Uma cassete chamada C86

Em 1986, o New Musical Express editou uma cassete onde encontrávamos os Pastels ou os Primal Scream. Ali nasceu o indie tal como o passámos a entender. A compilação, intitulada C86, ganhou agora edição deluxe. Neil Taylor, o compilador original, e Simon Reynolds, à época no Melody Maker, falam ao Ípsilon.

Os Jesus & Mary Chain, em 1986 demasiado famosos para serem incluídos em <i>C86</i>, figuram agora na <i>Deluxe Edition</i>
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Os Jesus & Mary Chain, em 1986 demasiado famosos para serem incluídos em C86, figuram agora na Deluxe Edition DR
Os Pastels foram uma banda determinante na definição da estética, quer musical, quer visual, daquilo que conhecemos como indie
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Os Pastels foram uma banda determinante na definição da estética, quer musical, quer visual, daquilo que conhecemos como indie DR
Os Bogshed, mais próximos dos Pere Ubu que dos Byrds, são um dos exemplos de que havia mais diversidade em <i>C86</i> do que é normalmente defendido
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Os Bogshed, mais próximos dos Pere Ubu do que dos Byrds, são um dos exemplos de que havia mais diversidade em C86 do que é normalmente defendido DR
Os Mighty Lemon Drops foram uma das bandas charneiras de <i>C86</i>, surgindo logo a seguir aos Primal Scream, a banda que inaugura a compilação
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Os Mighty Lemon Drops foram uma das banda-charneira de C86, surgindo logo a seguir aos Primal Scream, a banda que inaugura a compilação DR

Pode soar estranho hoje, quando indie é expressão gasta que nada significa. Os Arctic Monkeys são indie, os Killers são indie, os Radiohead são indie. Tudo é indie, nada é indie, e quem se recorda do tempo em que indie significava alguma coisa encolhe os ombros, suspira pesadamente e abana a cabeça enquanto sussurra “o que aconteceu?” Pode parecer estranho, mas a verdade é que houve um tempo, primeiro, em que indie identificava a forma como a música era produzida e editada (em editoras independentes, voilà, à margem das multinacionais). E houve um tempo pouco depois disso em passou a definir um som e uma estética.

Recordemos: rapazes e raparigas vestiam anoraques e cortavam o cabelo à tigela, como se os Byrds tivessem acabado de aterrar no Reino Unido há dias e maravilhado todos os que lhes puseram os olhos em cima. O indie já existia, claro – os Orange Juice de Edwyn Collins tinham-nos mostrado a coisa, anos antes, directamente de Glasgow. Mas a partir daquele momento, estamos em 1984, 85, 86, indie passou a equivaler a música pop delicada, literata mas animada por sonhos infantis e tocada por músicos que prezavam um romantismo muito pouco rock’n’roll – o mundo seria salvo por um refrão inesquecível, não por um riff virtuoso. “Sentíamo-lo como nostalgia mesmo enquanto estava a acontecer”, recordava há alguns anos Nicky Wire, dos Manic Street Preachers, que teve com aquele conjunto de bandas a sua primeira epifania musical. Tudo ficou cristalizado ali. Ali? Ali, numa cassete editada em 1986 pelo semanário musical britânico New Musical Express (título: C86), onde se compilavam 22 bandas representativas da cena independente britânica da época, e que foi distribuída por encomenda postal. Nela encontrávamos os Primal Scream da primeira encarnação, os Pastels, os Shop Assistants, os Wedding Present ou os Half Man Half Biscuit. “Era óptimo ter a energia do punk sem termos de ser punks”, resumia em Junho Nikolai Galen, dos The Shrubs, uma das bandas compiladas, numa história oral da C86 publicada no site Wondering Sound.

