Os intelectuais de direita estão a sair do armário

Uma nova direita assaltou o espaço público e mediático, onde a esquerda tem tido hegemonia, desde 1974. Quem são e o que caracteriza os protagonistas desta nova cultura?

Tudo começou com os blogues, depois uma série de cronistas que se instalaram nos media tradicionais, publicam livros, fazem conferências, comentam na televisão. Agora o Observador, um projecto editorial com tendência de direita assumida.

O tema deste sábado era o Socialismo, o conferencista um homem de direita, jovem, magro, circunspecto e formal, de fato escuro e óculos de massa, sozinho no estrado, atrás de uma grande secretária. O auditório, no Centro Cultural de Belém, estava repleto.

João Pereira Coutinho foi convidado para proferir esta série de conferências sobre regimes políticos por Vasco Graça Moura, talvez o mais eminente intelectual de direita da sua geração, desaparecido em Abril deste ano. Mas nem o então presidente do CCB teria podido prever o êxito da iniciativa. Ou sim. Talvez ele, a quem até os elogios fúnebres estranharam o facto de, com a sua inteligência e cultura, não ser um homem de esquerda, tivesse trabalhado conscientemente para deixar discípulos.

Na palestra, Pereira Coutinho descreveu o marxismo de uma perspectiva de historiador de direita, sem deixar por isso de ser rigoroso. Marx reivindicava a cientificidade do materialismo histórico e no entanto falhou toda a sua antevisão do futuro, disse ele. Já na fase das perguntas, um homem na audiência observou que Vítor Gaspar e os economistas neoliberais também não acertaram em nenhuma previsão.

Ambas as conclusões são verdadeiras e a constatação histórica disso mesmo não foi isenta de consequências: com a queda do Muro de Berlim e da União Soviética, a esquerda sofreu um abalo, na Europa e no mundo, e no entanto libertou-se, modernizando-se e adaptando o seu ideário. Da mesma forma, a direita liberal não deixou de ser afectada na sua credibilidade pela crise económica iniciada em 2008, com a desregulação dos mercados e consequentes abusos. Ao mesmo tempo, a crise ofereceu-lhe uma certa liberdade criativa.

António Araújo, historiador e autor de um ensaio sobre a cultura de direita em Portugal, explicou-nos que a crise veio roubar ilusões de cientificidade à Economia. É uma disciplina que “andou décadas a cultivar um estatuto próximo do das ciências exactas, com estatísticas, modelos matemáticos, etc.”, disse Araújo. Agora, a Economia foi obrigada a reconhecer o carácter ideológico das suas teorias.

A direita do liberalismo económico foi penalizada pela crise, na sua presunção de seguir modelos e práticas económicas comprovadas, rigorosas, não ideológicas. Mas abriu-se o campo para uma direita mais ideológica, mais intelectual e mais variada.

Novos gurusO conservadorismo é uma das correntes ideológicas que estão a fazer o seu caminho entre as novas gerações da direita portuguesa. Um conservadorismo teórico, fundamentado e assumido, é isso que João Pereira Coutinho descreve no livro intitulado Conservadorismo, que acaba de lançar, pela editora Dom Quixote. É um ensaio sobre o filósofo irlandês Edmund Burke e uma das obras que estão a fazer furor entre a nova intelectualidade de direita.

Além dos livros que estão a ser editados, ou reeditados, uma série de jovens cronistas e analistas de direita está a ocupar o espaço público na imprensa e nos canais televisivos. João Pereira Coutinho, Henrique Raposo, Pedro Mexia, João Miguel Tavares ou Pedro Lomba são nomes que nos últimos anos ascenderam a um estatuto de estrelato até então reservado aos intelectuais de esquerda. 

Figuras das gerações anteriores, como Rui Ramos ou até Jaime Nogueira Pinto têm ganho mais exposição mediática, jornalistas e cronistas e intelectuais de direita criaram blogues, alguns muito populares, e surgiu um novo jornal, totalmente online, com tendência assumidamente de direita, o Observador.

Algumas novas bandas de música também se posicionam à direita. Caso de Manuel Fúria e de Tiago Cavaco. A cultura de direita está finalmente a ocupar o seu espaço. O anátema que existiu desde o 25 de Abril de 1974 parece estar a desaparecer.

Os novos gurus expõem as suas teorias e comentam a realidade sem pejo e com uma agressividade que só era costume brotar das penas de esquerda. E têm muitos seguidores. 

