Clima ameno, poucos fogos. Mas vamos ficar por aqui?

Este ano está a ser atípico em termos de meteorologia, o que se tem reflectido em muito menos fogos e área ardida do que a média da última década. Mas o final do Verão e o Outono ainda podem trazer surpresas.

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No relógio anual dos incêndios florestais em Portugal, o ponteiro aponta sobretudo para as oito horas – ou seja, Agosto. De toda a área ardida entre 2001 e 2014, cerca de metade (49%) registou-se nesse mês, segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Este ano, poderá ser diferente – a não ser que o calor ainda troque as voltas aos bombeiros.

De 1 de Janeiro a 15 de Agosto, as chamas consumiram apenas 8645 hectares de mato e floresta, de acordo com o ICNF. Contando com os grandes incêndios desde então identificados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Fogos Florestais, a soma chega a 9211 hectares até 21 de Agosto. Com os fogos menores, que não são vistos pelos satélites, o total não deverá estar longe dos dez mil hectares.

É pouco, se comparado com os 42 mil hectares do ano passado, até 15 de Agosto. Ou com os 72 mil de 2012, os 102 mil de 2010, os 197 mil de 2005 ou os 372 mil do terrível ano de 2003. Há quem atribua os resultados positivos desta época de incêndios ao reforço dos meios de combate, mas ninguém se arrisca a dizer que a causa determinante não é a meteorologia.

Desde 2003, o contingente de pessoas envolvidas no combate aos fogos triplicou, o número de viaturas aumentou duas vezes e meia e os meios aéreos subiram de 36 para 49. O reforço dos meios é evidente. “Temos uma intervenção mais musculada, não deixamos respirar o fogo”, afirma Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Ironicamente, em Julho, Marta Soares previa que, apesar de haver mais músculo no combate, a época de incêndios poderia ser “muito difícil”, devido às falhas na prevenção. Um Verão quente e seco representaria uma perspectiva “assustadora”. Mas o pior cenário até agora não se concretizou.

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Julho foi um mês frio. A temperatura média esteve 0,63oC abaixo do que é considerado normal para o mês. Choveu muito mais do que a média – foi o oitavo Julho mais chuvoso desde 1931 e o primeiro da lista desde 2001.

As três primeiras semanas de Agosto, pelo menos nos termómetros, foram pelo mesmo caminho. As temperaturas máximas até dia 20 estavam muito abaixo do normal – com um desvio de até 1,7 oC em Montalegre, 1,6 oC em Lisboa e 1,2 oC em Santarém. E as noites também foram frias, circunstância que ajuda a travar os fogos. Na Guarda, a média das temperaturas mínimas estava 2,8 abaixo do normal.

Com o calor agora a regressar, é cedo para se fazer prognósticos. “A procissão ainda vai no adro”, diz Jaime Marta Soares.

De acordo com um modelo desenvolvido pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), se 2014 tivesse um Verão moderado, a área ardida poderia andar entre os 79 mil e os 144 mil hectares. “Este ano estamos num extremo, bastante abaixo do cenário moderado”, afirma o investigador Paulo Fernandes, do Departamento de Ciências Florestais e Arquitectura Paisagista da UTAD. “Temos a combinação de um Inverno comprido com um Verão chuvoso. E essa chuva tardia combinada com a ausência de ondas de calor pode justificar o menor número de ocorrências”, completa.

Ondas de calor são como gasolina para os fogos. Em 2003, quando arderam 425 mil hectares de floresta, parte do país esteve 17 dias com temperaturas extremas, acima dos 40 oC. No ano passado, houve quatro ondas de calor entre Julho e Agosto. Arderam 141 mil hectares.

“Os grandes fogos são condicionados essencialmente pela meteorologia”, corrobora o climatologista Carlos da Câmara, da Universidade de Lisboa, que também desenvolveu um modelo de previsão estatística da área ardida nos incêndios florestais. “O modelo dá condições baixas para este ano”, afirma.

Não há razão, no entanto, para cruzar os braços. A Autoridade Nacional de Protecção Civil lançou na sexta-feira um alerta para o agravamento do risco de incêndio pelo menos até terça-feira.

Além disso, a situação pode piorar. Setembro é ainda um mês de fogos. Em 2012, arderam 35 mil hectares, depois de um Agosto calmo. Outubro também pode trazer surpresas. Em 2011, foi o mês com maior área ardida – 28 mil hectares.

Nos anos com verões brandos, os fogos de Outono e de Inverno – que parecem um contra-senso – são mais salientes nas estatísticas. Em 2007, houve nove mil hectares queimados em Novembro, quando na maior parte dos anos os fogos são raríssimos nessa altura. E em 2012, só em Fevereiro e Março arderam 34 mil hectares.

A razão para estes incêndios extemporâneos está nas queimadas para renovação de pastos. Entre Janeiro e Abril e de Outubro a Novembro, as queimadas são a principal causa dos incêndios (63% a 81%), segundo Paulo Fernandes, da UTAD.

Desde 2001, a época de fogos menos dramática foi a de 2008, com cerca de 18 mil hectares ardidos. O ano de 2007 fica em segundo, com 33 mil hectares. “Eu diria que este ano de 2014 é ainda mais atípico do que 2007 e 2008”, afirma Paulo Fernandes.

Mas até ao lavar dos cestos é vindima. “Ainda há muito combustível que não ardeu durante o Verão”, alerta Domingos Xavier Viegas, professor da Universidade de Coimbra e coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais. “Ainda é cedo para se fazer um balanço”.