Torne-se perito

A montanha privada de Matilde Campilho

Jóquei caiu como um meteorito. Algo que escapou aos radares, não previsto pela meteorologia, feito de uma matéria desconhecida, vindo de um lugar não-identificável, ainda a arder.

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ENRIC VIVES-RUBIO

“Uma vez apaixonei-me ali, em cinco minutos”, diz a dada altura Matilde Campilho, olhando um qualquer ponto algures no fim da rua, onde o sol excessivo rodeava as folhas de uma das árvores do Largo de São Paulo, em Lisboa, desfocando-as.

A frase veio assim do nada, a meio da entrevista, tão desarmante e espontânea quanto a poesia de Jóquei – o livro de estreia da menina Campilho – consegue ser nos seus mais iluminados momentos. Ser ou parecer, visto estes poemas terem o condão de, na sua oralidade desavergonhada, que mistura português de cá com o do Brasil (e inglês de permeio), soarem quase como uma conversa, ou antes: um monólogo saído de jacto dirigido a um qualquer tu, por vezes ausente.

Jóquei caiu no meio literário português e no brasileiro como – à falta de melhor imagem – um meteorito. Algo que escapou aos radares, não previsto pela meteorologia, feito de uma matéria desconhecida, vindo de um lugar não-identificável, ainda a arder.

Prince, Dylan, Simon & Gafunkel
Saída então não se sabe de onde, a menina Campilho é, neste momento, um caso. Literário, como acrescentaria Borges, um dos seus autores de eleição. Tanto em Portugal como no Brasil os críticos desdobram-se em encómios – sendo que o caso brasileiro é ainda mais de espantar, tendo em conta que o livro não foi lançado lá. As entrevistas seguem em catadupa, da Globo ao i, passando por publicações de poemas na Folha de São Paulo. Gustavo Rubim, crítico de poesia do Ípsilon, chamou-lhe “um acontecimento precioso em língua portuguesa” e identificou nesta voz um “vento de pura selvajaria”. Num universo em que os lançamentos não têm mais de 150 exemplares e não esgotam ao fim de anos, Jóquei já vai na segunda edição.

Seria exaustivo citar todos os elogios oferecidos à obra; mais interessante, necessário e complexo é precisar o que distingue este objecto. A primeira marca é a mencionada mestiçagem de línguas: “My dear bicho gente/ veja lá se sua próxima visita/ vem antes da edição fria/ do Financial Times.” O português fica a meio do oceano, liberto de uma pomposidade que por cá se confunde bastas vezes com arte, e o inglês não é apenas uma muleta – há poemas inteiros escritos na língua de Whitman e Eliot, influências assumidas.

O registo da quase-banalidade acima citado marca Jóquei; a referencialidade idem. Mas seria um erro resumi-lo a mera questão de linguagem sobre desamores em registo blasé. Citando de novo o texto de Rubim, há “verso curto, prosa longa, diálogo, narrativa, quase aforismo, espécie de carta, glosa”. O universo que funda os poemas vem tanto da vida como de “leituras, filmes, canções”. “As canções são muito importantes”, diz Matilde, em e-mail tardio, antes de citar canções como Purple Rain [Prince] ou Don't Think Twice It's Alright [Bob Dylan] como influências na sua escrita (onde também surgem Simon & Garfunkel, Mercedes Sosa ou Ataulfo Alves).

Badland, um dos poema de Jóquei, “é uma história construída em cima do filme [de Terrence Mallick]”. “Olha aquele amor explosivo”, explica a menina Campilho, num jeito meio brazuca de falar, “mataram pessoas, subiram vacas, e acaba em desastre”. E continua, mudando para um português mais rectangular, porque ela fala um pouco como escreve, com uma língua que a cada frase inventa um lugar ainda por existir: “Mas não é o desastre que guardas. Apesar de tudo, não é o desastre que eu quero guardar de história nenhuma”.

E essa sim, é uma trave-mestra de Jóquei, sobre a qual os poemas dançam: apesar de tudo não é o desastre que os poemas escolhem guardar. Um poema fala em cair como um aviãzinho de papel. Parece um verso banal, mas é toda uma ética: “Por mais doloroso que um final seja, não há outra forma de cair que não seja aceitar que algures foi bonito. Então por respeito cai-se como um aviãozinho de papel. A vida continua”.