Não era propriamente novo. A ideia já tinha vários anos e já resultara em 22 cassetes distribuídas pelo semanário. Em 1981, de resto, fora publicado uma, intitulada C81, em que eram reunidos alguns dos nomes que fizeram o criativamente fervilhante período pós-punk, caldeirão ecléctico onde os Specials conviviam com os Orange Juice, as Raincoats com os Scritti Politti, os Virgin Prunes com os Buzzcocks. Nenhuma das edições, porém, se tornaria marcante o suficiente para designar um género. Eis então a 23.ª cassete, C86. A abrir, Velocity girl. 1m56s de pop despida de tudo o que fosse supérfluo: a guitarra a cintilar como nos tempos áureos dos Byrds, a voz surgindo como brisa reconfortante. Um pequeno paraíso perdido, descoberto pelos Primal Scream antes de os Primal Scream descobrirem o acid-house e gritarem Screamadelica em glorioso Technicolor. Com eles, nomes icónicos como os Pastels, os Half Man Half Biscuit ou os Wedding Present, e nomes que apenas os iniciados recordarão, como os The Mighty Lemon Drops, os Soup Dragons ou as Fuzzbox. Vinte e duas canções de 22 bandas. O nascimento do indie tal como veio a ser entendido até se tornar, em pleno século XXI, designação que tudo abarca e nada diz. “Raramente uma compilação de grupos na sua maioria sem sucesso despertou tanta ira”, líamos há alguns meses no Guardian. A frase chama a atenção. Mas é parcelar. Porque se despertou ira, despertou também muito amor. À época vendeu entre 25 e 30 mil exemplares através da encomenda postal, mais quatro ou cinco mil cópias da edição em vinil que a Rough Trade lançou em 1987. Não parece muito, mas a criação acabaria por ultrapassar os seus criadores. “A cassete original foi montada muito rápido e sem qualquer visão para a posteridade”, diz ao Ípsilon Neil Taylor, um dos compiladores originais, em entrevista por email. “Pensámos que duraria até ao Outono e que depois seria esquecida."

Evolução, involução

Contudo, continuamos a falar da velhinha cassete do NME 28 anos depois. O interesse mantém-se, ao ponto de sermos presenteados com uma C86 Deluxe Edition (Cherry Red Records), triplo CD que, às 22 bandas da compilação original, reúne 50 gravações do mesmo período (ou seja, do Verão de 1985 ao Verão de 1986).

Mas, afinal, por que continuamos a falar de C86? “Porque marcou o fim da cultura independente que existia anteriormente e a alvorada de um período do indie com menos preocupações ideológicas. Por essa razão, a música assumiu uma inocência e um charme que talvez falte a música de outros períodos. Mais do que tudo o resto, acabou por ser vista como ‘genuína’”, diz Neil Taylor, então jornalista no NME e que, 28 anos depois da edição original, foi igualmente responsável pela compilação agora editada (e actualmente trabalha num livro sobre o mesmo tema, C86 & All That: An Exploration into the Birth of Indie, a publicar na Primavera de 2015).

Na concorrente do NME, a Melody Maker, nessa época em que a imprensa musical britânica era zona de guerra estética onde se esgrimiam argumentos e se defendiam correntes musicais como se o futuro dependesse disso (e dependia), encontrávamos Simon Reynolds, o influente jornalista então em início de carreira, mais tarde autor de livros de referência como Rip it Up and Start Again –Post Punk 1978-1984 (Faber And Faber, 2006) ou Retromania – Pop Culture’s Addiction to Its Own Past (Faber And Faber, 2011) – neste momento, revela, dedica o seu tempo a uma obra sobre glam rock e o art pop da década de 1970.

Reynolds, que é tudo menos um entusiasta da música ali contida (considera a compilação de 1981 mais abrangente e criativamente mais estimulante), reconhece ainda assim um momento charneira. Como escreve ao Ípsilon, “C86 capta um momento na codificação da música indie – a mudança de ‘independente’ para ‘indie’. Independente referia-se a um meio de produção, não é um termo limitativo musicalmente." Por sua vez, “’indie' refere-se a um tipo de som bastante restrito”, argumenta, antes de acrescentar: “Portanto, a par dos Jesus & Mary Chain, The Smiths e da [editora] Creation Records [de Alan McGee, dos Biff Bang Pow!, que revelaria mais tarde uns certos Oasis], podemos afirmar que a C86 representa um momento-chave na evolução do indie. Ou involução, se quisermos ser mauzinhos” – não é exactamente ira, mas…

A verdade é que raras vezes uma cassete terá feito tanto por tantos – não em termos de protagonismo, já que, na sua maior parte, as bandas nela incluídas são conhecidas apenas dos melómanos mais empenhados, mas em impacto através dos tempos. Para Neil Taylor, “a C86 foi a melhor coisa que nasceu da C86, designação através da qual identifico um grupo de indivíduos empenhados – músicos, fãs, editoras, colaboradores em fanzines, etc, menos interessados no seu lugar na hierarquia e mais preocupados em fazer o melhor que pudessem e em aproveitar o momento”. Taylor destaca, acima de tudo, a excepcionalidade do momento: “A partir de então a comercialização, não só da música mas de tudo, tornou impossível que um momento destes possa ser recriado”.

