Carlos do Carmo: “Estava tão à espera disto como de ir a Tóquio amanhã”

Para dourar o 50º aniversário da sua vida no fado, o fadista receberá em Novembro o Lifetime Achievement Award dos Grammy Latinos. A exposição Carlos do Carmo – 50 Anos, na Cordoaria Nacional, prolongar-se-á agora até final de 2014 e na calha está ainda um documentário sobre a sua vida.

Carlos do Carmo esta quarta-feira na Cordoaria, em Lisboa
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Carlos do Carmo esta quarta-feira na Cordoaria, em Lisboa Sandra Ribeiro
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“Um dos maiores fadistas do seu tempo”, assim lhe chamou a Latin Recording Academy ao anunciar os vencedores de 2014 do Grammy Latino na categoria Lifetime Achievement (Prémio Carreira), terça-feira de manhã. Carlos do Carmo fora notificado de véspera pelo presidente da Academia, Gabriel Abaroa Jr., que passava a partilhar a honra com músicos maiores da música dita latina como Mercedes Sosa, Jorge Ben Jor, Chavela Vargas, Astrud Gilberto ou Milton Nascimento, tornando-se o primeiro músico português a receber um Grammy em reconhecimento da sua obra (o que acontecerá, efectivamente, a 19 de Novembro, no Hollywood Theater, em Las Vegas).

Um presente inesperado em ano de comemoração do 50º aniversário de uma carreira no fado – iniciada quando o popular Mário Simões e o Seu Quarteto desafiaram o jovem cantor a experimentar gravar um fado. Carlos do Carmo, filho da notável fadista Lucília do Carmo, cantava então, por brincadeira, canções brasileiras e norte-americanas, depois de ter passado a infância a ouvir Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga, e ter sido abalroado aos 12 anos pela entrada de Frank Sinatra na sua vida. Nesse dia, saiu-lhe Loucura, o único tema do reportório da mãe que sabia de cor. Na terça-feira, ao pedirem-lhe uma mensagem para dirigir aos seu seguidores no Facebook, ditou: “Deus vos pague. E que o Sinatra tenha gostado”.

É justo dizer-se que este prémio é o corolário perfeito para a comemoração dos seus 50 anos de carreira?

Sei lá… Provavelmente é. Estava tão à espera disto como de ir a Tóquio amanhã. A interpretação que faço é de uma visão colectiva. Não sou o executante de nenhum instrumento e não sou compositor. Em todo este meio século de intérprete fui muito bem servido pelos músicos e pelos poetas, mas conheci os velhos que me ensinaram e que ouvi religiosamente – o Armandinho, o Britinho, o Marceneiro, o Joaquim Campos, o Carlos Ramos, o Tristão da Silva, o Tony de Matos, pessoas que sabiam muito. Penso que posso dizer hoje, sem receio de falhar à verdade, que eles construíram os pilares do que nós cantamos. Portanto, quando um jovem fadista está a cantar, pode – e deve – cantar coisas novas, mas quando canta tradicionais é bom lembrar que foram essas pessoas que o fizeram. Lembro-me dos grandes guitarristas do fado. E quem for à minha discografia estão lá todos, todos me apanharam.

Só lhe faltou o Armandinho.

Porque eu tinha sete anos de idade [quando Armandinho morreu]. Depois, a minha geração é uma geração difícil, fazer a ponte não é fácil. É uma geração mais sofrida, que durou menos, porque ficou sempre entalada entre aqueles nomes gigantescos do fado e o que estaria para surgir e que a gente não sabia o que era. Até que surge fulgurante esta nova geração. Nós criámos-lhes a ponte, deixando-lhes até as prateleiras arrumadas, com o Museu, com o filme do Saura, com a candidatura. Todo o trabalho do ponto de vista científico, se assim lhe quisermos chamar, está elaborado e agora o que importa é defendê-lo com unhas e dentes. O fado não se condói. Tem de se cantar com paixão. Isto é um trajecto muito bonito, mas não vale a pena pôr-me em bicos de pés. Esta coisa da glória é muito vã. E nessas não embarco. Fico contente por todo o carinho, por todo o respeito que têm por mim e o modo como me tratam, mas tenho sempre a sensação, como humano que sou, que se falhar serão implacáveis comigo.

Apesar de partilhar o prémio, para todos os efeitos é-lhe atribuído a si. Não ignora o seu papel na história do fado.

Certo. Recebi uma carta lindíssima em que o presidente da Academia diz que sou neste momento, na opinião dos 16 jurados, um dos seis melhores cantores vivos do mundo. Isso é uma coisa sublime. Se quisesse ser vaidoso, andava aí na rua de peito inchado. Mas é uma grande responsabilidade. Estamos a falar de um cantor de um país que tem dez milhões de pessoas, pequenino, pobre, periférico.

E o que se faz com essa responsabilidade?