Essa ética é mais explícita noutro poema, que inclui os versos “Isto é só um poema/ não vai melhorar”. Aquele não vai melhorar não se refere apenas ao poema em si e “é para ser levado a sério”. Há nele, de certo modo, uma resignação da sua auto-consciência (“O poema não vai salvar a sua vida”, explica Matilde) que leva a uma forma de olhar o mundo (“Li poetas que acham que os poemas salvam o mundo; quando muito salvam minutos”, continua a explicar) e por fim a uma espécie de compreensão da humildade do seu poder: “Então, se já te fez companhia durante cinco minutos já é bom”, conclui.

Antes e depois do Brasil
Uma boa parte da poesia da menina Campilho “é sobre não fazer demasiado alarido”, uma espécie de aceitação da “grande quota de aleatoriedade que há na vida”. “Controlas muito pouco”, diz, beberricando o segundo ou terceiro fino – mas não soa a sentença. Mesmo em conversa ela tem um jeito de dizer como se nem tivesse falado.

Se usamos expressões pesadas como “ética poética” é, em parte, porque Jóquei tem sido mais afagado pelo seu linguajar que pelo eventual significado que as palavras comportam, o que incomoda ligeiramente Campilho. “Imaginei desde o início que haveria o risco de se falar mais em 'como o poema diz' do que 'o que o poema diz', se é que se pode fazer esta dicotomia grosseira. E às vezes incomoda-me um bocadinho, apesar de compreender. O poema não é só o desenho, também tem um eixo – gostava que olhassem também para o eixo”.

Mas é normal que se fale nessa língua que não tem bandeira única – do mesmo modo que esta voz é feita (descaradamente) de múltiplas vozes.

Em 2010 Campilho foi ao Rio “por 15 dias e [ficou] por três anos”. “Pensei: isto aqui é outro mundo. Mudei a passagem de regresso uma vez, duas vezes” e nisto conheceu uma artista plástica, Gabriela Machado, que leu os seus escritos e que a foi chamando para escrever para os seus catálogos e acabou por ficar.

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“Acho que foi com os norte-americanos que aprendi o ritmo, aquela coisa quase de canção que muitos deles têm”

Antes do Brasil – porque a história da poeta tem de facto um antes e depois do Brasil – fora copy para várias televisões em Portugal. Estudou Línguas e Literaturas Modernas, variante Estudos Portugueses e Ingleses, sendo que, curiosamente, a sua “fase de não ler foi na universidade”. Posteriormente tirou um minor em História da Arte, em Milão (embora passasse mais tempo em Florença), e viveu dois anos em Madrid de novo “a escrever copy para televisão”. “Mas Madrid não tem água e fazia-me sentir claustrofóbica”. No Brasil também acabou a ser editora de texto para um canal de televisão.

O Brasil “soltou a língua” de Matilde, a língua “que estava travada”. “Eu danço pouco aqui – lá danço tudo. É uma generalização, mas ao princípio, quando se chega ao Brasil, parece que não existe vergonha nem culpa. Depois apercebemo-mos que também existe. Mas em comparação connosco há uma soltura e muito menos medo. Um jornalista disse-me, acerca da minha poesia, que eu não tenho medo. Não tenho porque ali não havia”.

A experiência brasileira – que entretanto semi-acabou, Matilde vive entre cá e lá, com vontade de cá mas mais trabalho lá – é resumida por ela mesma numa frase memorável: “O Brasil distendeu-me o olho”. Trouxe-lhe humor e alegria, nota, não sem assinalar que “também há tristeza [na sua poesia] e por vezes acho que não é notada”. “As letras do fado e do samba podem ser igualmente tristes; mas uma dança-se e a outra não”, sintetiza.

Ora, até aqui isto é tudo muito bonito – e tem o seu lado de conto de fadas: Matilde foi publicando os seus poemas no Facebook, sendo incitada por poetas brasileiros a editar, adiando a edição, até que um dia fez o seu retiro e construiu Jóquei (que não se limita a reunir os poemas publicados no FB, é todo um outro corpo), transformou-o num PDF – e no dia seguinte recebeu um mail de Pedro [Mexia]”, que a descobriu por indicação de um amigo.

