A I Guerra Mundial também é "uma história de reconciliação"

François Hollande e Joachim Gauck estiveram juntos num dos cenários mais devastadores do conflito de 1914-18 e tiraram lições da barbárie – para a Europa e para o Médio Oriente.

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Francois Hollande e Joachim Gauck, Presidente da França e da Alemanha, respectivamente, durante as cerimónias de hoje, em Wattwiller, nordeste da França THIBAULT CAMUS/AFP
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Francois Hollande e Joachim Gauck, Presidente da França e da Alemanha, respectivamente, no monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França SEBASTIEN BOZON/AFP

Cem anos depois da declaração que pôs França e Alemanha frente-a-frente nas trincheiras da I Guerra Mundial, os presidentes dos dois países abraçaram-se em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, para homenagear os mortos do conflito que devastou a Europa entre 1914 e 1918 e para concluir que mais do que uma história de divisão esta é sobretudo uma história de "reconciliação" – à atenção de Israel e do Hamas, sugeriu o francês, François Hollande, apelando "mais do que nunca" à instauração de um cessar-fogo na Faixa de Gaza que acabe com "o sofrimento das populações civis".

A trajectória que separou mais do que uma vez os dois países ao longo do século XX para depois os tornar pivôs da construção da União Europeia (UE) é, acrescentou Hollande nas cerimónias deste domingo, a "melhor mensagem" que a Europa pode enviar "àqueles que desesperam com o processo de paz no Médio Oriente": "A França e a Alemanha tiveram a audácia de se reconciliar, para lá dos sofrimentos e dos lutos: foi a mais bela forma de honrar os mortos e de oferecer aos vivos uma garantia de paz." O seu homólogo alemão, Joachim Gauck, que falou a seguir, não ignorou os impasses actuais da UE: "É verdade, a Europa é um projecto difícil, mas as gerações que nos precederam, estes antepassados que combateram aqui, em Hartmannswillerkopf, ou no Marne, ou em Verdun, gostariam muito de ter tido apenas dificuldades como as nossas."

Os dois chefes de Estado discursaram depois de terem subido juntos a "trincheira de honra" que conduz à cripta do Monumento de Hartmannswillerkopf ("o Velho Armando", como o rebaptizaram as tropas francesas), onde desde 1932 estão guardadas as cinzas de cerca de 12 mil soldados desconhecidos. Ali colocaram também a primeira pedra do museu franco-alemão dedicado aos combates que tiveram lugar nesta montanha ferozmente disputada entre os exércitos dos dois países ao longo do difícil ano de 1915 e onde se calcula que cerca de 30 mil soldados (na sua maioria franceses) perderam a vida. Com abertura prevista para 2017, será a "primeira instituição binacional consagrada à Grande Guerra", sublinha a declaração conjunta assinada por François Hollande e Joachim Gauck: "Os terríveis combates que o devastaram (...) fizeram do Hartmannswillerkopf um lugar sagrado onde se conserva a memória das feridas do século XX. Através da construção deste museu único no seu género, o Hartmannswillerkopf será também um emblema da amizade entre a França e a Alemanha e um símbolo da sua memória reconciliada."

O abraço deste domingo em Hartmannswillerkopf, fixado por dezenas e dezenas de máquinas fotográficas e câmaras de televisão, ficará certamente para a iconografia do centenário da I Guerra Mundial, mas não foi a primeira vez que Hollande e Gauck se aproximaram juntos de um lugar assombrado da História comum dos dois países. A 4 de Setembro passado, os dois chefes de Estado percorreram de mãos dadas as ruínas de Oradour-sur-Glane, cenário do mais abominável massacre nazi na França ocupada (foi a 10 de Junho de 1944, quando a divisão Das Reich abateu 642 dos habitantes da pequena localidade do Limousin). 

Essa História comum, recordaram os dois presidentes, começou justamente a 3 de Agosto de 1914, o dia em que a Alemanha declarou guerra à França: seguiu-se "um período de 30 anos de conflitos, rancores, massacres e barbárie" que se estenderam aos países vizinhos. Como a Bélgica, onde prosseguem já esta segunda-feira as comemorações do centenário da I Guerra Mundial: foi a 4 de Agosto de 1914 que as tropas alemãs invadiram o país para abrir caminho em direcção a Paris, acção que acabaria por determinar a entrada da Grã-Bretanha no conflito. Assinalando a data, vários dirigentes europeus, incluindo Hollande e Gauck, reunir-se-ão para participar, logo pela manhã, numa homenagem presidida pelo rei Filipe junto ao Memorial Interaliado de Cointe. À tarde, uma segunda cerimónia terá lugar em Liège, assinalando a entrega da cruz da Legião de Honra francesa à capital da província onde decorreu uma das mais mortíferas batalhas da I Guerra Mundial.