Faz-se festa. A música é uma festa. E faz-se o possível, neste momento concreto de que estamos a falar, nestes últimos três a cinco anos, para ser artista em plenitude. Ou seja, ser artista sem perder de vista que se é um cidadão e que se tem de ter uma intervenção cívica. Não tem de se impor nada a ninguém. Há que intervir, porque conheço pessoas que há três anos tinham trabalho e casa, e agora vivem em casa dos pais, vão comer à sopa dos pobres. Isso é insuportável e humilhante. Jovens que se vão embora porque não têm trabalho aqui – é humilhante. Velhos que tinham uma pensão decente para viver o resto da vida e o Estado confiscou-lhes dinheiro. Têm de me explicar este filme melhor porque isto está muito mal explicado. Por isso não me peçam agora que por ganhar o Grammy esteja calado e não faça ondas para não desagradar aos banqueiros e aos patrocinadores. Não me peçam isso. Agora já é tarde.

Como reage então às mensagens de congratulação e louvor por representantes das instituições ligadas a estas políticas?

Não penso que tenha muitas. Recebi uma mensagem do doutor António Costa, do secretário de Estado da Cultura e do secretário-geral do PCP Jerónimo de Sousa. Até agora o foi o que recebi. Quando ganhei o Prémio Goya recebi um telegrama do Presidente Soares, do Presidente Sampaio e do Presidente Eanes. E fiquei muito feliz. Esses são telegramas de que gosto.

Mencionou esse papel de transição entre as grandes referências do fado tradicional e o aparecimento desta nova geração. Em algum momento temeu que o fado tivesse mais passado do que futuro?

Na década de 1980, a década mais dura, perguntavam-me muito se o fado iria acabar. E eu pensava que a Amália estava a cantar e andava por esse mundo fora, eu estava a cantar e andava por esse mundo fora e por cá tínhamos o guardião dos bastidores disto tudo que era o Fernando Maurício. Por isso, pensava: “Isto não acaba, têm é de aparecer miúdos”. Começaram a aparecer e nunca mais parou.

A sua mulher, Maria Judite, o que lhe disse depois de saber do Grammy?

A Maria Judite chorou e ontem, depois de trabalharmos muito, bebemos uns copos e uns nossos amigos deixaram-nos em casa meio cambaleantes. Abusei e se o meu médico lê as entrevistas é uma vergonha. Mas estivemos com amigos queridos e a equipa sensacional que trabalha comigo. Foi uma noite muito bem passada. A Maria Judite tem estado em todas – as boas e as más. Estou a pensar muito seriamente ir agora com ela uma semana para o Algarve, onde não há telefone fixo. Sossego, tranquilidade e descansar. E preparar-me para o que vem aí porque o meu produtor é maluco e já me falou no Carnegie Hall e só posso fazer 12 concertos por ano. O médico não quer que eu faça mais do que 12. Há dois anos fazia 20, 22. Deixar de cantar não, que a paixão é grande, mas um por mês para recuperar. Porque agora quando cantei em Madrid [no Festival do Fado, a 21 de Junho] a minha mulher tirou-me o casaco e era uma sopa. É muito desgastante, é muita entrega. Isto é tipo Brel – não danço, mas o suor fica.

Além desses concertos para que vai sendo tentado, o que pensa ainda gravar?

Não vou fazer segredo disso: tenho uma pasta, um dossiê, com imensas propostas, mas aquilo não tem um ar de Um Homem na Cidade que é um disco temático. O reportório não permite um disco assim. Vou fazer como se fazia dantes no retalho: vou gravar à peça. Os discos não se vendem. Tenho um fado que o saudoso amigo Vasco Graça Moura escreveu há dois anos. E tenho um fado recente que me escreveu o Júlio Pomar. São dois fados sensacionais. Vou trabalhar muito para encontrar as músicas.

Costuma dizer que 95% dos seus fados são para cima. Houve também esse reconhecimento por parte da Academia, que o seu fado não era o da típica desesperança?

Perceberam tudo. Esta coisa das novas tecnologia dá para estudar tudo à lupa. Estou convencido de que até a cor das minhas cuecas eles sabem [risos]. Tudo, tudo, tudo. Curiosamente, com uma grande humildade, pediram-me desculpa. Disseram-me “vocês, portugueses, são culpados, não se mostram, a vossa música não aparece e nós não podemos adivinhar. Pedimos-te desculpa porque este prémio já há muito te devia ser outorgado”. É comovente. Tenho a carta, que irá aqui para a exposição na Cordoaria, e que é lindíssima, muito fraterna, como quem diz “já agora, recebe isto antes que te vás embora”. No outro dia houve um amigo que disse ao doutor António Costa, “devia dar um nome de rua ao Carlos do Carmo”, e o presidente da Câmara respondeu “não me façam isso, deixem o homem estar vivo”.

Em vários meios tem sido repetida a ideia de que o Grammy será o ponto alto da sua carreira. Faz sentido falar de um prémio nesses termos?

Sendo um reconhecimento mundial faz algum sentido, porque Portugal nessa matéria não tem currículo. Não estou a dizer isto emproadamente. Tive muita pena que a Maria João Pires o ano passado e a Mariza há cinco anos não tivessem ganhado o Grammy. Muita pena mesmo. Porque é preciso que ganhemos vários. Mas se isto dá uma luzinha ao fundo do túnel e abre uma porta, encantado da vida, venham os Grammy, habituemo-nos a eles.

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