Crítica

Da corte imperial dos Habsburgos à música contemporânea portuguesa

Os concertos dos agrupamentos Stile Antico e Ensemble Darcos foram reveladores da variedade de épocas e de concepções musicais representadas no Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim.

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Stile Antico dr

Stile Antico Música coral polifónica para a Corte Imperial dos Habsburgos Igreja Matriz da Póvoa de Varzim,14 de Julho, 21h45 (sala cheia) 5 estrelas Ensemble Darcos, Nuno Côrte-Real (Direcção) e Eduarda Melo (Soprano) Obras de Afonso Teles, Gerson Batista, Manuel de Falla, Nuno Côrte-Real e Cole Porter Auditório Municipal da Póvoa de Varzim,22 de Julho, 21h45 (sala a três quartos) 4 estrelas

O concerto do grupo vocal Stile Antico foi integralmente constituído por obras polifónicas renascentistas da corte imperial dos Habsburgos. Do rol de compositores interpretados constaram C. non Papa, C. de Morales, H. Isaac, J. des Prez, N. Gombert, P. de la Rue e T. Tallis.

A excelente fusão vocal que o grupo produziu ao longo de todo o concerto resultou de uma afinação exemplar e de uma óptima dicção do texto. Destaca-se ainda a constante mudança da formação vocal ao longo do concerto (variando normalmente entre os quatro, seis, oito, onze e doze elementos) e ainda as trocas de posição dos cantores entre as peças. Esta opção interpretativa resultou num concerto que, apesar de ter sido interpretado a cappella, apresentou uma sonoridade constantemente renovada.

Num concerto de tão elevada qualidade musical (tanto no repertório escolhido como na interpretação) torna-se difícil pôr em relevo uma obra em detrimento de outras. No entanto, destaca-se a intimista e comovente interpretação a quatro vozes solistas de Mille Regretz de Josquin des Prez e a execução do grandioso motete Virgo prudentissima de Heinrich Isaac. Na obra de Isaac o grupo explorou com muita segurança e enorme capacidade expressiva o contraste entre as imponentes secções harmónicas e as secções cantadas a duas vozes solistas.

Este concerto foi sem dúvida um dos mais interessantes da programação da presente edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim.

O concerto do Ensemble Darcos tinha como principal atractivo a primeira audição absoluta de três obras de compositores portugueses. O concerto iniciou-se com a execução das duas obras finalistas do 7.º Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim, ambas da autoria de jovens compositores portugueses – O elemento ausente de Afonso Teles (n. 1993) e Não canto para surdos de Gerson Batista (n. 1988). A obra vencedora do concurso foi a de Afonso Teles, para septeto instrumental.

A primeira parte do concerto concluiu com uma interpretação bem conseguida do Concerto para cravo (ou piano), flauta, oboé, clarinete, violino, viola e violoncelo de Manuel de Falla, executado com piano.

A segunda parte abriu com a estreia absoluta de Lembras-te, meu amor, das tardes outonais... Op. 47 de Nuno Côrte-Real, para quarteto instrumental, obra encomendada pelo festival e composta a partir do poema Elegia do amor de Teixeira de Pascoaes. O concerto terminou com a interpretação de Quatro Canções de Cole Porter, num interessante arranjo de Nuno Côrte-Real. Nestas canções a soprano Eduarda Melo aliou a sua excelente preparação vocal lírica a uma interpretação que se aproximou com muita segurança do estilo da Broadway – alguns dias antes a cantora interpretou o papel principal da ópera La Spinalba de António Francisco de Almeida.

Ao longo de todo o concerto o Ensemble Darcos teve um bom desempenho, demonstrando conhecer bastante bem as obras apresentadas e revelando uma boa interacção e cumplicidade entre os músicos.

Os vários aspectos positivos do concerto não disfarçaram, no entanto, uma aparente falta de coerência do repertório. As canções de Cole Porter, em particular, dividiram o concerto em dois universos musicais muito distintos. Porém, considerando a excelente interpretação e a reacção calorosa do público, estas canções foram, provavelmente, o momento alto do concerto.