Quando os bons se viraram contra os seus

Quase 40 anos depois, ninguém sabe quantas pessoas morreram no massacre do 27 de Maio de 1977 em Angola. No livro Em Nome do Povo — O massacre que Angola silenciou, a jornalista inglesa Lara Pawson reúne dezenas de testemunhos

Ao fim de anos e anos de investigação, Laura Pawson considera frustrante não ter conseguido sequer aproximar-se de uma estatística verosímil do número de mortos do 27 de Maio de 1977
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Ao fim de anos e anos de investigação, Laura Pawson considera frustrante não ter conseguido sequer aproximar-se de uma estatística verosímil do número de mortos do 27 de Maio de 1977 Sandra Ribeiro

Foi um processo lento. Lara Pawson começou a trabalhar no seu livro, Em Nome do Povo — O massacre que Angola silenciou, no final de 2005 — acabou apenas em 2012. Anos marcados por dificuldades de acesso a informação e a fontes por e dúvidas sobre se teremos nós, europeus brancos, o direito de trabalhar a história africana, sobretudo um momento como o 27 de Maio. Correspondente da BBC no Mali, na Costa do Marfim e em São Tomé e Príncipe entre 1998 e 2007, Pawson trabalhou em Angola entre 1998 e 2000, tendo voltado pela última vez em 2008. Fala num país de “profundidade especial”, “um sítio incrível” marcado, porém, pela “cultura do medo” de um regime que diz ter esquecido a autocrítica inscrita nas suas raízes marxistas.

A certa altura da sua narrativa, questiona-se porque terá decidido escrever este livro. Já sabe dizer?

Antes de mais, porque fiquei estarrecida com as histórias de João Van Dúnem, meu colega na BBC, e também da primeira viúva que aparece no livro, Maria. Senti que eles mereciam ser ouvidos. E achei que se havia duas histórias como estas, então haveria certamente mais. Por outro lado, confrontei-me com a estranheza de ninguém saber o que aconteceu ao certo. Uns diziam que tinha sido uma manifestação, outros, um golpe de Estado. Suponho que isto pareça antiquado, mas comecei a querer saber a verdade... A terceira motivação foi ser inglesa, ser de esquerda, sempre ter sido politicamente activa nesse campo — e quando olhava para o que os intelectuais britânicos de esquerda como Basil Davidson escreveram, só via o lado da história do Politbureau do MPLA. Fiquei zangada com isso, porque essas versões não falam dos massacres, não falam das pessoas mortas — falam apenas de Nito Alves, este dito “negro racista”. Achei que havia ali outra história de que ninguém estava a falar.

O estilo de narrativa por que optou permite-lhe congregar no livro muitos pontos de vista divergentes. Qual é a sua tese pessoal sobre o 27 de Maio? Acha, por exemplo, que foi uma manifestação ou um golpe de Estado?

Ambos. É um erro insistir na ideia de que foi um ou outro. As pessoas mais velhas do Sambizanga, por exemplo, e amigos cujos testemunhos não estão no livro juram-me ter participado numa manifestação pacífica. Não pensaram nem por um segundo estar a participar num coup. Por outro lado, se se envolve uma parte do Exército, a 9ª Brigada, que entra na prisão de Luanda para libertar prisioneiros políticos, e se membros da Rádio Nacional tomam conta de um programa para passar certas mensagens a nível nacional, há uma tentativa de tomar o poder. E certos “fraccionistas” ou “nitistas”, como se lhes queira chamar, queriam de facto tomar o poder. Talvez não quisessem matar Agostinho Neto — e percebo o argumento do falecido João Van Dúnem, que dizia que se não mataram o presidente era porque não queriam um golpe de Estado... —, mas há muitas maneiras de depor um presidente. Pode ser preso, obrigado ao exílio... Em suma: ambas coisas aconteceram: uma manifestação e um golpe.

O medo dos entrevistados está em toda a sua narrativa. Temem falar, ainda hoje. É paranóia ou mais do que isso, perigo real?

