Pedro Sánchez, novo líder dos socialistas espanhóis, quer votos dos “indignados” e do PP

Foi um congresso para “cerrar fileiras”. O novo líder tem uma tarefa espinhosa. Precisa de reconquistar votos à esquerda e de reocupar o centro. Teve a sua primeira reunião com Mariano Rajoy.

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Mudámos a Espanha duas vezes e vamos fazê-lo uma terceira vez" PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP

O congresso serviu para sagrar o líder e confirmar os 39 nomes da nova comissão executiva federal. Foi o cenário para o primeiro grande discurso de Sánchez, revelador do estado de espírito do PSOE: “Aqui estamos, de pé e, uma vez mais, levantando-nos. Mudámos a Espanha duas vezes e vamos fazê-lo uma terceira vez.”

Estratégia eleitoral

Em termos de poder, o partido parece não estar completamente reconciliado. Os rivais de Sánchez nas primárias, Eduardo Madina e Pérez Tapias, declararam que não houve “integração”, ou seja, que os seus partidários não estão devidamente representados na direcção. Frisam os analistas que o poder real dentro do partido assenta nos barões regionais. Sublinha-se o peso da Andaluzía e, em especial, da sua presidente, Susana Díaz.

Em termos de política político-social, Sánchez referiu “uma alternativa orientada para um objectivo muito claro: a defesa da classe média e da classe trabalhadora”. Uma das promessas é “revogar a reforma laboral [do governo Rajoy] quando voltarmos a governar. Recuperaremos os direitos laborais perdidos e a negociação colectiva.”

Em termos de estratégia eleitoral, tendo em vista as eleições gerais de 2015, Sánchez apontou duas directivas. Apelou a que o partido se volte para os “indignados” e leve em conta as suas aspirações. Por outro, deve conquistar os eleitores do centro.  

“O PSOE não voltará a ganhar se abandonar o espaço do centro, que o PP tem todo o interesse imaginável em controlar”, escreve Joaquín Prieto, editorialista do El País. “Tudo depende da habilidade com a nova direcção socialista saiba manobrar entre a esquerda e o centro políticos.” Mas, aqui entra em jogo outro factor.

O fantasma Podemos

Escreve o polítólogo Fernando Vallespín: “Um fantasma percorre a esquerda espanhola, o fantasma do Podemos. Desde que, como um cometa, fez a sua aparição por trás do rabo de cavalo de Pablo Iglesias, toda ela está à beira de uma crise de nervos. (...) Era um debate já em marcha antes das europeias e que agora o efeito Podemos pode converter em obsessão.”

O Podemos, liderado pelo politólogo e vedeta de televisão Pablo Iglesias, irrompeu nas europeias de 25 de Maio e provocou uma sangria no voto socialista. As sondagens indicam que este efeito se pode agravar. O discurso do Podemos não se limita a uma abordagem esquerdista e eurocéptica da crise económica. É sobretudo um discurso “anticasta” política, que floresceu na decomposição do sistema partidário espanhol. Apresenta-se como “a voz do povo contra as elites”. Note-se que 93% dos espanhóis exigem mudanças drásticas do funcionamento dos partidos. De momento, o PSOE responde com uma “mudança geracional”.

Iglesias e Sánchez estão lançados numa frenética corrida. O PSOE quer apresentar uma imagem de renovação e rejuvenescimento para estancar a “hemorragia” antes das legislativas de 2015. Por sua vez, o Podemos já se organizou como partido e com uma liderança pessoal forte, a de Iglesias. “É um momento excepcional, antes que o PSOE se possa recompor e recuperar o espaço perdido”, diz um dos seus dirigentes. O PSOE admite fazer novas eleições directas em Novembro, desta vez abertas aos eleitores, para designar o candidato a primeiro-ministro. O Podemos prepara a sua “assembleia nacional de Outono”.

“A grande batalha que se vai travar a partir de agora entre os partidos de esquerda consistirá em ver quem é capaz de mudar o actual statu quo” político e económico, anota o politólogo António Estella. É a luta pela hegemonia da esquerda.

Encontro com Rajoy

Sánchez foi recebido esta segunda-feira por Mariano Rajoy, no seu primeiro “acto de Estado”. Discutiram a possibilidade de acordos sobre o “modelo de Estado”, a Constituição, as políticas europeias e a “melhoria da qualidade da democracia”.

Rajoy consultou-o sobre o seu próximo encontro com o Artur Mas, chefe do governo de Barcelona. O líder do PSOE disse aos jornalistas sobre o referendo catalão: “Estivemos de acordo em que a consulta não se pode celebrar porque é ilegal. (...) O desafio é afrontar a reforma da Constituição, dar um passo decidido em direcção a uma Espanha federal” e, depois, “votarão todos os espanhóis.”