Retrato de um agitador

Pedro Alfacinha esteve na fundação da editora MACK, em Londres — decidiu usar a experiência acumulada para abrir uma galeria em Lisboa, de onde nunca quis sair
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Pedro Alfacinha esteve na fundação da editora MACK, em Londres — decidiu usar a experiência acumulada para abrir uma galeria em Lisboa, de onde nunca quis sair Rui Gaudêncio

Há um ano, ria-se só de se imaginar à frente de uma galeria. Mas a que abrirá em Setembro em Lisboa leva o seu nome, Pedro Alfacinha, e promete expor a fotografia portuguesa a mais olhares estrangeiros

Estava no fim do curso de Fotografia, mas foi o catering que lhe abriu o caminho para o frenético mundo da edição de livros de fotografia. Contratado para “servir copos” na loja da editora Steidl numa festa durante o festival Photo London, não descansou enquanto não conseguiu um trabalho na loja, a vender livros. Quando a livraria fechou, Michael Mack, um dos directores da Steidl, viu nele a força motriz para lançar o primeiro livro de uma nova editora. Correu bem. Tão bem que Pedro Alfacinha acabou como número dois da MACK, que ajudou a fundar e que é hoje uma das editoras de livros de fotografia com mais pujança internacional. Depois de sete anos em Inglaterra, o amor levou-o para São Paulo. No regresso, já não foi capaz de voltar a Londres, por causa do chamamento de Lisboa, de onde “nunca quis sair”. Deixou a MACK no início do ano, mas decidiu usar a experiência acumulada para abrir uma galeria de arte que vai dedicar-se à fotografia. A inauguração está prevista para o dia em que cumpre 29 anos: 25 de Setembro. Era um passo “inevitável”, diz, porque faltam “agitadores”, em Lisboa e no mundo. Entre os dez nomes já anunciados para a Galeria Pedro Alfacinha, há quatro portugueses, André Cepeda, André Príncipe, António Júlio Duarte e José Pedro Cortes. Conversa com banda sonora natural à mistura: chuva diluviana em chapas de zinco.



Saíste de uma editora de livros de fotografia com reputação internacional em crescendo, a MACK, para fundar uma galeria em Lisboa. O que te motivou?

A primeira motivação é voltar a Lisboa. Foram sete anos fora, é imenso tempo. Nunca quis ir embora. Só fui porque quis estudar fotografia. Londres surgiu como a melhor hipótese. No fim do curso, estava pronto para vir, mas foi nessa altura que conheci o Michael Mack.

Na escola?

Não. A história é esta: em Londres, conheci os fotógrafos Carlos Lobo e Paulo Catrica, que são completamente loucos por livros. Foi através do Carlos que percebi que havia uma loja da Steidl [uma das maiores editoras de livros de fotografia do mundo] em Londres. Fui lá deixar o meu currículo. Uns meses depois ligaram-me a dizer que iam ter uma festa para o fotógrafo John Sternfeld. Precisavam de alguém para servir copos. Trabalhava no catering e disse-lhes que fazia isso com uma perna às costas. Impressionei-os e fiquei a trabalhar na livraria. Entretanto, a loja fechou e nesse dia escrevi ao Michael, que era então um dos directores. Ele pediu-me o currículo. 

E depois?

Chamou-me. Pensava que ia para uma entrevista, mas quando lá cheguei já tinha uma lista de coisas para fazer. Nessa altura ainda não existia a MACK, que foi fundada algum tempo depois. Fui furando, fui arranjando o meu lugar. No Verão em que terminei o curso [Belas-Artes, especialização em Fotografia] estava farto de Londres e estava para me vir embora. Mas houve um milagre, que foi a fundação da MACK. O primeiro livro da editora explodiu, foi muito bem recebido. Esse livro veio parar-nos às mãos por minha causa, um pouco por acaso. No estúdio do [fotógrafo alemão] Thomas Demand, em conversa sobre o Luigi Ghirri [fotógrafo italiano, 1943-1992], percebi que ele queria fazer um livro a propósito de uma exposição de que tinha sido curador [em 2011, na galeria Matthew Marks, Nova Iorque]. Disse-me que se gostava do Ghirri devia fazer este livro. Como a Steidl

não respeita prazos, é totalmente errática, o Michael decidiu fundar a MACK para fazer esse livro em particular [La Carte D’Après Nature]. Havia pouca coisa para fazer e o Michael começou a embirrar. Então desafiou-me a provar que sabia fazer um livro. Fiz o livro. E arrancamos com a MACK. 