Uma vez mais: provavelmente ambos. Por exemplo, em Londres, achei ridícula a mulher que acreditava que estávamos a ser seguidas. Mas sei que há bufos em Londres que seguem as pessoas, ouvem o que dizem e reportam a Luanda. Portanto, é realmente possível [que estivéssemos a ser seguidas]. E tenho amigos [angolanos] a viver em Londres que não vêm ao lançamento dos meus livros com medo de isso afectar as suas ligações a Luanda e às suas famílias. A alguns, que têm passaportes portugueses, foi dito que se me apoiassem a mim ou a este livro não poderiam voltar a Angola. Portanto, para os que vivem fora há um medo real. Em Angola há um risco efectivo. Algumas das pessoas que nos últimos anos têm organizado vigílias no 27 de Maio foram mortas. Na última manifestação houve pessoas espancadas, presas, torturadas... É complexo: para um Estado como o angolano, uma das formas de funcionar é a ideia de controlo. Mesmo que não haja controlo sobre todos os aspectos das vidas das pessoas, persiste a ideia de que há. Até eu, quando estou em Angola, acho muito difícil não me ver também engolida por isso.

De que forma?

Esperamos que as nossas chamadas telefónicas sejam ouvidas, sentamo-nos num bar e habituamo-nos à ideia de que estão a ouvir as nossas conversas... Pode parecer absurdo, mas, na minha viagem para Lisboa, olhei para o homem sentado ao meu lado no avião e pensei: “Meu Deus, cá vamos nós, mais um bufo...” Se calhar era só um tipo simpático, mas houve qualquer coisa que me fez pensar: “Quem é este homem? Posso dizer-lhe quem sou? Podemos falar sobre o 27 de Maio? Ou é melhor sentar-me e não dizer nada?” Decidi sentar-me sem dizer nada. Em Angola, há uma cultura de autoritarismo soviético. Algumas das figuras séniores do MPLA foram treinadas pelo KGB e pela Stasi. Criaram uma cultura de medo em que realidade e paranóia se alimentam uma da outra.

Apesar das suas críticas, no livro confessa que teria lutado pelo MPLA nos anos 1970...

Em 1977 eu tinha nove anos. Se tivesse 29, fosse jornalista, trabalhasse em Angola e tivesse as convicções políticas que tenho hoje, provavelmente teria aderido ao MPLA da mesma forma que a esquerda britânica e portuguesa da época — teria acreditado que era o grande movimento de libertação a lutar pela justiça, pela igualdade e pela liberdade do povo de Angola. É bem possível que tivesse sido um dos marxistas britânicos que fecharam os olhos ao que se passava nos bastidores. Quando digo que gostava de ter lutado pelo MPLA, o que estou a fazer é ser empática com britânicos como Basil Davidson, Victoria Brittain... Havia todo um grupo de [marxistas] britânicos envolvidos na criação da propagando do MPLA e provavelmente eu teria feito o mesmo. Acho que o 27 de Maio é uma espécie de aviso de que quando depositamos esperanças em movimentos revolucionários não podemos tornar-nos míopes, temos de manter um nível de autocrítica. Aliás, é parte da própria ideologia do MPLA: a autocrítica. Mas hoje ela não é exercida. Neste momento, basta a sugestão mais vaga de uma crítica e o MPLA põe-se aos saltos! As pessoas na embaixada angolana em Londres já me disseram que o meu problema é odiar Angola. Ou seja, criticar o MPLA é odiar Angola. É absurdo! A ideia de que o MPLA é Angola é, no mínimo, arrogante.

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Ao fim de anos e anos de investigação, Laura Pawson considera frustante não ter conseguido sequer aproximar-se de uma estatística verosímil do número de mortos do 27 de Maio de 1977 Sandra Ribeiro

Há muitas versões diferentes sobre a escala do 27 de Maio e o número de mortes a ele ligadas. Um dos números no seu livro é a versão de João Van Dúnem: 25 mil pessoas. Tem dados para apontar um número próprio?

Não. É uma crítica que me têm feito: como é que esta mulher se pode auto-intitular jornalista de investigação quando chega ao fim do livro e nem sequer conseguiu descobrir quantas pessoas morreram? É uma pergunta justa. Realmente, não sei. Foram duas mil ou 20 mil? O [Francisco Fernando da] Costa Andrade, director do Jornal de Angola em 1977, disse-me que o ministro da Defesa [de então] lhe falou em duas mil pessoas. Iko Carreira podia estar a mentir. Sendo ministro da Defesa, é provável que estivesse a minimizar. Terão sido três, quatro, cinco mil pessoas? Dez mil pessoas? O que acho é que nem toda a gente foi morta em obediência a ordens oficiais — algumas pessoas foram mortas por antigas vinganças, por exemplo. E parece-me que não há prova sobre o número real de mortes. Pessoas como o João Van Dúnem diziam que toda a 9ª Brigada foi morta, toda a JMPLA... Claramente, nem toda a 9ª Brigada foi morta, porque entrevistei dois antigos membros para o meu livro. E é possível que outros estejam vivos, talvez muitos... Por outro lado, pessoas que diziam que 50 mil pessoas tinham morrido e afirmavam ter listas, depois, afinal, não tinham... Houve [mais de] três décadas para fazer estas listas, mas ninguém as fez! Tenho de admitir que comecei a pensar que talvez tudo tivesse sido exagerado, que talvez tenham de facto sido duas mil ou três mil pessoas…

