Rui Rio pode ser primeiro-ministro? “É o destino que há-de dizer…”

Num almoço-debate, em Lisboa, pediram-lhe que lançasse “uma OPA sobre o PSD”. O ex-presidente da Câmara do Porto sorriu.

Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

Rui Rio falou durante 43 minutos. Contou uma história subtil sobre a nossa crise. Criticou Guterres, foi sarcástico para com Maria Luís Albuquerque, defendeu propostas de António José Seguro. “Temos a carga fiscal mais elevada desde o tempo de D. Afonso Henriques.” “Temos um poder político fraco e desacreditado.” “Acho uma demagogia pedir-se uma maioria absoluta, uma maioria absoluta não chega.”

Qualquer uma das frases anteriores daria um título. E há outras, do mesmo calibre, no improviso que Rio serviu, à hora da sobremesa, a uma plateia selecta do International Club, no hotel Fontana Park, em Lisboa, passava pouco das duas da tarde desta quarta-feira.

Depois de “muitos anos a virar frango”, no Porto, que foram o culminar de outros tantos com responsabilidades no PSD, Rio optou por uma carreira privada, na Boyden, uma multinacional de recrutamento de executivos. <_o3a_p>

Mas é – e, pelos vistos, será – sempre um político. Não parece trazer consigo menos convicções, daquelas que lhe garantem admiradores rendidos e críticos ferozes. No final, prefere sempre “o rumo” ao “ziguezague” e não deixa de reiterar as suas críticas à comunicação social, lamentando que vá “andando por aí, escrevendo o que lhe apetece”. Para início de conversa, Rio deu uma “aula” sobre a crise. E não repetiu as ideias feitas de muitos dos seus companheiros de partido.

“É bom que sejamos justos”, pediu. Não foi nos últimos anos que Portugal cometeu a maioria dos erros: “Na segunda metade da década de 90, perdemos uma oportunidade histórica”, contrapôs. Não foi o tão criticado “viver acima das nossas possibilidades”, foi outra coisa. Na opinião de Rio, a baixa das taxas de juro no período de adesão ao euro, e as receitas das privatizações feitas nos governos de António Guterres deram uma folga, irrepetível, para baixar a dívida pública. E isso não foi feito, criticou.

Do lado da dívida privada, “as famílias deixaram-se levar pela banca”, e são, ainda assim, “as menos culpadas”. As empresas descapitalizaram-se e viveram do crédito barato, sim. Mas é a banca que tem “uma responsabilidade gigantesca” no crescimento da dívida. Se olharmos para a “reforma do Estado”, garante Rio, as responsabilidades “vêm ainda mais de trás”.<_o3a_p>

E agora podia ser diferente? “Podia ser diferente. Mas não era possível ser sem dor”, garante, ao mesmo tempo que distribui críticas ao actual Governo. “Não saímos disto, se não houver crescimento económico”, afirma. E esse só virá das exportações e do investimento, acrescenta. “Este Governo não tem isso bem presente.” Um exemplo: a requalificação urbana, no Porto, é, segundo Rio, um caso de estudo. “Por cada euro investido pelo Estado, os privados investiam 17.” E, mesmo assim, Maria Luís Albuquerque recusou financiar o projecto. “Quando uma ministra das Finanças não vê isto…” <_o3a_p>

Mesmo assim, “foram poucos os erros económicos que se cometeram e muitos os erros políticos”. E este é o ponto, para Rio, apesar de considerar que a sua é uma “opinião francamente minoritária”. Não importa: “Se o rumo é por ali, escusam de me empurrar para o lado, que eu não vou.”<_o3a_p>

“Em Abril de 74 houve um regime que caiu de podre. Tinha 41 anos”, contados a partir da Constituição corporativa. “Este já leva 40. Está podre? Não, não está.” Porém, é "pedir um milagre”, se se espera que o sistema político inaugurado no 25 de Abril vai ajudar a resolver os problemas actuais, defende Rio. “Eu não acredito em milagres”, acrescenta. E como descreve Rio o sistema? “Um poder político fraco e desacreditado”, esse é o “ponto mais crítico”, o que permite “poderes fácticos mais fortes” e “menos democracia”. Para mudar, Rio propõe uma reforma das leis eleitorais, tal como António José Seguro. Mas quer um consenso entre “todos os partidos”, e não só um bloco central. Quer também uma reforma da Justiça e uma responsabilização da comunicação social. Mais, até, do que uma revisão constitucional, que só deve ser feita caso se prove necessária. <_o3a_p>

Na fase das perguntas da audiência, um tema dominou: o futuro político do orador. Quer ser primeiro-ministro? “A questão não se deve colocar dessa maneira”, advertiu. “Não pode ser primeiro-ministro quem não quer ser. Não pode ser primeiro-ministro quem quer aquilo a todo o transe.” Só quem está no meio termo é que pode, portanto. É o caso de Rio? “Encaixo-me no meio, como a maioria.”