Ser de direita já não provoca confrangimento nem má consciência. Não significa necessariamente defender os privilegiados, ser socialmente insensível, retrógrado e reaccionário. Nem sequer o conservadorismo dos costumes. Ser de direita já não é um sinal de inferioridade intelectual, nem de indiferença à injustiça, ódio à mudança, ou pertença às classes altas. Pelo menos é isto que acham os novos arautos da direita. Por ser de direita, já não perdemos os amigos. Já não nos caem os parentes na lama.

E tudo isto é novo. A esquerda tem sido hegemónica nos media, na cultura. Para nem falar da política, onde os partidos mais à direita se dizem centristas ou sociais-democratas. De certa forma, ser de direita é uma vergonha, quase um crime. Para muitos, algo inconfessável. Há coisas que as pessoas de direita dizem entre si, mas nunca em público, admitiu o politólogo Jaime Nogueira Pinto, que esteve uma década exilado, depois do 25 de Abril, e continua a dizer, a brincar, que é “o fascista de serviço”.

Pereira Coutinho explicou: “Ninguém quer ser conotado com o regime autoritário salazarista. A direita tem sido identificada com esse regime, não conseguiu emancipar-se disso.” A esquerda tem-se encarregado de fazer esta identificação, mas a capacidade da direita para se libertar também não tem sido brilhante. Muitas vezes, a hegemonia da esquerda e a caricatura que esta faz da própria direita, conotando-a com o salazarismo, funciona como uma desculpa da direita para “esconder as suas fragilidades e a incapacidade de construir um projecto cultural alternativo, que nunca teve”, disse António Araújo.

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João Pereira Coutinho acaba de editar Conservadorismo pela Dom Quixote Paulo Pimenta
Nacionalistas revolucionáriosO equívoco surge logo no 25 de Abril. Tal como 1989 abalou a esquerda, que era hegemónica na Europa desde 1945 (com a derrota do nazismo e fascismo), 1974 quase extinguiu a direita em Portugal. A ditadura era de direita, portanto o novo regime seria de esquerda.

Jaime Nogueira Pinto, que era de direita antes do 25 de Abril e continuou a sê-lo depois, explica como tudo aconteceu: “A direita, melhor ou pior, governou Portugal durante 48 anos, de um modo autoritário. Primeiro com a ditadura militar, depois com o Estado Novo, de Salazar e Caetano. A esquerda veio a seguir e fez o que as esquerdas sempre fazem: proibiu a direita.”

Quem tinha alguma ligação ao antigo regime foi banido. Curiosamente, os que não tinham, ainda que, no tempo de Marcelo Caetano, se situassem à direita dele, foram aceites. Nogueira Pinto referiu casos de pessoas que se incompatibilizaram com o antigo regime, por o considerarem “esquerdista”, e que foram por isso convidadas para cargos de poder, depois do 25 de Abril.

Havia uma direita nacionalista, da qual ele, Nogueira Pinto, fazia parte, que poderia ter-se organizado e sobrevivido no regime democrático. Tal não aconteceu porque, na tentativa de golpe direitista de 28 de Setembro de 1974, todos eles se colocaram ao lado de Spínola para tentar o reviralho e foram presos ou obrigados a fugir.

Era o recém-criado Partido do Progresso, eram os elementos de “uma direita intelectual e activista, de movimentos de juventude, que não se identificavam com o salazarismo, mas mais depressa com ideias fascistas. Não se autodesignavam como de direita, mas como nacionalistas revolucionários”.

Mas o próprio Nogueira Pinto reconhece que estas facções não tinham relevância, e não teriam grande futuro, porque a sua grande causa era o império. E eram fracas porque Salazar nunca as deixou desenvolver-se. Por paradoxal que pareça, a direita foi praticamente extinta durante o salazarismo. “O Salazar não queria essa gente. Quem fazia política era o Governo. Não havia partido. A União Nacional era uma coisa só para as eleições, mas o Salazar nunca lhe ligou nenhuma. Só havia o Governo, e no Governo quem definia a política era o Salazar. Os ministros eram apenas técnicos e os que tentaram ter uma palavra política não duraram muito. As únicas pessoas que tinham actividade política eram as de esquerda.”