É só por si um número enorme. São duas mil pessoas...

É o que eu acho. Mesmo que tenham sido “apenas” duas mil pessoas, são muitíssimas pessoas. Segundo uma amiga chilena, jornalista, que viveu durante o regime de Pinochet e cujo pai era de direita, o número de pessoas mortas no Chile rondou as 3.500 a quatro mil. Ora, o mundo inteiro sabe quão brutal Pinochet era. Em Angola, um pequeno golpe, para mais falhado, levou à morte de duas a três mil pessoas? Que tipo de regime faz isso ao seu povo? A minha perspectiva é: mesmo que acabemos por descobrir que “apenas” duas mil pessoas foram mortas, é ainda um evento muito sério e que deve ser levado muito a sério. Não creio que se deva minimizar o seu significado. E acho que os sobreviventes e as famílias das vítimas não devem ter medo da verdade. Três mil pessoas são três mil pessoas a mais. Mesmo 500 pessoas… Digamos que foram “apenas” 500 pessoas — é um número enorme, sobretudo se pensarmos no reduzidíssimo número dos que lideraram o movimento. E mesmo esses — deveriam ter sido mortos? Acho que não. Uma das coisas que os defensores de Agostinho Neto e Lúcio Lara dizem é: “Bom, eles mataram os nossos homens em Sambizanga.” Houve seis homens mortos em Sambizanga. De novo: são seis vidas. Importam. Mas comparam-se com duas mil?

Consideremos que esse golpe ou manifestação pró-“nitista” tivesse sido bem-sucedido. Angola seria hoje um país diferente?

Não sei. Sou um bocado céptica. Parece-me que, infelizmente, que as pessoas se vêem corrompidas sempre que obtêm poder. Eu ficaria muito surpreendida se Nito Alves tivesse sido um líder exemplar. Não vejo exemplos de quaisquer revolucionários ou quaisquer líderes que, ao chegarem ao poder, não se tenham corrompido. A única esperança, acho, era que com o “Monstro Imortal” e José Van Dúnem talvez o MPLA tivesse feito mais por resolver os problemas criado pelo colonialismo, questões de classe e raça. Para mim, uma das deficiências do MPLA é ter-se recusado até hoje a enfrentar os problemas de hierarquia racial e classe. Algumas pessoas dizem que Nito Alves era um populista e apenas por isso falava de raça. Talvez. Mas há problemas reais de hierarquias racializadas. As referências culturais das elites do MPLA olham todas para a Europa e, para a vasta maioria do povo angolano, isso é um enorme problema. Há um lado da retórica do Nito Alves que me atrai. Acho que muitas das ideias do [Frantz] Fanon [autor de Os Condenados da Terra e Pele Negra, Máscaras Brancas] têm muito a dizer sobre Angola e a libertação do colonizado que, lá, não aconteceu. O MPLA tem responsabilidades aí.

Passaram-se 39 anos desde a independência. Quando começará esse processo? Ou acontecerá apenas com uma mudança no regime?

Não me parece que vá haver uma mudança no regime nem me parece que esse processo vá acontecer. Mas não digo isso apenas sobre Angola. Se me perguntarem “Achas que o Governo britânico vai passar a tratar as pessoas justamente?” respondo que não — na Grã-Bretanha, caminhamos para um período de políticas de extrema-direita. E não acho que o MPLA seja diferente. O MPLA, o presidente José Eduardo dos Santos e o seu círculo de homens e algumas mulheres ridículos fazem parte de uma elite internacional que não se interessa pelas vidas das massas populares.

O cenário que descreve está muito longe da ideologia marxista na base do MPLA.

