A ciência em Portugal há mais de 500 anos

Aparecem divulgados pelo mundo feitos de estrangeiros, alguns bem inferiores aos de portugueses, enquanto estes são ignorados.

Na Grécia antiga, Pitágoras e Euclides são nomes bem conhecidos. Mas a esse período de grandeza seguiu-se uma Idade Média de grande estagnação, em que a pseudociência dos alquimistas nada fez progredir o conhecimento humano.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Na Grécia antiga, Pitágoras e Euclides são nomes bem conhecidos. Mas a esse período de grandeza seguiu-se uma Idade Média de grande estagnação, em que a pseudociência dos alquimistas nada fez progredir o conhecimento humano.

Em 1965, publiquei no Jornal do Comércio (ao tempo o mais antigo diário português, infelizmente já desaparecido), o artigo “A investigação científica em Portugal há 500 anos” (transcrito no livro Problemas de Investigação Científica. Problemas da Agricultura, editado em 1969). Desse artigo permito-me respigar:

“O infante D. Henrique estabeleceu aquilo que, em linguagem de hoje, chamaríamos 'uma organização de investigação científica' do mais alto nível e de grande amplitude. A 'Escola de Sagres' era um verdadeiro instituto de investigação científica, com as características que ainda hoje devem existir num instituto digno desse nome. Recolheu-se o conhecimento que havia do mundo e do que outros, particularmente os italianos, faziam em matéria de navegação, tal como hoje reunimos e consultamos a bibliografia científica. Inventaram-se técnicas e instrumentos de navegação. Fez-se do Mundo a descobrir uma exploração sistemática e não o que muitos podem julgar ser um conjunto de viagens à aventura.
(…)
A cinco séculos da Idade de Ouro da investigação científica, Portugal foi pioneiro nos métodos de trabalho nesse sector e ocupou a posição que hoje ocupam os Estados Unidos.”

Uma das características dos portugueses é não serem capazes de reconhecer os feitos dos seus concidadãos. Isso é particularmente grave nos casos de descobertas de importância internacional, pois afectam negativamente a imagem do nosso país no contexto das nações.

Como consequência, aparecem divulgados pelo mundo feitos de estrangeiros, alguns bem inferiores aos de portugueses, enquanto estes são ignorados. Até acontece, como na entrevista citada, que são estrangeiros que vêm chamar a atenção para algo que a maioria dos portugueses ignora.

A propósito ainda desse feito raro que foram os Descobrimentos, sucedeu um caso semelhante. O dr. Werner von Braun foi o pai dos foguetões americanos depois de, na Alemanha, o seu país natal, ter construído as bombas voadoras V2, que alguns prejuízos e mortes causaram, já perto do fim da II Guerra Mundial. Visitou Portugal em 1965 e, numa entrevista aos jornalistas, lembrou o paralelismo entre o trabalho dos portugueses da época dos Descobrimentos e a exploração do espaço dos americanos. (Ouvi algumas pessoas, a propósito dessas declarações, perguntarem: “Ele estava a fazer troça de nós, não estava?”). Acontece que, em alguns artigos, eu tinha referido exactamente esse paralelismo, o que motivou outro artigo, “Von Braun, os voos espaciais e os Descobrimentos”.

Quando, nos Estados Unidos, me convidaram a fazer uma palestra num almoço dos Kiwanis (um grupo semelhante aos Rotários) falei sobre “The portuguese space program in the XV century” (“O programa espacial português no século XV”).

Usando um mapa com as principais viagens portuguesas desse tempo, aproveitei a ocasião para elucidar os presentes de muito que desconheciam e, até, sobre Cristóvão Colombo.

Um outro caso, quiçá mais grave, de negligência portuguesa, é o que se passa com o que considero o feito maior dos portugueses no século XX: a I Travessia Aérea do Atlântico Sul, por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, em 1922. O mundo desconhece-a, mas sabe bem quem foi e o que fez Charles Lindbergh, em 1927, com a sua travessia do Atlântico Norte. É, sem, dúvida, um feito importante, mas muito inferior ao da travessia dos portugueses, quase totalmente desconhecida do mundo. A nossa foi cinco anos antes da do americano. Nessa altura, a evolução dos aviões era vertiginosa e comparável à dos computadores nos tempos actuais. Os portugueses, dois geógrafos ilustres, demonstraram, com aparelhos por eles inventados (o sextante Gago Coutinho e o corrector de rumos), a possibilidade de navegar pelo ar com a mesma precisão com que se navegava no mar. Essa espantosa precisão (já testada num voo à Madeira, em 1921) teve a sua maior demonstração na etapa de Cabo Verde aos Penedos de São Pedro (já terras brasileiras), umas ilhotas em que a maior tem uns 200 metros de comprimento, atingidos ao fim de 11 horas de voo sobre o mar.

Não perdoo aos responsáveis pela Expo-98 o facto de terem desperdiçado a maior possibilidade de demonstrar ao mundo esse feito enorme dos portugueses. Apesar de o tema da Expo ser os Oceanos, ignoraram totalmente a travessia! Na Expo devia ter havido um pavilhão a ela destinado, com painéis elucidativos, o hidroavião Santa Cruz (que está no Museu da Marinha), passagem de filmes da época, palestras por pessoas com competência para darem excelentes descrições desse feito, reedições de livros sobre a travessia (não esquecendo esse magnífico n.º 254, de Dezembro de 1959, da Revista do Ar), edição de outros, escritos para o efeito, em duas ou três línguas estrangeiras, etc. Nada foi feito e desperdiçou-se (por incompetência dos responsáveis) a oportunidade, que talvez não volte a repetir-se, de mostrar aos muitos milhares de estrangeiros – e aos portugueses – um feito notável. Esse pavilhão seria, talvez, a maior atracção da Expo e surpreenderia muitos visitantes.

Investigador coordenador e professor catedrático, jubilado