Mas o que te motivou agora?

Não fui embora por causa da crise. Fui antes, em 2006. Adorava Lisboa. Saí porque tinha de estudar. Mas cheguei a um ponto em que não podia crescer mais na MACK. O Michael deixou-me crescer o máximo na editoram e mais do que alguma vez imaginou que pudesse crescer. Mas andávamos sempre à pancada. Somos egomaníacos, mas somos muito amigos. Um das gotas de água foi a minha ida para São Paulo por causa de uma paixão. Como é um romântico, o Michael aceitou que fosse para o Brasil e que continuasse a fazer o mesmo trabalho a partir de lá. E assim foi. Mas o problema foi quando decidi voltar. Vim para Lisboa. Não regressei a Londres. Aí as coisas começaram a ficar um bocado tensas. Fui preparando a minha saída. Mas a parte mais interessante disto tudo é que eu não escolhi fazer isto. Se me perguntassem em Setembro de 2013 se alguma vez abriria uma galeria, eu ria-me. Mas foram os artistas portugueses que me incentivaram. 

Como assim?

Acho que reconheceram que tinha um papel como representante de uma cena de fotografia portuguesa. E a galeria foi-se formando na nossa cabeça. Fui alimentando essa ideia sobre como é que podia ser feito. Em Janeiro despedi-me da MACK, fiquei mais uns meses, e agora estou a cem por cento na galeria. 

O que é que te faz acreditar que a fotografia tem um mercado em Portugal? Não te assusta a actual conjuntura?

Não. O meu mercado não é Portugal. Essa é a principal razão pela qual faz sentido começar esta galeria. O mercado é internacional. E esta é a maneira como aprendi a fazer as coisas. Tenho muito mais contactos lá fora do que aqui. Acredito nessa utopia de que vamos conseguir fazer alguma coisa a partir daqui. O que os meus pares me dizem é que estarei numa posição interessante. Porque não quero fundar uma galeria de fotografia. Quero fazer uma galeria de arte especializada em fotografia. Isso nunca existiu. Mas faz falta.

Qual é a principal ambição da galeria? 

Vou ser tendencioso em relação àquilo de que gosto, àquilo que considero que é mais relevante para a discussão da fotografia neste momento. A principal ambição é ser world class, como os ingleses dizem. Não quero fazer uma galeria só para Lisboa. Quero que muito rapidamente passe a estar na rota das melhores. Queremos estar no Paris Photo assim que possível. 

Foram estabelecidos critérios para a escolha dos autores já anunciados (André Cepeda, José Pedro Cortes, John Divola, António Júlio Duarte, Sébastien Girard, Guido Guidi, Ron Jude, Mårten Lange, Bertien van Manen, André Príncipe)?

Não. Mas um dos critérios, que é natural, é que eu conheço bem estas pessoas. Estes dez são a solução de uma equação muito complicada e que mistura a valência artística, uma linguagem que me agrada e serem pessoas que me conhecem e que confiam em mim.

Mas há algum género que vais privilegiar?

Sim, há um género no sentido em que todos os artistas se preocupam com o lado enigmático da fotografia e querem construir uma linguagem a partir de um olhar para o mundo que os rodeia. Não existe muita construção no trabalho destes artistas.

A maioria dos fotógrafos tem uma carreira já firmada e alguns deles, como o Guido Guidi e a Bertien van Manen, são nomes com reputação internacional. Haverá espaço para novos talentos?

Depende. Se houver cumplicidade na atitude e na maneira como se trabalha um linguagem. Estou aberto a todo o tipo de propostas.

Achas que a fotografia portuguesa tem sido mal representada internacionalmente?

Muito. O que se faz cá está ao nível do melhor que se faz noutros lugares. O António Júlio Duarte é um fotógrafo excepcional em qualquer parte. O facto de o António não ser exposto nos melhores museus do mundo é inaceitável. E isso também vai ser o meu trabalho, é por isso que vou lutar. 

O que é que tem falhado?

Não sei. Acho que é igual ao que se passa noutros sítios, há falta de agentes. São precisos agentes que activem as coisas, que funcionem como interlocutores. Há muitos galeristas, há muitos curadores (dois cargos com agendas muito próprias), mas agitadores é uma coisa que falta em todo o lado. Não é só em Portugal.