Apesar de perseguidas, conseguiram criar o seu espaço, mais ou menos clandestino. No Partido Comunista, nas revistas, como a Seara Nova, a Vértice, ou o Tempo e o Modo, nas editoras. “Há hoje muito mais pensamento livre de gente de direita do que havia naquele tempo”, disse Jaime Nogueira Pinto, cujos livros estão agora a ser reeditados pela Dom Quixote.

Um partido democrata-cristão também não se chegou a formar. Não tinha qualquer base anterior à revolução, mais uma vez porque Salazar não deixou. “Seria cristão, mas também democrata, e Salazar não queria ver essas duas palavras juntas”, disse Araújo. “Além disso, Salazar, apesar da fama de sacrista, era um homem da razão de Estado.”

Depois do 25 de Abril também não foi possível “porque Cunhal tinha muito medo da Igreja”, explicou Araújo. E não havia nenhuma força que tivesse ligações com a democracia cristã europeia. “O Sá Carneiro tentou entrar na Internacional Socialista, não na democracia cristã.”

Os partidos que se formaram eram todos de esquerda. O mais à direita do espectro era o CDS, que se proclamava do centro e tinha a construção do socialismo como um dos pontos do programa. O outro era o PPD, que se considerava social-democrata. Dos dois, segundo Jaime Nogueira Pinto, era o CDS que tinha menor legitimidade, porque os seus fundadores tinham tido ligações ao antigo regime. Os do PPD (Sá Carneiro, Pinto Balsemão) haviam lutado na ala liberal da Assembleia Nacional marcelista. Isso habilitava-os a actores legítimos no novo regime. Por essa razão o futuro PSD seria o partido maioritário da direita, e não o CDS, o que teria levado ao grande paradoxo do regime que temos hoje: os dois partidos que se alternam no poder (PS e PSD) são iguais.

O que, segundo os actuais paladinos da nova direita, talvez não corresponda à verdadeira polarização da sociedade portuguesa. “No PSD e CDS, os princípios políticos estão à esquerda dos dirigentes, os dirigentes estão à esquerda dos militantes, os militantes estão à esquerda dos eleitores”, brinca Jaime Nogueira Pinto.

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O politólogo Jaime Nogueiro Pinto diz a brincar: "sou o fascista de serviço" Rui Gaudêncio
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Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas discutiram há três semanas os tempos em que fundaram e dirigiram o Independente Pedro Nunes
O 25 de Abril já não está em causa

A direita que agora surge no espaço público não se sente presa a esta lógica. “Eu tanto critico o Álvaro Cunhal como o Salazar”, disse João Pereira Coutinho. “Sou conservador, mas condeno qualquer tipo de ditadura. Quero viver num regime livre, onde possa ter acesso aos meus livros, às minhas revistas. Quando amigos estrangeiros me perguntam quanto tempo durou a nossa ditadura, eu tenho vergonha de dizer.”

Pereira Coutinho considera-se um conservador, na esteira de Burke, o irlandês que criticou a Revolução Francesa. Dá mais valor à tradição do que à revolução. Considera que, nas sociedades, as mudanças devem ser graduais e parciais, segundo o princípio de que o que existe é quase sempre melhor do que as mudanças que poderíamos fazer, e as realidades mais antigas tendem a ser as melhores, porque resistiram à prova do tempo. “Para quê mudar, se as coisas já estão tão mal?”, cita ele. Mas até os conservadores mais ortodoxos aceitam a necessidade de uma revolução, em certos casos difíceis. “O 25 de Abril é definitivamente um desses casos em que a revolução foi necessária e justa.”

A direita moderna aceita o 25 de Abril sem reservas, como momento fundador do regime que hoje vigora, diz Pereira Coutinho. Não o 25 de Novembro de 1975, que deve ser visto apenas como um momento aperfeiçoador e estabilizador do regime.

O 25 de Abril já não está em causa para a direita e por isso também já não faz sentido que a esquerda o use como arma de arremesso, disse António Araújo. Isso significa que, entre os intelectuais da nova geração, direita e esquerda não se encaram já como inimigos mas como adversários. Não como forças que é preciso exterminar mutuamente, mas que devem coexistir, não apenas porque não há outro remédio, mas porque é desejável que assim seja. “Um intelectual da esquerda como o Daniel Oliveira, por exemplo, precisa do contraditório para se afirmar”, disse Araújo. “É um intelectual público polémico, só existe com o contraditório. Precisa de adversários à altura.”

É claro que, a ser verdade, isto implica uma redefinição da teoria clássica da luta de classes. A esquerda terá de admitir que ser de direita não consiste apenas em defender os privilégios da própria classe, contra as reivindicações justas dos explorados.