Do momento singular, porém, muito frutificaria. A ausência de quaisquer sinais de sexismo (as mulheres ocupavam espaço nas bandas em posição de igualdade ou, como no caso das Talula Gosh, enquanto líderes) levou a que a C86 se tornasse uma referência para as riot grrrls da década seguinte. A sensibilidade e delicadeza de uns Pastels ou June Brides, por sua vez, “expressa em nostalgia pela infância e uma certa inocência” – “as canções de amor, quando escritas por rapazes, tendiam a idealizar a mulher de uma forma algo mística; tornavam-nas etéreas”, escreve Simon Reynolds –, acabaram por ser recuperadas pelo twee pop dos Belle & Sebastian ou dos Camera Obscura ou por bandas da editora americana Elephant 6 como os Elf Power. O shoegaze de uns My Bloody Valentine, por sua vez, encontra ligação directa nas descargas sónicas de uns Jesus & Mary Chain e nas barreiras de distorção erguidas sobre melodias oh tão trauteáveis de várias das bandas na compilação. Ao mesmo tempo, veríamos nascer, de uma banda como os McCarthy, os magníficos Stereolab. No universo da pop, o impacto foi global: lembremos em Portugal uma editora independente como a Bee Keeper e a juventude sónica, definitivamente indie, que pululava nos anos 1990 pelo país, de Lisboa ao Porto, das Caldas da Rainha a Leiria a Castelo Branco.

Fazer acontecer

A influência manifestou-se, de facto, das mais diversas formas. Não surpreende portanto que algo curioso sobressaia neste regresso à C86, principalmente nesta versão aumentada e que, considera Neil Taylor, é definitiva. Nada mais haverá a acrescentar, garante (o facto de se ater a um espaço temporal muito específico explica que tenham ficado de fora bandas que “deveriam ter sido incluídas, com os Felt, The Legend, The Three Johns e Slaughter Joe”). Ao avançar canção a canção, percebemos como a ideia de indie enquanto pop delicada vestida de anoraque e cantando sobre dar as mãos ou lamentando com angústia o fim do romantismo (“Love is going out of fashion”, cantam pesarosos os Biff Bang Pow!), é apenas parte de um todo maior. Ouvimos os Bogshed ou os Stump e as suas canções tensas à beira do descalabro e é óbvio que estão mais próximos dos Pere Ubu ou de Captain Beefheart do que dos Byrds. Chegamos aos Nightingales e a música dilacerante de Part time moral England é feita de tudo menos conforto e nostalgia.

Se no imaginário colectivo se instalou essa visão parcelar da diversidade de C86, tal deve-se ao facto de tantos se terem concentrado nas bandas com um imaginário mais marcado, quer em termos de som, quer em termos de imagem. “Era música mais bonitinha, mais acessível”, considera Simon Reynolds. “E lidava com as emoções da vida real, o amor, a saudade, a tristeza."

Há mais em C86 do que o indie tal como este acabou por ser definido. Há canções que sobreviveram incólumes ao seu tempo, há curiosidades datadas, há bandas tão entusiasmadas com o rock saltitante e luminoso dos Orange Juice que julgamos estar perante uma versão (os Mighty Mighty de Law são um bom exemplo). Mas o que sobressai, acima de tudo, é uma viagem multifacetada a um período criativo peculiar: uma vontade de fazer acontecer sem preocupações de escala – se só 20 gatos pingados em Wolverhampton ouvissem o single que acabara de ser editado e se só esses 20 fossem depois abanar os seus pins e cabelo à tigela no concerto de apresentação, tudo estaria bem. A alegria da criação e o sentido de comunidade pareciam ser tudo o que interessava. Esse desapego e esse entusiasmo amador (no duplo sentido do termo) continuam a soar inspiradores e algo comoventes. Mesmo quando as vozes desafinam ou as guitarras, o baixo e a bateria soam a uma amálgama distorcida, nada equilibrada – como é o caso dos Meat Whiplash, a banda que editou um single, Here it comes, e terminou logo a seguir.

Não havendo futuro, as bandas da C86 preocupavam-se em fazer o melhor do presente. Em fazer rápido, sem cumprir as regras habituais da indústria discográfica, numa escala reduzida, na intimidade de uma pequena comunidade. Quando cederam uma canção para a compilação do NME, muitas delas avançaram com segundas escolhas, guardando os seus trunfos para singles em nome próprio. Afinal, a cassete seria editada no Verão e esquecida no Outono. A maioria destas desaparecia pouco depois, deixando como legado um inadvertido manifesto conjunto intitulado C86. Três décadas depois, para surpresa de todos, ainda estamos aqui a falar dele.