Crítica

De olhos bem fechados

A meio da sua 40ª edição, o Festival Internacional de Música de Espinho propôs dois programas setecentistas para duo de cordas e cravo

Foto
Isabelle Faust, violino e Kristian Bezuidenhout, cravo dr

Isabelle Faust, violino
Kristian Bezuidenhout, cravo
5 estrelas
Espinho, Auditório de Espinho
Domingo, 6 de Julho, 18h00
Obras de J. S. Bach
Sala quase cheia

Sergey Malov, violino e violoncello da spalla
Florian Birsak, cravo
5 estrelas
Espinho, Capela de Nª Sra da Ajuda
Sexta-feira, 11 de Julho, 22h00
Obras de A. Vivaldi, J. S. Bach e C. P. E. Bach
Capela quase cheia

A meio da sua 40ª edição, o Festival Internacional de Música de Espinho propôs dois programas setecentistas para duo de cordas e cravo, na interpretação de músicos marcantes que o público recebeu com manifesto entusiasmo.

O primeiro foi o da violinista alemã Isabelle Faust e do cravista sul africano Kristian Bezuidenhout, centrado em três das seis sonatas que J. S. Bach escreveu para violino e instrumento de tecla, a que se juntou a Sonata para violino solo BWV 1003 e a Tocata para cravo BWV 913. O segundo, com o russo Sergey Malov a demonstrar a sua habilidade no violino e no violoncello da spalla, acompanhado pelo cravista austríaco Florian Birsak, para além de apresentar duas obras do patriarca da família Bach, incluiu três obras do seu filho Carl Philipp Emanuel e duas de A. Vivaldi.

Onde em Faust há contenção e uma profunda reverência para com a partitura, em Malov há exuberância e espavento. Pelo contrário, Birsak é bastante mais discreto do que Bezuidenhout. Em ambos os casos, o melhor seria optar por fechar os olhos e apreciar a excelente música sem o ruído introduzido por movimentos alheios à qualidade do som. Se estivermos já à espera do som despojado e da impecável afinação de Faust, poucas surpresas houve na Sonata BWV 1016 com que abriu o programa, pontuado por diversas interrupções para afinação- aspecto que entediou algum público, mas que agradou aos que privilegiam a irrepreensibilidade da afinação.

A solo, Faust exibiu a sua rara sensibilidade para o contraponto numa interpretação limpa, expurgada de acessórios - manifestação da mais utópica relação de respeito entre as diversas vozes, assim como da intérprete perante a obra que dela própria depende.

Novamente em duo na BWV 1014 e, após a Tocata, na BWV 1019 o duo reúne-se com os infinitos e discretos pormenores que caracterizaram a leitura de Faust.

A relação entre o violino de Faust e o cravo de Bezuidenhout nem sempre se apresentou livre de tensão. Já Birsak deixou uma sensação de maior agilidade ao tocar em conjunto do que Bezuidenhout havia produzido. Ao mesmo tempo, logo no primeiro andamento da Sonata Manchester Rv 12 de Vivaldi, Malov exibe sem acanhamento um espírito rebelde mal segurando o tempo, tão arrebatada é a sua urgência em comunicar.

Na segunda obra, Malov troca o violino pelo violoncello da spalla para interpretar a Suite nº 2 para violoncelo BWV 1008. Se em Vivaldi a sua criatividade teria sido notada, em Bach deu largas ao improviso num espírito absolutamente barroco que viria a marcar todo o concerto em proporções variáveis. Ainda com o violoncello da spalla, seguiu-se a Sonata para viola da gamba e baixo contínuo Wq. 136, de C. P. E. Bach e, após o intervalo, a Sonata para violoncelo e baixo contínuo RV 45, de Vivaldi.

Em C. P. E. Bach, Birsak brilhou nas 12 Variações sobre as Folies d’Espagne Wq. 118/9 com sobriedade e distinção, antes do evento encerrar com a Sonata para violino e baixo contínuo Wq. 78 do mesmo compositor, com Malov a demonstrar o domínio sobre o instrumento sem demasiadas preocupações estilísticas.

Crítica corrigida a 14 de Julho, às 13h26: substituição de oitocentistas por setecentistas.