Governos europeus abrirão uma “profunda crise institucional” se rejeitarem Juncker para presidir à Comissão Europeia

Presidente do grupo parlamentar do PPE (centro-direita) garante que o novo Parlamento Europeu votará contra qualquer outro candidato que não seja o ex-primeiro ministro do Luxemburgo

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Manfred Weber deixa um aviso a Cameron: "o Reino Unido é apenas um em 28 Estados membros" DR

 “Se Jean-Claude Juncker não for o candidato, teremos uma grande crise institucional, não vejo qualquer possibilidade de o PE votar a favor de outro nome”, garante Weber, eurodeputado alemão de 41 anos, recentemente eleito presidente do Grupo parlamentar do PPE, a família política mais votada nas eleições europeias de 25 de Maio.

Em entrevista ao PÚBLICO, Weber garante que o PPE está todo na mesma linha, e que não há qualquer “plano B” sobre um possível candidato alternativo que possa ser aceite pela sua bancada parlamentar.

“Digo claramente que os Estados membros e as instituições que tentam alterar a proposta de Jean-Claude Juncker, que estão a fazer um jogo muito perigoso”, afirmou, lembrando que o luxemburguês é o candidato do PPE que foi apresentado como tal aos eleitores nas eleições europeias de 25 de Março.

“O PPE é o grupo mais forte, ganhámos as eleições, o que foi surpreendente, porque o PPE aplicou nos últimos anos em toda a Europa, ao nível nacional e europeu, decisões duras e impopulares por causa da crise da dívida”. “Mas somos o maior grupo, o que significa que temos o apoio [dos eleitores] para escrever o programa para a Europa para os próximos cinco anos”, frisou.

Mesmo assim, reconheceu, vai ser preciso negociar com os socialistas europeus, a segunda maior família política, a constituição de uma maioria parlamentar, porque nenhum dos dois grupos tem uma maioria absoluta sozinho. Isto, tanto para a definição das prioridades da próxima Comissão Europeia, como para os três lugares de topo em Bruxelas que os líderes da UE querem preencher durante a cimeira europeia de 26 e 27 de Junho: presidente da Comissão Europeia, presidente do Conselho Europeu (as cimeiras de líderes dos 28) e alto representante para a política externa.

Weber reconhece que ainda não há uma maioria qualificada clara de votos dos 28 países da UE em favor da escolha do luxemburguês, mas acredita que a questão ficará clarificada até à cimeira de 26 e 27 de Junho.

“Se alguns membros do Conselho [Europeu] estiverem a tentar não propôr Juncker, provocarão uma profunda crise institucional na UE. Toda a gente tem de estar consciente disto”, insistiu o eurodeputado eleito pela CSU, o partido “irmão” bávaro da CDU de Angela Merkel.

Depois de contactos realizados esta semana com Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu que foi mandatado pelos líderes dos 28 para tentar encontrar uma solução consensual tanto para os Governos como para o PE, Weber considera que as negociações “estão no bom caminho para um compromisso”.

Mesmo Angela Merkel – que logo a seguir às eleições deu sinais de alguma ambiguidade sobre o seu apoio a Juncker – tem insistido nos últimos dias que o luxemburguês é o seu candidato.

“Hoje não tenho qualquer dúvida de que Angela Merkel apoia Jean-Claude Juncker e que votará em nome do Governo alemão dentro de algumas semanas a seu favor”, afirmou.

Para Weber, o Reino Unido – cujos partidos conservador e liberal membros da coligação governamental não pertencem ao PPE – é o único país que se opõe de forma clara à escolha do luxemburguês. Juncker, que até Dezembro passado se mantivera à frente do governo do seu país durante 19 anos, incluindo 8 enquanto presidente do eurogrupo (as reuniões dos ministros das Finanças do euro), é visto em Londres como um entusiástico defensor de “uma união cada vez mais estreita” entre os povos da Europa, um objectivo que está inscrito desde o início no Tratado da UE  mas que os britânicos querem desfazer.

David Cameron, primeiro-ministro britânico, desenvolveu nas últimas semanas uma cruzada anti-Juncker de tal forma dura – chegando ao ponto de ameaçar com um veto e mesmo com a saída do Reino Unido da UE – que acabou por colocar a maioria do PE a favor do luxemburguês, mesmo entre os grupos parlamentares que à partida não o apoiavam.

A possibilidade que chegou a ser avançada em privado pelos próximos de Van Rompuy de uma possível desistência “voluntária” de Juncker para dar lugar a um nome consensual entre os 28 de modo a resolver o impasse com os britânicos, é igualmente afastada por Weber, mesmo que um possível nome alternativo saia na mesma do PPE.

“O próximo presidente da Comissão será não só do PPE mas será Jean-Claude Juncker, isso é certo”, garantiu. O eurodeputado alemão não acredita aliás que o luxemburguês decida abandonar o barco.

“Tive várias conversas com Jean-Claude Juncker desde as eleições e vejo-o como um candidato muito forte e empenhado. Juncker tem muita experiência ao nível europeu, conhece todos os meandros e está seriamente consciente de todos os desafios que enfrenta ao nível europeu. É por isso que estou plenamente convencido de que ele é o melhor candidato e que será um presidente da Comissão verdadeiramente independente”, vincou.

Os eurodeputados do PPE, os cessantes e os recém-eleitos, vão reunir-se na próxima semana em Portugal, em Albufeira, no que Weber considera uma reunião “muito importante e central” para definir as prioridades do grupo parlamentar para os próximos anos. O encontro incluirá nomeadamente os primeiros-ministros de Portugal, Grécia, Finlândia, e Hungria, o vice-primeiro-ministro português, os ministros das Finanças de Portugal e Alemanha e os presidentes da Comissão e do Conselho Europeu. A reunião também será determinante para preparar as negociações que o PPE iniciará com os socialistas a partir da semana seguinte para a formação de uma maioria parlamentar.

As negociações incluirão, ainda, um acordo para a escolha do presidente do PE, cujo mandato deverá ser, como habitualmente, dividido em dois períodos de dois anos e meio ocupados por um eurodeputado de cada um dos dois grupos.

Weber frisou igualmente que apoia os esforços de Merkel para construir “pontes para os britânicos poderem atravessar”, de modo a poderem salvar a face no braço de ferro em torno da presidência da Comissão, nomeadamente no que se refere a algumas reformas da UE defendidas por Londres apoiadas pelo PPE: “redução da burocracia, não intervenção nalgumas competências nacionais que seria possível do ponto de vista europeu, e respeito pelos Governos e parlamentos nacionais”. “Somos muito a favor”, afirmou.

Além disso, insistiu o deputado alemão, “também somos o partido da competitividade, o partido das reformas. Não é fácil dizê-lo às pessoas, mas estamos num mundo globalizado em que não há alternativa. Nestas questões estamos muito próximos dos britânicos. Por isso queremos tê-los a bordo, é o nosso desejo, embora deixando claro que não há qualquer possibilidade de veto: o Reino Unido é apenas um em 28 Estados membros. Portugal tem o mesmo direito de definir os seus princípios para o próximo período de 5 anos, da mesma forma que o Reino Unido. Todos os Estados membros são iguais”, insistiu.