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Megafone

Não olhamos para o outro lado, eu muitas vezes não olho

Não escolhemos a nossa cara, os nossos pais, o local onde nascemos, a religião da nossa família, a cultura onde estamos submersos. Tudo isso afeta as nossas decisões. Decisões? Quais decisões se tudo é determinista?

É mais fácil julgar e decidir o porquê logo, proteger-nos, temos as bases e decidimos os porquês, é rápido, não há nada de novo, nada muda.

Tudo o que muda é desconfortável, é perigoso e podemos não nos encaixar. É a falta de auto-confiança. Não sei se nascemos com isso, se é determinista ao ponto de ser algo genético ou se é algo provocado pelas vivências ou até um misto dos dois. Mas se pensarmos… É determinista. O que é que não o é? Não escolhemos a nossa cara, os nossos pais, o local onde nascemos, a religião da nossa família, a cultura na qual estamos submersos. Tudo isso afecta as nossas decisões. Decisões? Quais decisões se tudo é determinista?

É perigoso não é? É perigoso porque... onde está o livre arbítrio, então? Onde está a tomada de decisão? Em que situações não somos influenciados pela nossa genética e por aquilo que conhecemos? Escolhemos o que conhecemos?

— “Sim, escolhi viajar, escolhi conhecer o mundo, escolhi conhecer novas pessoas, escolhi mudar.”

— “Escolheste? O facto de querer descobrir mais é uma decisão independente? Ou será que está enraizado na cultura onde nasceste, será que os teus pais te incentivaram a viajar? Será que o facto de teres olhos azuis te colocou num grupo de amigos de alta, os quais te incentivaram a ir? Será que se tivesses nascido do outro lado, com olhos castanhos, quererias viajar? Há sítios onde viajar não é normal, há pessoas que não podem, não querem, não vão. Será que elas escolheram não querer? Ou será que as coisas as levaram a não quererem?”.

É engraçado pensar assim, mas não se pode. Tudo e todos eram desculpáveis. Somos feitos de atrito, não podemos desculpar tudo. Não podemos aceitar que o João não se deu bem na escola porque não estava incutido na cabeça dele estudar, porque nunca conheceu um homem que jogava xadrez e lia livros no café do bairro. Que falava com ele de vez em quando e até lhe tinha dado aquele empurrão, teria oferecido um clique no meio de toda aquela ignorância que o rodeava, teria oferecido um caminho e hoje o João era médico.

“— Não, foi culpa do João, ele é que não quis estudar.”

“— Sim, o Zé também vivia no mesmo sítio e é médico.”

Talvez o Zé fosse mais ao café, tivesse mais fome — era da fisionomia dele, tinha sempre mais fome que o João. Nasceu assim, é genético, não se escolhe ter mais fome. E talvez tenha encontrado alguém que jogasse xadrez e lesse muitos livros, alguém que lhe fosse dando uma palavrinha, que mostrasse outra coisa. Foi a fome.

Mas pronto, não vamos entrar em caminhos perigosos, não se deve.

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