Pedro Costa leva a Locarno o testamento do sr. Ventura

Cavalo Dinheiro é uma fantasmagoria opaca e sumptuosa que tem deixado a imprensa internacional perplexa, entre a rendição e a confusão

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Desde Juventude em Marcha (2006), a última das três “longas das Fontainhas”, que Pedro Costa fez da figura espectral e inteira do emigrante caboverdiano Ventura a trave-mestra das suas ficções. Cavalo Dinheiro, que teve esta quarta-feira estreia mundial a concurso no festival de Locarno, não foge a essa regra mas faz explodir uma outra dimensão, mais onírica e surreal, que não tem primado pela presença no cinema do realizador português.

Ventura, envelhecido, doente, é aqui uma espécie de Orfeu em descida aos infernos em busca da sua Eurídice (Zulmira, a esposa que nunca encontra); os infernos são as catacumbas de um hospital, as ruínas de uma fábrica, um elevador avariado, as barracas onde viveu toda a vida. E Pedro Costa é o poeta altivo que acompanha Ventura e conduz o espectador por uma viagem sem regresso no comboio fantasma de um Portugal assombrado pela guerra colonial, pela revolução, pela descolonização.

Sejam bem-vindos a Cavalo Dinheiro. Uma fantasmagoria que deixou perplexos aqueles que esperavam do novo filme a arte povera da trilogia das Fontaínhas; à saída da sessão de imprensa, havia muito quem expressasse “mixed feelings”, quem se perguntasse se tudo isto não era demasiado específico do passado português para ser apreendido por um público estrangeiro. Talvez sim, mas Costa nunca foi um cineasta linear e Cavalo Dinheiro é melhor visto como uma alucinação pictorial e narcótica, confimando o realizador como um dos mais extraordinários criadores de imagens do cinema moderno.

É, aliás, aí que os observadores são unânimes: é um filme formalmente glorioso, cada imagem um quadro que pode ser estudado ad infinitum, cada fotograma ao mesmo tempo instantâneo e retrato, sugestão e descrição. Cavalo Dinheiro é uma obra de uma beleza plástica de cortar a respiração que parece “fechar o círculo” iniciado com O Sangue – ao longo dos anos, Costa foi despojando a sua imagem até nada restar e, depois do limite que foi No Quarto da Vanda, tem aplicado as lições desse hieratismo e retrabalhado o seu requinte formal de outro modo.

Mas, como convém a uma alucinação, este é um filme elíptico, esquivo, fugidio, onde as coisas não seguem uma lógica narrativa convencional mas sim uma espécie de estafeta sensorial pontuada por imagens e sons, canções e conversas, objectos e vozes. Como se tudo fosse o delírio de Ventura no quarto de hospital onde o vemos no princípio do filme, o seu testamento à beira da morte, vendo a sua vida a passar à frente dos olhos com epicentro no 25 de Abril, mas sem que haja verdadeiramente diferença entre o “antes” e o “depois”.

Ainda assim: Há uma questão de “ovo e galinha” que não é possível afastar face a Cavalo Dinheiro, que é a sua relação com Sweet Exorcist, a contribuição de Costa para o filme colectivo Centro Histórico. O cineasta nunca escondeu que aquela curta era um “fragmento” de um filme maior, mas dizer que esta longa é meramente uma expansão de Sweet Exorcist (ou que a curta era um “compacto” de Cavalo Dinheiro) é redutor.

E, no fundo, nem é assim tão importante – mesmo que a “cena do elevador” que ancorava Sweet Exorcist seja aqui também uma das chaves do filme, confirmando a dimensão de “testamento”, ou de exorcismo, que paira por estes quadros quase renascentistas. O Nosso Homem, a curta com que Costa ganhou Vila do Conde 2012, era uma espécie de “súmula” dos filmes das Fontaínhas; Cavalo Dinheiro é outra coisa, só não sabemos se fecho de um ciclo, abertura de outro, filme de transição.