Gostavas de ser essa figura, um agitador?

Reconheço-me um bocado assim. É isso que sou. A ideia não é fundar uma galeria no seu formato tradicional. Quero fazer coisas fora dela, trazer exposições para Portugal, trabalhos que não vou poder mostrar no meu espaço.

Que tipo de coleccionadores ou compradores de fotografia esperas alcançar ou influenciar?

Quero trabalhar para gente que queira fazer uma colecção séria. E isso pode ser um coleccionador de arte que tenha uma colecção gigante mas que nunca comprou fotografia como pode ser alguém da minha idade que se viu com algum dinheiro e gostava de investir em arte.

Quantas exposições haverá por ano?

Como o espaço é pequeno, as exposições devem ser curtas. Tenho ideia de fazer oito por ano.

A galeria vai abrir em Setembro com uma exposição de Guido Guidi (Cesena, Itália, 1941). Que tipo de trabalho vai ser mostrado?

Tenho uma preocupação com a primeira exposição — tem de ser uma declaração de intenções. O Guido é de todos o mais tradicional, o mais fotógrafo dos meus artistas. Isso preocupava-me porque não quero abrir uma galeria de fotografia. Quando fui ter com ele pensámos em fazer uma selecção nova, mas não era com a intenção de fazer uma exposição, nem a primeira exposição sequer. Havia a ideia de fazer uma selecção para vender. Mas quando vi as provas… percebi que tinha de ser isto. O Guido é um mestre, é um artista singular. Esta selecção de imagens vai mostrá-lo como nunca foi mostrado. O que acontece muito com o trabalho do Guido é que há sempre muita influência dos curadores nas exposições. O trabalho dele leva sempre direcções com que não me identifico muito, ou é equiparado a outros fotógrafos, ou então são selecções muito centradas na arquitectura. 

Centradas em temas…

Exacto. Esta selecção é muito transversal. São imagens feitas na região do Véneto, Itália, entre 1984 e 1986 e não existe tema. Existe Guido a ser Guido. 

A seguir a Guido, vem André Príncipe (Porto, 1976) com Antena 2. Que trabalho é este?

É um trabalho que ainda está ser feito. Não é uma série. Vamos tentar rejeitar as imagens de viagem que têm sido uma constante no seu trabalho. 

A lista de artistas ainda vai ser aumentada? Há mais algum nome na calha?

Prefiro não revelar.

São portugueses?

Há um português. Haverá necessidade de expandir esta lista, mas é uma coisa que terá de ser feita com os pés bem assentes no chão.

O que é que procuras num livro de fotografia?

Procuro um objecto completo. Mas isso tem a ver com a minha experiência e com os meus traumas. Procuro um trabalho seguro de si. Gosto da ideia de que me estão a fazer uma proposta clara. Não precisam de me contar uma história, antes pelo contrário. Mas a proposta tem de ser clara. 

Que fotógrafo gostarias de ter na galeria que não vais ter (os mortos também valem)?

Não há nenhum fotógrafo que eu não possa ter [risos]! Estou a exagerar… Não, muito francamente, dos que gostava mesmo, há muitos que não poderia ter. Mas esses também não me interessava ter, tipo Andreas Gursky. Há muitos astros que não vou ter já, mas que posso vir a ter, tenho confiança nisso. Posso dar dois exemplos, sem ser indiscreto. Já houve uma conversa com o Paul Graham (1956), mas neste momento não posso representá-lo, seria descabido. Logo que seja possível, pelo menos uma exposição na galeria haverá. E a mesma coisa com o trabalho de Luigi Ghirri. 

Quando foram anunciados os primeiros oito artistas da galeria, disseste que este projecto era uma “grande aventura”. Manténs essa ideia?

Claro. É uma aventura que eu não tenho hipótese de não fazer. A ideia de fazer com pouco é arriscada. Ao mesmo tempo, tenho confiança na minha visão e no meu arrojo. Para ser sincero, não tenho medo. Se tiver de fechar a galeria e de ir procurar emprego, isso não vai ser uma nódoa no meu currículo. Acho que toda a gente percebe o risco de uma coisa destas. É uma aventura enorme, claro, mas é inevitável que a faça.