Clarabóias, "olhos de vidro" dos telhados do Porto

Paulo Ferreira e Luciana Bignardi são fotógrafos e têm uma predilecção por clarabóias. Passaram os primeiros cinco meses de 2014 a fotografar centenas de clarabóias pelo Porto e agora querem lançar o livro “Anima Luminária”

Difíceis de encontrar para quem passeia pela cidade, muitas clarabóias têm um trabalho interior exuberante
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Difíceis de encontrar para quem passeia pela cidade, muitas clarabóias têm um trabalho interior exuberante
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Não é possível saber quantas clarabóias existem, ao certo, nos telhados das casas do Porto. Percebemos que são muitas, largas centenas, quando abrimos o Google Earth, por exemplo, e sobrevoamos as ruas da cidade, sobretudo nas zonas mais antigas. Quase casa sim, casa não, há provas da existência de clarabóias. São “olhinhos de vidro” que absorvem a luz, como lhes chama Luciana Bignardi, a fotógrafa brasileira de uma dupla que inclui o portuense Paulo Ferreira. Juntos descobriram e visitaram centenas de clarabóias, fotografaram-nas e agora querem lançar “Anima Luminária”, uma homenagem a este património do Porto.

Paulo tem 50 anos e há 30 que descobriu as clarabóias da sua cidade enquanto modelos fotográficos. “Tinha que as namorar, procurar a hora certa, a altura do ano com a luz que eu queria”, conta ao P3, com muito menos tecnologia do que aquela a que tem hoje acesso. “Fotografava e tinha de esperar 15 dias para que os diapositivos chegassem da Suíça. Hoje, ao poder ver o resultado imediatamente, posso imediatamente melhorar”, resume. O encontro com a paulista Luciana, há algum tempo, deu-lhe o empurrão que precisava “para finalizar o projecto” e avançar com o livro, que reúne ainda poesia sobre o objecto.

Os primeiros cinco meses de 2014 resultaram em mais de quatro mil imagens, entre clarabóias e lanternins (peças iluminadas pelo lado, com janelas, ao contrário das primeiros, iluminadas por cima). Estudaram o ângulo e a hora certos, bateram a muitas portas – muitas abriram, outras não – e descobriram, com a ajuda de leitura, que as clarabóias do Porto têm algumas características únicas. “Dentro do que conheço do que vou lendo, não andará longe da verdade se disser que o Porto é a cidade que tem mais clarabóias no mundo, em termos de diversidade. Ou, pelo menos, o património mais importante”, arrisca Paulo.

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As casas das ruas mais antigas do Porto escondem clarabóias que só se vêem com recurso a ferramentas do Google

Nesta cidade, as clarabóias não são exclusivas de palacetes, estão presentes em casas da “pequena e média burguesia”, sobretudo do século XIX. Difíceis de encontrar, por estarem escondidas por definição, são, muitas vezes, a principal fonte de iluminação natural directa. Resultado da “circunstância de factores do Porto”, nomeadamente da estrutura urbanística da cidade daquele século – “um talhão esguio com uma fachada muito estreita, normalmente com 5,20 metros, uma planta muito estranha” -, a inclusão de clarabóias na arquitectura possibilitou não só iluminação como arejamento.

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Os fotógrafos Paulo Ferreira e Luciana Bignardi retrataram centenas de clarabóias presentes nos telhados do Porto

O que mais intriga Paulo e Luciana é, contudo, a razão por detrás do trabalho que cada clarabóia comporta. “Porque se faz um objecto tão cuidado e belo para estar, por definição, em sítios onde não se vê? É que a parte mais significativa está escondida”, aponta Luciana.

“Anima Luminária” é o título do livro que está em fase de construção, ainda sem data de lançamento e que deverá contar com cerca de 200 imagens. Os dois fotógrafos não querem fazer um catálogo deste património no Porto, antes “uma interpretação estética do objecto”. Vêem as clarabóias como “um tesouro” que pode ser “altamente rentabilizado em termos de turismo”. “Nós, Porto, melhor destino europeu, temos a obrigação de nos renovarmos”, defende Paulo. Procuram, agora, financiamento para concretizar o projecto, em forma de livro e exposição. “Este trabalho fica por aqui se não vierem os mecenas. E se pudermos, um dia, declarar o Porto capital mundial da clarabóia, sem dúvida que a cidade tem muito a ganhar”.