Os novos intelectuais de direita esforçam-se por desmontar esta lógica. Antes de mais sendo muitos deles de origem humilde. É o caso de Henrique Raposo, que não se cansa de o repetir, nas suas crónicas do Expresso. “Afirmando as origens humildes, estes cronistas reivindicam a meritocracia e rejeitam a origem de classe”, disse Araújo. “Podem disputar à esquerda essa legitimidade. Henrique Raposo expõe a sua autobiografia para dizer que não é um filho-família. Está ali por mérito próprio. A Internet e a blogosfera são muito democratizadoras.” Para Araújo, foi a blogosfera que tornou possível aos cronistas de direita usurparem os lugares que na imprensa tradicional eram monopolizados pelos de esquerda. Agora não há filtros nem hierarquias, qualquer um pode exprimir-se e conquistar audiências. E quem o está a fazer com mais êxito são os cronistas de direita, que dos blogues saltam para os jornais tradicionais, que procuram desesperadamente conquistar ou manter audiências.

“O Expresso contratou-me porque eu sou bom”, disse Henrique Raposo, para quem ser de direita ou de esquerda nada tem que ver com origem social. Para ele, o 25 de Abril e o regime que dele emanou também não estão em causa. Já a Constituição, sim. Isso é o que pode hoje dividir direita e esquerda, embora não devesse ser assim. “Eu, como pessoa de direita, sinto-me inferior perante esta Constituição, que diz que quem não é socialista não pode governar.” É o momento de alterar a lei fundamental. “A direita já não tem medo de ir para o Campo Pequeno, a esquerda já não receia morrer nas fogueiras do Norte. Já nos podíamos sentar à mesa e fazer uma Constituição nova.”

Uma genealogia para a actual direita

A direita é, por natureza, mais realista do que a esquerda, que prefere as utopias. “A esquerda pensa por variáveis económicas e sociais; a direita por variáveis culturais e institucionais. A esquerda tem de fazer um esforço para acompanhar as coisas, de um ponto de vista institucional.” Por isso, talvez a direita seja mais competente a aperfeiçoar as instituições, diz Raposo. Instituições que permitam a coexistência e o combate político num quadro estável que anteceda os partidos.

“A nossa tragédia tem sido, pelo menos desde o século XIX, os nossos radicais terem ganho sempre aos moderados, quer à direita, quer à esquerda. Houve guerra entre liberais e miguelistas. Nunca conseguiram sentar-se à mesa. Depois, com os miguelistas anulados, houve as guerras entre os liberais.” O mesmo aconteceu com a República e com o Estado Novo: os adversários são aniquilados.

É por isso que a direita de hoje tem muito a aprender com os moderados do período liberal, considera Raposo. Geralmente, pensa-se que os 48 anos do antigo regime criaram um hiato tão grande que não há qualquer continuidade entre os partidos do período liberal e os actuais. Quando muito, há uma herança da I República que foi recuperada pelo actual PS, além do Partido Comunista, que se baseava numa ideologia externa e no exemplo soviético. Todo o espectro político de hoje teria nascido em 1974 a partir do nada.

Henrique Raposo trabalha para dar uma genealogia à actual direita, que não a tem e é por isso mais frágil do que a esquerda. Acha que houve uma improvável e oportunista aliança conspirativa entre os integralistas no Estado Novo, encabeçados por António Sardinha, e os intelectuais de esquerda republicana liderados por António Sérgio, para fazer esquecer o período liberal, da monarquia constitucional. Por motivos opostos, interessou a Sardinha e a Sérgio identificar o liberalismo com a monarquia, por oposição à República, e esta com a esquerda, por oposição ao Estado Novo. Isto significa que se esqueceram cem anos fundamentais da nossa História, quando o que deveríamos hoje ignorar era o período da República e do Estado Novo como um bloco. “A monarquia liberal foi apagada da nossa História, tanto pela esquerda como pela direita.”

Em suma: para Raposo, os liberais moderados defensores da carta Constitucional, os cartistas, são os legítimos antepassados da moderna direita de hoje. “Temos 100 anos de História para aproveitar. Os cartistas, Palmela, Rodrigo, Fontes e Franco pensaram o país dentro de uma lógica de direita liberal. Esses 40 anos, entre 1851 e o Ultimato de 1890, foram os únicos em que tivemos uma civilização constitucional. Esses 40 anos e estes últimos, da III República, foram os melhores de toda a nossa História. O que temos de aprender com os cartistas é a criação de um conjunto de regras que tem existir antes dos partidos.”