O "fazimento" de Jóquei ocupou um ano da vida de Matilde – deixou o emprego e fez trabalho freelance porque sentiu que chegara a hora. Ela “escreve depressa, no ônibus”, mas depois “brig[a] muito com ele [o poema]”. E quando se apercebeu que havia um Jóquei à espera de ser parido foi como “aquelas pessoas que se retiram para a montanha para escrever, sabes?”, escreve, noutro e-mail tardio. “Bom, não era uma montanha. (…) Mas foi uma espécie de montanha privada, sim”.

Citamos, com a devida autorização da poeta: “Foi mais de um ano assim, acordar para escrever, ir dormir depois de escrever. Claro que a vida acontecia na mesma - amigos, cervejas, mergulhos, chuva, empregos, tudo. Mas durante aquela temporada havia um eixo central (…) [que] era o livro. Quando comecei essa temporada nem tinha a total consciência de que ia ser assim tão firme, tão constante. Mas foi. Foi uma prática diária, e quase tudo o que se pratica diariamente se afina e ganha as suas próprias regras. E ao mesmo tempo acaba dando uma regra à vida. Foi um tempo muito bom, ganhei uma cadência e um sossego que contaminou quase todos os meus gestos. É como um ginásio, sabes? Como fazer jogging todas as manhãs. Fica no corpo e muda o corpo. Fazer este livro foi muito isso”.

Contudo, e ao contrário da maior parte dos escritores, que no processo de criação recusam a influência, Matilde “não podia fazer tudo sozinha”, “não podia ficar aquela temporada toda só comigo - digo, com as minhas próprias palavras. Para que o livro "se abrisse", para que ele não fosse só a minha cabeça e a minha mão, só a minha vivência e a minha própria transformação dessa vivência, precisei de companhia”.

Daí entraram os outros poetas, os outros escritores, os cantores, tudo o que torna o livro simultaneamente fracturado e uma espécie de vórtice unificador desta era estilhaçada. “Li muito, traduzi muito”, escreve Matilde. O mais importante vem a seguir: “Senti que não era hora de ficar presa a um voz única - quanto mais escrevia mais via a coisa transformar-se”.

Foi, diz, “um ano em boa companhia”. Alguns estiveram sempre lá, outros foram indo e vindo. “Entre anotações e nódoas de banana, o coitado do livro está todo desfeito”, escreve, a propósito de O Som e a Fúria, de Faulkner: “Esse era o romance, digamos, central, e à volta dele estavam os poetas e (…) aqueles contos da Flannery O'Connor (…) ou da Carson McCullers”.

Esta é a parte em que a leitora voraz cita: Fitzgerald, “aquela maneira dele escrever - meio blazé, meio absolutamente íntima - fez muita diferença nos meus dias” e é clara influência no tom de Jóquei. Curiosamente, e numa poeta cuja língua se dobra em duas, o mais marcante talvez enham sido “aqueles norte-americanos todos, o Frank O'Hara, o Allen Ginsberg, o Ferlinghetti, o John Ashberry, o Kenneth Koch, o Wallace Stevens, o william carlos williams”. “Acho que foi com os norte-americanos que aprendi o ritmo, aquela coisa quase de canção que muitos deles têm”. Mas não só os americanos: Antonio Cisneros, Octavio Paz e mesmo “os textos que o Caetano Veloso escrevia no jornal e nas costas dos discos” acabaram em Jóquei. Bem como os portugueses Ruy Belo, Daniel Filipe ou Fernando Assis Pacheco.

A menina Campilho às vezes acha que começou “a fazer poesia porque fazer cinema seria bem mais caro. A poesia às vezes também me sai cara, mas é noutro nível. […] Só preciso de papel e caneta, há coisa mais barata?” Esta poesia está feito e Matilde já olha “para o livro à distância”. Agora é preciso fechar este ciclo, viver, viver outra idade, e depois escrever”. Não sabe o que vai escrever mas sabe o que precisa de fazer: “Antes das palavras é preciso dar a cara ao perigo”.

Não parece, porque o livro dança, mas Jóquei também tem perigo. E só quem nunca dançou acha a dança inofensiva.

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