra, mas desde meados de 1915 visa somente submeter de novo as populações e recuperar a linha dos postos abandonados”, afirma Telo.

No livro“Impérios em Guerra, Filipe de Meneses lembra que, para a reocupação dos territórios do Sul de Angola, Pereira d’ Eça recorreu a mais de 7500 soldados, que levaram a cabo uma campanha “extremamente brutal”. Passada a batalha de Naulila, Portugal em Angola “vai estar a combater não contra os alemães mas contra a população local”, afirma. As baixas oficiais portuguesas em Angola totalizarão durante a I Guerra 810 mortos, 683 feridos, 200 desaparecidos, 372 incapazes, 68 prisioneiros (números de “Portugal e a Grande Guerra 1914-18).

Nas sessões secretas de 1917, o deputado João Tamagnini Barbosa, que viria a chefiar o Governo após o assassínio de Sidónio Pais, referiu-se às “barbaridades e selvajarias que, por aí dizem à boca cheia, terem sido praticadas em Angola pelas nossas tropas” e propôs um inquérito que foi rejeitado. Tomás Rosa, deputado da maioria que apoia o governo da altura desses debates, liderado por Afonso Costa, lê testemunhos perturbantes que denunciam enforcamentos, morte de mulheres grávidas e de crianças, muitos enterrados ainda vivos.

 Do ponto de vista global a derrota de Naulila é um episódio menor no contexto da Grande Guerra. É a nível local que os seus efeitos mais se fazem sentir, com as revoltas subsequentes e a sua repressão. Mas a luta na frente angolana tem também, no entender de Ribeiro de Meneses, um efeito traumático para militares portugueses. “Mandam-nos mal preparados e culpam-nos pelo que se segue – Naulila está para a república como Goa esteve para o Estado Novo”, disse ao PÚBLICO.

Depois do que acontece em Angola, quando vão para França, muitos militares portugueses partem já “com grandes dúvidas sobre a capacidade que têm, sabendo que serão sempre responsabilizados pelo que aconteça”, afirma o historiador. “Grande parte do exército não acredita que Portugal possa contribuir para a vitória pelo número diminuto” do seu efectivo no quadro europeu e tem dúvidas também devido à “demonstração de fragilidade” evidenciada pelo desastre de Naulila.

 
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