Casa de Chá da Boa Nova regressa às origens

Álvaro Siza dirigiu o restauro de uma das suas primeiras obras, em Leça da Palmeira, e que o chef Rui Paula vai agora explorar à conquista de uma estrela Michelin.

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Fernando Veludo/Nfactos
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A Casa de Chá da Boa Nova, em Matosinhos, um dos primeiros projectos concretizados por Álvaro Siza, e que em 2011 foi classificado Monumento Nacional, volta a reabrir portas e a mostrar, em toda a sua plenitude, as formas, os materiais e as cores que fizeram dela uma das referências maiores da arquitectura contemporânea portuguesa.

O edifício que Siza projectou na década de 1950 – pela mão de Fernando Távora – e incrustou na paisagem rochosa da Praia da Boa Nova foi meticulosamente restaurado ao longo dos últimos dez meses, sob a direcção do seu autor, e vai agora funcionar exclusivamente como restaurante, às mãos do chef Rui Paula.

“Foi uma batalha um pouco dura, que deu muito trabalho, mas que valeu a pena”, disse Rui Paula, esta sexta-feira de manhã, na apresentação do seu novo restaurante à comunicação social. E o criador dos famosos DOC (Douro) e DOP (Porto) realçou mesmo que este será “o restaurante da [sua] carreira”, que sempre “ambicionou” e a que chegou num trabalho sempre muito próximo do “mestre Siza”. A ambição de Rui Paula é a de finalmente conquistar, na Boa Nova, uma estrela Michelin.

O restauro da casa foi decidido pela Câmara Municipal de Matosinhos, quando em Março de 2012 chegou ao fim a última concessão do restaurante. No momento da reinauguração, o presidente da autarquia, Guilherme Pinto – num momento em que o país discute apaixonadamente para onde irá o acervo de Álvaro Siza –, aproveitou para sublinhar o envolvimento do arquitecto não só nesta obra, mas também na recuperação de duas outras a avançar proximamente, também vindas do início da sua carreira: a Piscina das Marés e a Quinta da Conceição. “Na sua terra natal, Álvaro Siza não se pode queixar, porque o seu património é preservado todos os dias”.

Guilherme Pinto realçou também o facto de a gestão da Casa de Chá da Boa Nova passar, a partir de agora, a ser assumida pela associação Casa da Arquitectura, para cuja sede Siza desenhou um anteprojecto no final da década passada, mas que não passou da maqueta. “A Casa da Arquitectura é um sonho que nós temos, principalmente para homenagear Siza Vieira”, reclamou Guilherme Pinto, lembrando que o custo da obra projectada pelo arquitecto ascende a 43 milhões de euros e relembrando a solução provisória que a Câmara de Matosinhos tem entretanto em vista: a recuperação do velho edifício da Companhia Real Vinícola para acolher o acervo de Siza e de outros arquitectos que entretanto já disponibilizaram documentos ao Centro de Documentação Álvaro Siza.

Reentrar agora na Casa de Chá da Boa Nova – o que poderá ser feito a partir da próxima terça-feira, dia 22, altura em que o novo restaurante de Rui Paula entrará em funcionamento – significa uma viagem no tempo. O edifício mantém a mesma imagem de quando foi inaugurado em 1963: as paredes brancas, o castanho da madeira afizélia, os apontamentos de betão e de latão, tudo pontuado com o mobiliário e os candeeiros desenhados pelo próprio Álvaro Siza, e que agora foram repostos, em muitos casos reconstruídos a partir do esboço original. O custo total do restauro e da readaptação a um moderno restaurante ascendeu a perto de 900 mil euros.

Em volta, há a praia e o mar, a centenária capela da Boa Nova e o imaginário de António Nobre, imortalizado na sua poesia inscrita na rocha – “Na praia lá da Boa Nova, um dia/ Edifiquei (foi esse o grande mal)/ Alto Castelo, o que é a fantasia,/ Todo de lápis-lazzuli e coral!.” (, 1887) –, mas também na escultura de Salvador Barata Feyo.