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A Sexta de Bicicleta de Fernando Marinheiro

Fernando Marinheiro é mais um automobilista que se converteu às duas rodas, e diz que nada o fará voltar

A sua primeira bicicleta foi uma Órbita vermelha de ciclismo, em ferro, que carregava às costas escada acima escada abaixo a partir do terceiro andar. Na memória ficaram as grandes chuvadas que apanhou e a inédita liberdade. Trinta anos depois, Fernando Marinheiro, operador dum carro de transmissão de televisão por satélite, voltou a carregar a liberdade às costas e a apanhar algumas molhas. É que não encontrou nenhum outro meio de transporte que substituisse satisfatoriamente o da sua adolescência.

Ex-proprietário assumido de um automóvel, conta que a bicicleta lhe trouxe uma gestão mais racional do tempo e que raramente anda apressado. Perdeu o excesso de peso sem deixar de ser um bom garfo, compensa o "mau hábito” de fumar com o exercício, e diz que descobriu os arredores de onde mora e o resto do país por onde já pedalou, duma forma divertida e muito mais abrangente. Andar de bicicleta, como costuma dizer, faz bem ao mundo dele. E, ao dos outros, mal não fará.

Profissão, idade, localização, filhos?

Chamo-me Fernando Marinheiro, 43 anos, sou Técnico Operador de Comunicações, moro em Lisboa e não tenho filhos.

PÚBLICO -
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O que te levou a começar a usar a bicicleta para te deslocares?

A recordação dos tempos da adolescência, em que usava a bicicleta como meio de transporte e uma estadia de trabalho na Alemanha, fizeram com que, há quase dez anos, a bicicleta passasse a ser o meu principal meio de transporte.

De que formas usas a bicicleta?

A bicicleta suprime quase na totalidade as minhas necessidades de transporte. Na rotina diária de ir e vir do trabalho e nas idas às compras, nas viagens em férias pelo país ou numa simples ida à praia, a bicicleta é uma presença constante.

Como te deslocavas antes de teres optado pela bicicleta?

De carro, mesmo para percursos ridiculamente curtos.

Que tipo de bicicleta ou equipamento usas?

Uso uma bicicleta híbrida Sirrus de roda 28, com algumas modificações. Como equipamento uso a roupa do dia-a-dia.

O que muda na tua vida desde que usas a bicicleta?

Deixei de ter todas as despesas associadas a um automóvel, passei a sentir-me muito melhor fisicamente, mas acima de tudo, transformei uma rotina comodista e aborrecida numa viagem sempre divertida e, por vezes, desafiante.

Existem alguns mitos (sobre a utilização da bicicleta) que tenhas vencido?

Os mitos da bicicleta parecem-me, como todos os outros, uma justificação para algo que evitamos enfrentar. Neste caso para a recusa em abandonar a posição de conforto e a sensação de segurança e experimentar uma alternativa, eventualmente mais desconfortável ou arriscada. Mas, asseguro-vos, muito mais divertida e saudável, verdadeiramente responsável.

O que se poderia melhorar nos trajetos que habitualmente fazes?

Nos meus trajetos habituais partilho a estrada com automóveis e peões e nunca tive problema digno de registo, no entanto, a existência de ciclovias tornaria tudo muito mais fácil, agradável e seguro. Já seria muito bom termos o piso das estradas em condições. Um momento em que te sentes mesmo bem a andar de bicicleta Ao fim do dia, no regresso a casa, num troço de estrada fechado aos carros, que atravessa um verde campo.

Uma pessoa da praça pública que gostarias de ver a andar de bicicleta e porquê?

Julgo que a causa da bicicleta como meio de transporte alternativo não necessita do patrocínio de uma figura pública a fazer pose de circunstância. Acredito que todas as pessoas que utilizam a bicicleta normalmente, como meio de transporte, estão a comunicar essa ideia de uma forma muito mais eficaz.

O que tens a dizer a quem diz que andar de bicicleta na cidade é impossível?

Repetiria, com uma gargalhada, a frase de Jean Cocteau: “Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez”.