Dor crónica custa mais de 4600 milhões de euros por ano em Portugal

Estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto estimou valores de problema que afecta 30% dos adultos. Custos indirectos, como reformas antecipadas e absentismo, são os que mais pesam na factura.

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Miguel Madeira

Um doente com dor crónica custa, em média, quase 1900 euros por ano. O problema afecta sobretudo idosos, mas também uma grande parte de pessoas entre os 45 e os 60 anos, pelo que os custos indirectos com a doença, nomeadamente com as reformas antecipadas e o absentismo, acabam por ultrapassar os custos directos com medicamentos e serviços de saúde. Ao todo estima-se que, anualmente, Portugal gaste 4611 milhões de euros com a dor crónica, de acordo com um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que aponta para que só 1997 milhões sejam de despesas directas.

As principais conclusões do estudo que começou em 2008 e que será apresentado no sábado, em Oeiras, no Fórum Futuro 2014, foram antecipados ao PÚBLICO pelo investigador principal do trabalho, Luís Azevedo, que adiantou que os dados mostram que os custos indirectos por cada doente representam 57% do total. “Esta é a primeira vez que se descreve em Portugal, de forma precisa, o enorme impacto dos custos directos e indirectos da dor crónica o que é fundamental para consubstanciar a rede do programa estratégico da dor no país”, acrescentou o investigador, lembrando que as estimativas apontam para que 30% dos adultos sejam afectados pelo problema.

“A dor crónica tem um grande impacto tanto a nível individual como social, e torna-se especialmente relevante ao atingir as pessoas entre os 45 e os 60 anos, idades em que a perda de trabalho dificulta o regresso ao mercado e leva a aposentações antecipadas”, alertou Luís Azevedo, que disse que a falta de conhecimento sobre o problema leva a que “sejam os próprios doentes a não procurarem ajuda cedo e a não fazerem o tratamento adequado”.

No estudo, nos custos directos foram incluídas as despesas relacionadas com consultas, exames, tratamentos e medicamentos para a dor. Já nos custos indirectos entraram parcelas como o absentismo, as reformas precoces e a perda de emprego. A redução da produtividade por afastamento do local de trabalho foi calculada tendo como base o número de dias perdidos e o rendimento diário nacional de cada classe específica. Somados os dois valores, sublinhou o investigador, a verba ascende já a 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Os dados foram recolhidos com base numa amostra inicial representativa da população portuguesa e composta por 5094 pessoas. Na amostra foram identificadas as pessoas com dor crónica e 562 aceitaram integrar a segunda parte do trabalho que detalhou as pessoas afectadas e respectivas despesas. “Os custos associados à dor crónica observam-se naturalmente de forma mais elevada em quem tem a doença com mais intensidade. Mas também percebemos que os custos são significativamente maiores nas mulheres, aliás quase o dobro do que nos homens, e que a dor crónica afecta mais as populações vulneráveis, desde reformados a indivíduos com menor escolaridade e menores rendimentos”, precisou Luís Azevedo.

Esta doença caracteriza-se por uma dor recorrente ou persistente e que dura há mais de três meses, mesmo depois de curada a lesão ou doença que a originou. As causas mais frequentes da dor crónica são doenças como lombalgia crónica, a osteoartrose, as cefaleias e a artrite reumatóide. No topo da lista, destacou Luís Azevedo, surgem precisamente as doenças osteoarticulares, dando como exemplo a dor lombar, as patologias da coluna vertebral, do joelho ou do ombro.

O estudo surge quando no final de 2013 foi aprovado o Plano Estratégico Nacional de Prevenção e Controlo da Dor, que realçou a importância de se entender a dor como um quinto sinal vital e que veio defender a importância de se controlar a mesma e de proporcionar aos doentes um tratamento diferenciado. O plano tem como principal objectivos reduzir os casos em que a dor na população não está sequer controlada, para melhorar assim a qualidade de vida das pessoas e gerir de melhor forma os custos associados a esta doença.

Para isso, no plano são definidos grupos com necessidades específicas, como as crianças, os idosos e os doentes críticos, assim como é estabelecida a necessidade de rever as orientações técnicas para o tratamento da dor crónica, acompanhar a sua aplicação no terreno e sensibilizar e formar os profissionais de saúde para que saibam proporcionar as respostas adequadas.

Luís Azevedo espera que o estudo que liderou contribua para este plano e para a reformulação do tratamento da doença com o reforço da aposta na prevenção e no diagnóstico precoce, sobretudo numa altura de fortes restrições orçamentais no país, que também afectam o sector da saúde: “Nós vamos ter no futuro as mesmas restrições económicas e financeiras que temos agora e que têm consequências no tratamento mais diferenciado. Mas tendo em conta a magnitude do problema, a chave para a gestão mais adequada da dor crónica está nos cuidados de saúde primários, que são onde temos a primeira linha de contacto com o doente e a oportunidade de apostar na prevenção e detecção atempada desse problema”.

Ainda assim, o também médico clarificou que a mudança de paradigma permitirá reduzir a factura de custos indirectos, mas com uma necessidade de aumento dos custos directos – já que a ideia é que as pessoas tenham mais acompanhamento e resposta por parte dos serviços de saúde para que recuperem a sua actividade e qualidade de vida.