Crítica

Música para um padrinho ausente

Joana Gama e Luís Fernandes usam o piano natural e adulterado para inventar um espaço em que a música erudita e a electrónica exploratória coexistem. John Cage, sem o saber, dá a bênção a Quest

Foto

Quase como numa mesa de operações, Joana Gama inclina-se para dentro do piano e arrepanha-lhe as cordas como quem puxa tendões e nervos, desenhando uma música tensa entre o silêncio, enquanto Luís Fernandes se serve desses sons extorquidos ao piano para os processar e os devolver irreconhecíveis.

Na mesa de electrónica de Fernandes, assistimos a tudo, a cada movimento cirúrgico, muitas vezes pouco perceptível ou difícil de traduzir nos sons que alternam entre a obsessão circular e sombria (via Satie) e a delicadeza rarefeita. O vídeo, como se verá hoje no Teatro Maria Matos, em Lisboa, existe para ajudar a balizar a abstracção, permitindo destrinçar que, apesar da aridez aparente, a música de Quest é produzida com minúcia, pensada para um efeito em que o belo se apresenta rente ao chão, sem grandes voos, obrigando a focar na simplicidade, no pormenor, na qualidade de sons que se procuram ininterruptamente.

É música assente no encontro entre um piano de postura erudita contemporânea e uma electrónica sem medo de se confrontar e de se definir em função do piano — instrumento sóbrio, intimidatório, capaz de subjugar facilmente todas as notas em seu redor. Faz pensar naquilo que Alva Noto e Ryuichi Sakamoto têm ensaiado com notável cumplicidade. Mas o padrinho oficioso de Quest é John Cage. Chamados a apresentar-se nas celebrações do centenário do nascimento de Cage organizadas em Outubro de 2012 pelo Maria Matos (100 Cage), os dois músicos bracarenses haveriam de encontrar-se na sequência de um primeiro momento de estranheza experimentado pela pianista ao ler o descritivo colocado junto à instalação 33^4 — 1185921 possibilidades para 4 altifalantes: “Luís Fernandes, Braga”. “Mas como é que pode haver um músico em Braga que gosta de John Cage e eu não sei quem é?”. Não é presunção de Gama. Cage não costuma escapar-se muitas vezes para lá das habituais salas do Conservatório Calouste Gulbenkian da cidade. Com amigos em comum, encontraram-se, pouco depois, para discutir uma eventual colaboração entre a associação dela e o festival dele. E no final da conversa, em frente ao Theatro Circo, já em jeito de despedida, pensaram no que aconteceria se a música de um tomasse de assalto a do outro.

Antes que a ideia pousasse naquele lugar onde elas se amontoam e definham lentamente, Luís (membro dos Peixe:Avião e Astroboy na sua vida electrónica solitária) não demorou a dar carne e corpo concreto a uma possibilidade ainda embrionária. Pensando que o Theatro Circo poderia ser o espaço ideal para testar a parceria, dispondo de piano e condições acústicas para a exploração sonora corresponder às necessidades do duo, avançaram com uma proposta: em troca dessa cedência laboratorial, comprometiam-se a pagar a sua estada com um concerto. A direcção aceitou sem ouvir uma única nota e empurrou os dois para o projecto Quest, um conjunto de oito temas próprios e uma interpretação de Dream, peça de Cage em que ela segue a partitura e ele inventa um rasto para as notas. Embora a pianista não estivesse ainda a pensar num lançamento, na cabeça de Luís (também membro da editora Pad) estava já a fervilhar a consumação do encontro. “Quando me meto numa coisa destas não é para experimentar por experimentar”, garante, “mas para levar até algum lado. E tive sempre a ideia de gravar. Nem que fosse para ficarmos com material a trabalhar posteriormente.”

A primeira autoria

Assim, enquanto ensaiavam e compunham a música para o espectáculo no Theatro Circo, gravavam todas as sessões, documentando o processo ao mesmo tempo que percebiam os caminhos que naturalmente se desenhavam à frente dos dois. E há de tudo — da fantasmagoria com que arranca o disco em Twisted movements à chuva de notas crepitosas do piano no inebriante Sparks and crackles e aos círculos desenhados pelas mãos de Joana Gama através de motivos melódicos simples e que se desenrolam sobre os mantos de Luís Fernandes, próximos de batimentos cardíacos e de ventos pesados, nocturnos. Enquanto criavam este mundo, tocante na sua construção em torno do silêncio, Joana resistia ainda a acreditar que daqui pudesse nascer um álbum. “Foi a primeira vez que fiz uma coisa autoral”, confessa, acrescentando que há escassas semanas se inscreveu na Sociedade Portuguesa de Autores, uma vez que a sua prática era, até agora, a interpretação de música escrita, com predilecção por autores contemporâneos, fora do cânone, menos desgastados por tanto dedo nas suas obras. “Tenho feito várias coisas fora da música clássica com dança e teatro, umas musiquinhas com amigos, mas nunca tinha feito algo do nada. Tinha um bocado de receio do que podia sair, mas estava bem acompanhada.” “A Joana vem de um campo mais clássico, não lhe faz tanto sentido compor”, contrapõe Luís. “Talvez eu, pelo contrário, banalize isso.”

Para o encontro foi determinante a curiosidade natural pelo universo alheio. Luís confessa ter em Arvo Pärt e Steve Reich, por exemplo, autores de referência. “Mas tenho mais curiosidade até em ler sobre eles porque gosto de perceber como a música evoluiu no século XX, na área da composição, e porque gosto de dar mais fundamento às coisas que componho”, acrescenta. Joana deixa-se com frequência seduzir pela relação da música com outras disciplinas — trabalhou com o Útero, com a coreógrafa Tânia Carvalho e com o realizador João Botelho. A partir daí, estipularam apenas uma regra: “fugir do Noto/ akamoto”. Porque são fãs o suficiente da dupla para recear seguir por atalhos e não à descoberta dos seus próprios trilhos.

Depois desse enunciado simples, a música desenrolou-se sem atropelos nem grandes conversas e só emperrou no momento de baptizar os temas: alguns futebolistas do Benfica — Neno, Poborsky, etc. — foram títulos provisórios. Aos poucos, com o projecto a buscar no padrinho John Cage o nome Quest, estabelecendo o perímetro exploratório da sua criação, tudo foi ganhando um sentido para lá dos futebóis e fixou-se uma linguagem de deslumbrantes possibilidades. Tanto que, numa recente visita a Nova Iorque, Joana deu por si a gravar o som de umas escadas rolantes em Brooklyn e a pensar na música que ali se prenunciava. Não admira — muito em Quest segue este mesmo movimento de loop, em que o fim se confunde com o início.