A inspiração francesa

Esta será uma das facetas da nova direita. Outra é o liberalismo da tradição anglo-saxónica. Chegou porque, explica Jaime Nogueira Pinto, “os americanos ganharam a Guerra Fria”. O neoliberalismo começou nos anos 1980, com Margaret Thatcher e Ronald Reagan, num impulso de desregular os mercados, baixar os impostos e, no caso britânico, acabar com o poder dos sindicatos. Isto acompanhado de um renascimento religioso e um fortalecimento do Estado nas relações externas, o patriotismo e o rearmamento.

Esta visão anglo-saxónica da direita opunha-se à continental europeia, mais marcada pelo autoritarismo. Nogueira Pinto, autor de uma prestigiada tese de doutoramento de mais de mil páginas sobre ideologia e razão de Estado, considera que o regime político inglês (e em consequência o americano) não é uma verdadeira democracia. “Na Inglaterra, a grande preocupação do sistema é preservar os direitos e liberdades individuais. Já na tradição francesa, a preocupação é assegurar o governo da maioria.”

Segundo Rousseau e os filósofos da Revolução, a maioria representa o povo, que é uma espécie de entidade sagrada, como dantes era o rei. A maioria deve portanto exercer o poder. Os sistemas anglo-saxónicos estão organizados para proteger as minorias do poder absoluto da maioria, ou seja, são mais individualistas e estão mais bem apetrechados para proteger os privilegiados.

A tradição da direita portuguesa sempre foi a francesa. Mas nos anos 1980 deu-se uma inflexão, por vários motivos. “As direitas partidárias, mas também intelectuais, queriam escapar ao estigma do autoritarismo salazarista”, disse Nogueira Pinto. “Por isso, agarraram-se muito à questão da liberdade política, que nunca foi um grande valor da direita continental. A Inglaterra, por ser uma ilha, e os EUA, uma nação-continente, nunca tiveram necessidade de ter um Estado de poder concentrado. As direitas em França e noutras nações europeias sempre defenderam o autoritarismo. Os EUA misturaram duas coisas que na Europa não eram misturáveis: o liberalismo económico, a ideia do pequeno estado no sentido económico e o grande estado no sentido militar e político. Aqui em Portugal e noutros países europeus mais marginais o que apanhámos foi este segundo lado, da desregulação e do pequeno estado económico, porque estávamos no período da desintervenção, que tínhamos feito no PREC.”

Outras razões foram a crescente hegemonia cultural dos EUA e o facto de muitos jovens portugueses terem ido para lá estudar, nos anos 1980.

O liberalismo económico de matriz anglo-saxónica é portanto outra das facetas da nova direita. Uma característica que foi preciso conciliar com o padrão tradicionalista nos costumes que sempre foi apanágio da direita portuguesa. É uma das contradições clássicas da direita — o paradoxo entre o liberalismo económico e o tradicionalismo nos costumes, tal como entre o Estado forte para manter o poderio e soberania da nação, e o Estado fraco, que não intervém na economia. A liberdade de iniciativa, de criar a sua própria empresa, sem obstáculos, e a ordem nas ruas, a segurança que só um Estado forte pode garantir. Entre o individualismo e a autoridade. Em Portugal, essas contradições eram particularmente agudas.

O legado que o Independente deixou

A síntese foi introduzida nos anos 1980 por um veículo cultural particularmente poderoso e original: o semanário O Independente. Era um jornal de direita, que agradava à juventude e intelectualidade de esquerda. Miguel Esteves Cardoso representava o cosmopolitismo e a ousadia estética de um estrangeirado genial, enquanto Paulo Portas lançava ataques políticos que combinavam virulência e inteligência, com consequências contundentes na política corrente. O Independente, depois do Semanário e da sua revista de novidades sociais, a Olá, representaram o primeiro grande contra-ataque da cultura de direita, depois da revolução.

Veicularam uma certa ideologia individualista, acompanhada de elitismo (levada ao extremo nos ataques à suposta “parolice” e “arrivismo” de políticos como Cavaco Silva, oriundos de classes sociais relativamente baixas) misturadas com revivalismo estético (em bandas de música como os Heróis do Mar) e divulgação do mais arrojado que se fazia no estrangeiro, em termos artísticos.