Completamente! São absurdos. Quando em vivia em Angola recebia e-mails de marxistas britânicos a atacarem-me por escrever aquilo que considerava ser a verdade da guerra civil. A guerra acabou, mas, ainda hoje, se se ataca o MPLA é-se acusado de ser da UNITA.

Essa polarização já existia nos anos 1970. Nessa altura, para a esquerda internacional, não seria praticamente impossível chegar a uma leitura distanciada da UNITA devido às ligações desta aos Estados Unidos?

Acho que é verdade. Definitivamente. A esquerda portuguesa apenas tinha olhos para o MPLA, até porque os seus líderes, como Agostinho Neto, tinham um longo historial com Portugal, onde tinham estudado e vivido. Havia um capital cultural partilhado.

A esquerda internacional estava certamente muito mais disponível para fechar os olhos aos erros do MPLA do que aos de uma UNITA, por exemplo...

Concordo completamente. Mas acho que não tinha apenas a ver com as ligações da UNITA à CIA e à África do Sul, ou com as ligações da FNLA à CIA e ao presidente Mobutu [da República Democrática do Congo, então Zaire]. Também havia questões culturais. A FNLA e a UNITA não olhavam da mesma forma para a Europa. Entre as pessoas do MPLA há uma certa vergonha de ser africano, uma vergonha de falar línguas africanas, de gostar de música local. Preferem ser cristãos que usam faca e garfo — as ideias de “civilização” europeias. Devido aos seus [inferiores] níveis de contacto com a Europa, os movimentos políticos do chamado interior do país não tinham as mesmas questões de identidade. Se fosse generalizar, diria que os europeus gostam muito de Luanda porque ela não nos ameaça. É muito mais complicado estar numa cidade como Lagos [na Nigéria] ou num país como o Senegal. Na África Ocidental há um sentido muito forte de africanidade, a vida não é facilitada aos europeus. Em Luanda, há qualquer coisa que faz com que não tenhamos de nos sentir muito culpados com o nosso passado. Nos marxistas que entrevistei para o livro, em geral, uma das cegueiras é face à sua própria maquilhagem racial. Victoria Brittain, uma muito bem-sucedida e muito brilhante jornalista, fala de Iko Carreira e Lúcio Lara com quase um sentido de desejo. Mas não podemos esquecer que estes são angolanos mestiços e brancos. E isto importa! Quando se entra nos musseques de Luanda, as pessoas falam de raça, falam dos brancos, dos mestiços... Já nas áreas ricas, ouve-se falar de racismo negro ou seja, de racismo dos negros contra os brancos e mestiços, nunca sobre o racismo de pessoas mais claras contra pessoas de pele mais escura. É uma das minhas frustrações com Angola: nãos se discute o legado das hierarquias raciais. Como se as questões de poder não tivessem nada a ver com as questões de raça.

Essa negação terá a ver com a forma como o poder foi distribuído pelos diferentes grupos étnicos?

Fala-se na etnicidade do poder, fala-se até em tribalismo, uma palavra que odeio... Não acho assim tão importante. O que acho mais importante para o 27 de Maio são as consequências culturais e raciais do colonialismo. O que não é um problema apenas do colonialismo português. Basta pensar no horror do colonialismo britânico...

Com a publicação do livro chegaram-lhe novos testemunhos do 27 de Maio?

Sim! É frustrante, mas também incrível. Acho que vou fazer a minha própria lista de mortos. Estamos a lidar com traumas ainda muito vivos. Um amigo que viveu o 27 de Maio liga-me a cada capítulo que lê. Diz que percebeu agora o que aconteceu com muitos dos seus vizinhos que achava que se tinham mudado para Portugal. Acho que o meu livro pode contribuir para abrir um debate. Só espero que não cause mais dor. Tenho muita noção de que este é um tema muito doloroso. Uma pessoa fez-me uma pergunta que considero muito importante: “Houve muitos massacres terríveis em Angola, porque achas este tão importante para a chamada ‘cultura do medo’?” Não se pode negar a história de brutalidade no país por séculos, mas o que acho que é tão peculiar no 27 de Maio é que foi perpetrado por um partido que prometeu libertação, justiça. Eles eram os bons. Incluindo os cubanos. Em parte explica porque é que o 27 de Maio tomou as suas proporções quase míticas: foi perpetrado por esta grande força libertadora que, depois, se virou contra os seus. Foi o silêncio imposto que o tornou num mito.