Famílias traficavam portugueses para a agricultura e construção civil em Espanha

Vítimas eram aliciadas a trabalhar na construção civil e nas campanhas agrícolas espanholas a troco de dinheiro, mas acabavam escravizadas.

Homens trabalhavam nas vinhas
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Trabalhador sentiu-se mal após ter estado mais de seis horas a limpar ervas à volta de umas vides. Foto: Paulo Ricca

Sete suspeitos de tráfico de pessoas, escravidão, rapto e sequestro foram detidos na manhã desta quinta-feira pela PJ no âmbito de uma operação nacional. Os detidos, pertencentes a várias famílias, escravizavam pessoas que angariavam em Portugal para levar para a agricultura e construção civil em Espanha, adiantou ao PÚBLICO fonte da PJ. O esquema, com fins de exploração laboral, funcionava em rede por todo o país.

As buscas decorreram em Serpa, onde foram detidos dois casais, Portimão e em Figueira de Castelo Rodrigo. A PJ visou acampamentos e teve de contar com o apoio de grandes efectivos da PSP e da GNR pelo elevado risco de ser mal recebida. No local, aliás, foram detidos mais duas pessoas pelos crimes de resistência e coacção e posse de armas proibidas. Um deles tinha uma caçadeira.

A investigação, a cargo da Polícia Judiciária do Porto, a única que tem uma equipa especialmente dedicada a inquéritos a situações deste tipo, durava há já algum tempo e deriva da investigação de outros casos semelhantes. Das seis vítimas, entre os 30 e os 40 anos, até agora identificadas algumas já haviam escapado em 2006 e denunciado os suspeitos às autoridades. Porém, outras vítimas que fugiram foram sendo sucessivamente recapturadas pelos suspeitos. A angariação destas pessoas ocorreu em Beja, Faro e na Guarda.

Fonte policial garantiu que os proprietários dos terrenos em Espanha desconheciam que os trabalhadores trabalhavam em regime de escravidão. Pagavam às famílias em causa, com elementos entre os 23 e os 41 anos, mas as vítimas, a quem inicialmente eram prometidos cerca de 40 euros por dia, nunca chegavam a receber qualquer pagamento.

A PJ vai continuar a investigação, em colaboração com as autoridades espanholas, para localizar mais suspeitos e vítimas. A polícia acredita que as próximas diligências venham, como no passado, a revelar ainda mais casos de escravidão. Aliás, este é apenas um dos inúmeros casos investigados neste âmbito pela Judiciária do Porto.  

Dormiam em acampamentos, casas de banho e ao ar livre
Os detidos, que não tinham cadastro, prometiam, além de dinheiro, alojamento, transporte e alimentação. As vítimas, porém, eram depois obrigadas a trabalhar “sujeitas a condições indignas e condicionados na sua liberdade” num quadro de permanente intimidação, “ameaças e maus-tratos”, refere a PJ. Algumas dormiam em acampamentos insalubres, casas de banho e até ao ar livre.

Segundo a PJ, durantes as longas temporadas em que as vítimas estiveram em cativeiro, estavam também impossibilitadas até de tomar banho. Em raras ocasiões, contudo, eram alinhadas para banhos de mangueira.

Os investigadores acreditam que os detidos de agora, que faziam circular as vítimas para trabalho entre várias famílias, se dedicavam a este tipo de exploração há vários anos. As vítimas, muitas com baixa escolaridade e algumas até com défices cognitivos, eram transaccionadas como “mercadoria”, apontou fonte policial.   

Os suspeitos estão ainda a ser inquiridos por um juiz de instrução criminal do Tribunal de Serpa pelo que se desconhecem para já as medidas de coacção aplicadas.

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