Os intelectuais da nova direita reivindicam hoje entusiasticamente esta herança de Miguel Esteves Cardoso e O Independente. E protagonizam um novo assalto aos media, ancorado nas crónicas, nos blogues, nos livros e agora no Observador.

Tal como no tempo do Independente, surgiu uma linguagem agressiva e iconoclasta, muito opinativa. Segundo Araújo, é a lógica da blogosfera e das redes sociais que permite e instiga este tipo de atitude, ao obrigar à permanente notoriedade. “A competição é enorme, as pessoas só existem se obedecerem à tirania da notoriedade. É preciso estar sempre a emitir opiniões, a ser agressivo e original.”

Outra razão é a competição com os intelectuais da esquerda, que não têm tanta necessidade de provar o seu valor. “Temos de ser melhores do que eles, porque trabalhamos em ambiente hostil”, disse Raposo. O ambiente hostil que ainda são os jornais e revistas, onde ainda há uma hegemonia da esquerda, mesmo que não se dê por ela, de tão habitual. “Escrever crónicas nos jornais, para nós, é como ser do Benfica e ir todas as semanas jogar ao estádio do Dragão.”

Araújo notou que, por exemplo, a forma como vários cronistas da direita se têm referido a Mário Soares denota uma agressividade e informalidade que eram até aqui apanágios dos cronistas da esquerda. “Mesmo em termos de vestuário, os novos cronistas são diferentes, mais informais. Olhe para o Henrique Raposo. Não andam de fato e gravata. Perderam os complexos de direita, não querem ser identificados com betinhos. O que provoca mais horror aos novos intelectuais de direita é serem identificados com a direita ultramontana, caceteira, miguelista, reaccionária, ou a direita dos fados e das touradas. Eles renegam isso, a direita dinástica, familiar, provinciana. São urbanos, sofisticados, cosmopolitas, universitários. Pedro Mexia não é universitário, mas move-se nos meios literários e intelectuais sem complexos, como qualquer indivíduo de esquerda.”

Este tipo de atitude é também a que impede estes novos intelectuais de direita de se misturarem com os partidos da direita. Nogueira Pinto e Raposo dizem que, ao contrário dos intelectuais de esquerda, têm outros interesses, para além da política. A direita interessa-se pela realidade, enquanto a esquerda se ocupa da utopia. A direita não está portanto tão preocupada em mudar essa realidade. Gosta dela tal como é, é esse o princípio do conservadorismo.

Raposo disse que, mesmo com as suas crónicas, não tem por objectivo influenciar os eleitores, e muito menos os dirigentes partidários, mas apenas comunicar com os seus leitores. Admite que está a formar neles, principalmente nos mais jovens, uma mentalidade diferente, mas que só produzirá resultados visíveis a nível político na próxima geração.
“Estes bloggers e cronistas são franco-atiradores”, disse Araújo. “Beneficiam do star-system, mas não têm tradução política imediata. O importante para eles é terem conquistado o direito de existir. O direito de cidadania. Como se soubessem que a única coisa que têm agora é o direito de estar no circo. E eles não querem entrar na política partidária. São inexperientes nisso. Não fizeram o percurso da ‘carne assada’, como os líderes políticos têm de fazer. Ou se andou em Yale ou na ‘carne assada’. Por isso os partidos vão continuar imunes a estas pessoas. No momento em que eles quiserem dominar, a máquina expulsa-os.”

Os representantes da nova direita intelectual têm a noção de que o seu poder está fora dos partidos, nos media. Além disso, são demasiado heterogéneos ideologicamente para que se pudessem organizar num projecto. Essa é uma das suas características. Uns são liberais, outros nacionalistas, uns conservadores, outros libertários. E em comum têm alguma coisa? O que os faz dizer que são de direita? Poucas coisas. O tradicionalismo, o valor da nação, a religiosidade. Mas nem isso é comum a todos. Uma coisa sim: o pessimismo. Pessimismo antropológico, diz Nogueira Pinto. A crença de que o ser humano é mau. “A esquerda acha que o homem, se o deixarem livre e sozinho, fará coisas maravilhosas. A direita desconfia disso. É preciso haver autoridade ou não permitir que ponham em prática projectos totais, utópicos.” É por isso que a direita é necessária, segundo ela própria, para evitar a perigosa mudança. E que precisa da esquerda, senão nada muda.